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A POÉTICA DAS "FOLHAS CAÍDAS"

 

A poética das Folhas Caídas é de cariz romântico e tem como figura fundamental um conflito que se gera na relação Eu - Tu, Homem (presente) - Mulher (ausente). O Tu (Ela) surge como objecto do desejo, provocando conflitos no Eu. Ela (a Mulher) aparece

supervalorizada, comparada a uma "estrela", colocada num plano celeste, identificada com um anjo (e estamos perante uma das convenções românticas: mulher-anjo). Só que esse anjo encontra-se no terreno propício à tentação (Terra), correndo o risco de a ela não resistir, sendo portanto precária a sua ligação ao céu, tanto mais que muitas vezes esse anjo (caído) na terra mais não encontra que um habitante (o próprio Eu), também ele em busca da sua própria salvação, estando pois pouco indicado para ajudar o anjo na sua luta contra a tentação (o corpo, o prazer dos sentidos). Em suma: sob a aparência de anjo, puro, inocente, celeste, alheio às coisas da terra, descobre-se um outro ser, de características terrestres, com poderes malévolos, quase demoníaco (mulher-demónio - mais uma convenção romântica).

 

O Eu que também já foi (no passado) um anjo, mas que, tentado pelas visões da terra, ficou reduzido às suas qualidades de homem, aspira à "verdade", à "beleza", tendo à sua disposição uma alma, uma razão e os sentidos. Ora, temos aqui precisamente os estigmas da contradição: como conciliar "alma" (céu) com "razão" (intelecto) e com "sentidos" (Terra, corpo) e "beleza" (Terra, corpo) com "verdade" (razão, céu)? A "razão" será uma espécie de intermediário entre o Céu - o inefável, o não explicável, o inatingível, o estado original - e a Terra - a tentação, o concreto, o presente. O Eu oscila, pois, entre Céu e Terra, amor e desamor (incapacidade de amar no presente). Como se sente incapaz de amar, o seu entendimento com o anjo-mulher só se fará a nível dos efémeros prazeres do corpo, que, por serem efémeros, provocarão novos e contínuos desencantos.

 

Folhas Caídas constituem, por isso, uma arte poética baseada na contradição. O terreno em que se move o Eu só pode ser o da contradição entre Céu / Terra, Luz / Trevas, Branco / Negro, Coração / Alma, Sonho / Real, Vida / Morte, Amor / Desamor, Céu / Inferno, Bem / Mal. O hedonismo, ou a busca do prazer, é assim a força dominante da relação Eu - Tu. Uma vez atingido o prazer, novo conflito começa, porque a satisfação não dura muito e assim prossegue essa ânsia inquieta, fascinante, na busca do próprio ser.

 

Aspectos relevantes e originais na poética de Folhas Caídas são o dramatismo e o tom coloquial. Com efeito, a poesia desta obra garrettiana mais do que lírica é dramática, pois nela se exprime um drama amoroso e os desabafos do poeta são dirigidos a uma personagem, a mulher amada, cuja presença está sempre implícita e tem de subentender-se, para que se possa compreender a técnica do "monólogo dialogado", que caracteriza a grande maioria dos poemas que constituem a obra. A técnica dramática (parateatral) evidencia-se ainda nos processos adaptados pelo autor (antíteses, monólogos, diálogos subentendidos, apóstrofes, interrogações, invocações), ao nível da língua (linguagem oral e familiar) e no emprego de verbos no presente do indicativo. Assim, lendo os versos de Folhas Caídas, assistimos à vivência de um drama, de um conflito íntimo que se encontra também expresso nas Viagens na Minha Terra e que tem a sua origem na incapacidade de doação total pelo amor e na insatisfação resultante da atracção puramente sensual.

 

Nas Folhas Caídas a vida e a poesia de Garrett estão intimamente ligadas. Estamos, pois, em presença de lirismo muito individualizado, muito pessoal, muito autêntico, de um notável testemunho psicológico do seu autor. Sem preconceitos, Garrett ultrapassa os idealismos petrarquistas e, se não ignora a mulher que se adora, revela também a mulher que se deseja, a ponto de escandalizar e simultaneamente apaixonar os leitores da época.

 

Sob o aspecto puramente formal, convém assinalar que Garrett liberta-se completamente da formação arcádica, substituindo os versos brancos pelos de redondilha, com uma métrica inspirada na poesia popular, produzindo, às vezes, impressionantes efeitos musicais, com aliterações e rimas intermédias e uso frequente de novos recursos estilísticos, entre os quais podemos apontar a sinestesia, em que precedeu os Simbolistas.
 

Joaquim Matias da Silva

 

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