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A EXPRESSÃO LÍRICA DO AMOR NAS "FOLHAS CAÍDAS"

 

 

Para os trovadores provençais e, mais tarde, para os clássicos, a mulher é um simples objecto, sem vida própria, uma espécie de mito a que o poeta aspira. Laura, Beatriz, Natércia são as faces (tornadas visíveis por um esplendor divino que vem do alto) desse mito. O(s) poeta(s) não ama(m) um ser concreto, antes algo de abstracto. Nutre(m) o culto do amor do amor. Os seus cantos não são cantos partilhados a duas vozes que se respondem. A expressão do amor reveste-se de um carácter unilateral, visto só do lado masculino.

 

Diferentemente, os românticos introduzem a mulher na literatura como personagem activa, dotada de consciência própria, com direito de escolha - o tema do ciúme é uma inovação da estética romântica. Os seus cantos são a duas vozes, constituem um diálogo, ainda que o outro interlocutor não seja ouvido, estão cheias de vida partilhada, vivida a dois - a recordação do sítio onde se viveu em comum, de um passado que só em comum pode ser evocado, é frequente nas obras românticas.

 

Há, no entanto, ainda muitas limitações na poesia amorosa romântica. Toda ela é uma poesia de alcova: nunca o homem e a mulher caminham de mãos dadas. É, por outro lado, uma poesia de frustração: todo o amor acaba na tragédia da separação ou da saturação; a amargura sucede ao prazer. É ainda uma poesia feita de contrastes, de pólos opostos. A mulher é o anjo ou o demónio, a salvação ou a perdição. Por fim, o amor romântico apresenta-se como um refúgio. A orgulhosa contraposição da sublimidade do amor partilhado à mediocridade da vida corrente é frequente no lirismo romântico.

 

Por tudo o que fica dito, fácil é concluir que as Folhas Caídas, de Almeida Garrett, constituem a melhor expressão da poesia amorosa do romantismo, a sua expressão mais autêntica e mais intensa.

 

Garrett rasga os véus convencionais em que a tradição clássica envolvia o amor. Os mitos clássicos caíram no olvido de um poeta cinquentão, uma entidade muito respeitável, deputado, ministro, visconde, académico. Não admira, pois, que a publicação de Folhas Caídas tivesse causado escândalo na época... Mas elas foram a grande contribuição de Garrett para a literatura portuguesa.
 

(Síntese elaborada a partir do artigo "A expressão lírica do amor nas Folhas Caídas", in Para a História da Cultura em Portugal, de António José Saraiva)

 

Joaquim Matias da Silva

 

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