|
MOVELAS
DO MINHO
(1875 /
77) –
Romance realista
O epicentro espacial das Novelas do Minho é
Famalicão. O romancista põe na boca das personagens o
linguarejar do povo minhoto, sendo os ouvidos do leitor
continuamente martelados pelo diálogo popular nortenho.
Paralelamente, certas descrições de lugares, de tipos de
baixo estofo moral mas verdadeiros, de alguns modos de
ver e de agir do homem, denotam poder e clara intenção
de copiar o mundo exterior tal qual é, sem a mínima
pincelada de idealização.
“Florescem hoje em Landim alguns casais de pessoas
ditosas que ele ajoujou, vencendo estorvos à custa de
engenhosas intrigas, e até de liberalidades de suas
abatidas posses.
A filha de um cabaneiro, que se criava por sua casa,
era o passatempo do cego. Chamava-se Narcisa do Bravo -
alcunha paterna. Até aos treze anos andava vestida de
rapaz, e media-se com os mais gaiatos a trepar à grimpa
de um pinheiro, no assalto nocturno às cerejeiras, em
duelos à pedrada, no jogo do pão e no murro. Era
virilmente bela, e bem feita; mas os meneios adquiridos
nos trajos de rapaz desengraçavam-na vestida de mulher.
Ela mesma olhava para si com zanga e puxava a repelões
as saias esfrangalhando-se. Pinto Monteiro dava tento
destes frenesis, ria-se muito, e contava-lhe casos de
mulheres portuguesas que batalharam incógnitas, cobrindo
os seios com arnês de ferro.
Estava no plano do cego casá-la. Narcisa dizia-lhe
que não pensasse em tal, porque a primeira pirraça que o
marido lhe fizesse, favas contadas, esmurrava-lhe os
focinhos. Este programa não assustou Pinto Monteiro,
visto que os focinhos ameaçados eram os do marido.
A rapariga foi pretendida extramatrimonialmente por
vários devassos de Landim, Santo Tirso e terras
circunjacentes. A virago tinha perrixil do que morde nas
línguas já embotadas; mas também tinha mãos nervudas e
uns dedos nodosos que se fechavam em forma de boxe,
assim que os pimpões lhe cantavam desafinados.
Um destes era um forte lavrador de Sequeirô, o
Custódio da Carvalha. Apaixonou-se com a resistência, e
falou-lhe sério em casamento. Narcisa contou a passagem
ao cego, que batia as palmas com veemente júbilo,
exclamando:
- Ó moça, aproveita antes que o rapaz se arrependa!
Olha que ele colhe trinta carros, e é um bonacheirão...
E que tal o achas de figura ?
- Eu sei cá!...
- Tu gostas dele ou não gostas?
- Como se nunca nos víssemos.
- Então, não o conhecias há muito tempo já ?
- Nunca o vi mais gordo.
- Mas queres casar com ele ou não ?
- Tanto se me dá como se me deu; mas o padrinho diga-lhe
que, se se faz fino comigo, eu pinto aí a manta, que ele
não sabe de que freguesia é. Eu não ponho unhas em
foicinha nem sachola, ouviu? Não fui criada na lavoira.
Se ele pega a mandar-me sachar milho ou cegar erva,
têmo-las armadas.
- Casa, que tu amansarás... - dizia o cego.
E casou.
(O Cego de Landim,
in Novelas do Minho)
Publicado
por
Joaquim Matias da Silva
Voltar
|