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A
BRASILEIRA DE PRAZINS
(1883) –
Novela
Considerada uma das obras-primas da novelística
camiliana, consta de dois episódios: os amores e o
casamento de Marta e o aparecimento de um sósia de D.
Miguel. O primeiro episódio é um relato do idílio
amoroso de José Dias de Vilalva com Marta de Prazins.
Com a morte de José Dias, Marta virá a ligar-se a um tio
brasileiro, Feliciano da Retorta (Feliciano Rodrigues
Prazins), muito mais velho do que ela (a noiva andaria
pelos16 anos; o tio rico contava já 47), num casamento
que o seu ambicioso pai negociara com a mesma
insensibilidade com que negociava o gado na Feira dos
Treze. Escusado será dizer que o casamento limitou-se a
uma pura entrega do corpo de Marta a Feliciano. A sua
alma pertenceu sempre a José Dias, pelo que o seu papel
no casamento não passou de mero agente reprodutor: dá
cinco filhos a seu marido.
Cerca de 1878, ainda vive – e quando o autor procura o
padre Osório em busca de matéria para um romance, o
reitor de Caldelas resume assim a sua história:
Parece-me que o amor que enlouquece e permite que se
abram intercadências de luz no espírito para que a
saudade rebrilhe na escuridão da demência é
incomparavelmente mais funesto que o amor fulminante. O
que é vulgar é morrer logo ou esquecer quinze dias
depois.
O segundo episódio é uma burlesca intriga do falso D.
Miguel, um aventureiro esfomeado (Veríssimo Borges
Camelo da Mesquita) que, em algumas terras do Minho, se
teria feito passar pelo exilado Rei Absoluto,
conspirando incógnito junto de poucos mas crédulos
partidários do extinto regime. A ligar os dois segmentos
narrativos temos a personagem Zeferino das Lamelas,
mestre pedreiro, que tendo pretendido a mão de Marta,
que muito amava, mesmo depois dela ter “conhecido” José
Dias, se envolve nas maquiavélicas manobras do falso
monarca de São Gens de Calvos.
“- Agora! Quer dizer que o meu cunhado morreu quando
por aí andavam os da Maria da Fonte a tocar os sinos e a
queimar a papelada dos escrivães, sabe vossemecê? Acho
que foi então ou por perto. - E ajuntou: - Ele gostava
aí muito duma moça, isso é verdade. Era a Marta...
- Marta? - disse eu com a satisfação de ver
confirmada a assinatura do bilhete.
- Vossemecê conhece-a?
- Não conheço.
- É a brasileira de Prazins, a mulher do Feliciano da
Retorta, que tem quinze quintas entre grandes e
pequenas.
- Bem sei; mas nunca vi essa mulher.
- Não que ela nunca sai do quarto; está assim a modos
de atolambada há muito tempo. Credo! há muitos anos que
a não vejo. Dá-lhe a gota, salvo seja, e estrebucha como
se tivesse coisa má no interior. É uma pena. Não sabe o
que tem de seu. O Feliciano é o homem mais rico destes
arredores, e vivem como os cabaneiros, de caldo e pão de
milho. Ele quando vai ao Porto receber um alqueire de
soberanos que lhe vem do Brasil todos os anos, vai a pé,
e mete ao bolso umas côdeas de boroa e quatro maçãs para
não ir à estalagem.
Interrompi com interesse de artista:
- Disse-me que ela endoidecera. Foi logo
depois da morte do seu cunhado?
- Isso já me não escordo. Quando eu vim casar para
aqui já meu cunhado tinha morrido. O que me lembra é
dizer-me o meu defunto que Deus tem que o rapaz ganhou
doença do peito pramor dela. Esses casos há muita gente
que lhos conte. Há por aí muito homem do seu tempo.
Pergunte isso ao senhor reitor de Caldelas que andou com
ele nos estudos e sabe todas essas trapalhadas.”
Nesta novela, ficamos a
saber que Santo Tirso foi uma vila onde o escritor
granjeou amigos e se hospedou na pensão Caroço. Para
além do mais, Santo Tirso era um miradouro privilegiado
que permitia a Camilo apreciar a inebriante paisagem
minhota e admirar a veia da água que resvalava mais
impetuosa, até que
“... depois o Ave
espraiava-se em murmúrios de lago dormente, muito
barrento, e deixava-se apegar à ponte da Lagoncinha.”
Publicado
por
Joaquim Matias da Silva
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