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AMOR DE
PERDIÇÃO
(1862) –
Novela passional
A obra-prima de Camilo. Nela confrontamo-nos com os
amores contrariados entre um trio amoroso: Teresa de
Albuquerque, Simão Botelho e Mariana Cruz.
Simão Botelho, recriação de um tio paterno de Camilo, é
o protagonista de uma história trágica de amor que
decorre entre 1801 e 1807: Amou, perdeu-se e morreu
amando. Teresa de Albuquerque e Simão vêem-se aos quinze
anos e amam-se para sempre, mas o ódio entre seus pais
leva-os à morte: Simão mata Baltasar Coutinho, primo de
Teresa e pretendente à sua mão (e ao seu património),
pelo que é preso e condenado ao degredo; Teresa,
encerrada num convento, morre tísica.
Singulariza esta história de amores contrariados a
figura de Mariana, filha do ferrador João da Cruz, que
ama Simão, acompanha-o na prisão e no desterro, e
escolhe morrer com ele.
"(...) O juiz de fora de Cascais, solicitando lugar
de mais graduado banco, demorava em Lisboa, na
freguesia da Ajuda em 1784. Neste ano é que nasceu
Simão, o penúltimo de seus filhos. Conseguiu ele,
sempre balanceado da fortuna, transferência para
Vila Real, sua ambição suprema
À distância duma légua de Vila Real estava a nobreza
da vila esperando o seu conterrâneo. Cada família
tinha a sua liteira com o brasão da casa. A dos
Correias de Mesquita era a mais antiquada no feitio,
e as librés dos criados as mais surradas e traçadas
que figuravam na comitiva.
D. Rita, avistando o préstito das liteiras, ajustou
ao olho direito a sua grande luneta de ouro, e
disse:
- Ó Meneses, aquilo que é?
- São os nossos amigos e parentes que vêm
esperar-nos.
- Em que século estamos nós nesta montanha? - tornou
a dama do Paço.
- Em que século?! O século tanto é dezoito aqui como
em Lisboa.
- Ah!, sim? Cuidei que o tempo parara aqui no século
doze...
O marido achou que devia rir-se do chiste, que o não
lisonjeara grandemente.
Fernão Botelho, pai do juiz de fora, saiu à frente
do préstito para dar a mão à nora, que apeava da
liteira, e conduzi-la à de casa. D. Rita, antes de
ver a cara de seu sogro, contemplou-lhe a olho
armado, as fivelas de aço, e a bolsa do rabicho.
Dizia ela, depois, que os fidalgos de Vila Real eram
muito menos limpos que os carvoeiros de Lisboa.
Antes de entrar na avoenga liteira de seu marido,
perguntou, com a mais refalsada seriedade, se não
haveria risco em ir dentro daquela antiguidade.
Fernão Botelho asseverou a sua nora que a sua
liteira não tinha ainda cem anos, e que os machos
não excediam a trinta.(...)”
Publicado
por
Joaquim Matias da Silva
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