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Sermão de Santo António aos Peixes

 

PARTE V

(

ICTIOFAGIA E ANTROPOFAGIA SOCIAL

 

 

                                                                                                                        REPREENSÕES AOS PEIXES, EM PARTICULAR

                                       

 

 

 

 

 

OS RONCADORES

 


 

 

Peixes pequenos mas que são a ronca do mar. Simbolizam os orgulhosos, os fanfarrões, os prepotentes, os que prometem mundos e fundos, mas que, na hora da verdade, se retiram cobardemente. Assim, S. Pedro foi um roncador. Prometeu levantar a sua espada contra os detractores de Cristo, mas quando uma mulherzinha o acusou de ser Seu seguidor, logo negou três vezes.

 

 

Duas coisas tornam os homens emproados (roncadores):
* O saber  - Caifaz inchava de saber.
* O poder  - Pôncio Pilatos roncava de poder.


Acontece, porém, que os arrogantes, os soberbos serão humilhados por Deus. Por isso, devem os homens seguir o exemplo de Santo António, que tinha saber e poder, mas que nunca se vangloriou ("brasonou") disso.

 

 

OS PEGADORES

 

Os pegadores ou rémoras  são peixes pequenos que vivem agarrados a outros peixes, levando uma vida parasitária. Tiram disso proveito, porque se alimentam, mas também estão sujeitos a consequências nefastas. É que, sobrevindo a morte aos peixes grandes (entre eles os tubarões), da mesma forma aqueles peixes pequenos são arrastados para o abismo.
 

 

Tal como os roncadores, há homens que vivem às custas dos outros, mormente daqueles que, temporariamente, ocupam o poder. Mas como esse poder é temporário, muito efémero, não admira que os "pegadores" homens sejam arrastados pela queda voraz dos seus senhores. E quantas vezes sem tirarem proveito da situação, porque é frequente os grandes comerem (o tubarão morre porque comeu, sendo, menos mal, vítima da sua própria gula...) e os pequenos pagarem pela sua ousadia! Efectivamente, Adão e Eva foram condenados pela sua gulodice  e quem sofreu com isso fomos nós, que nascemos em pecado venial!...

 

Então, a única forma de resistir à condenação e/ou destruição será "pegando-se" a Deus. Assim fizeram David e Santo António, que não se pegaram aos grandes da terra, mas ao seu Deus.

 

 

 OS VOADORES
 

 

  Os voadores são peixes que fazem das barbatanas asas.  Por quererem sair do seu elemento natural, correm um duplo perigo: o dos peixes e o das aves. Por esse motivo, em vez de voarem, correndo o risco fatal de baterem contra as velas ou as cordas dos navios, deviam meter-se no fundo de alguma cova, onde, escondidos, viveriam mais seguros.

 

 

Peixe voador

A

Chega a medir até 25 cm de comprimento. Quando o peixe-voador

salta para fora da água para "voar",

pode atingir uma altura de 6 metros e planar por uma distância de 90 metros.

Recentemente uma equipa do canal de televisão

 japonês NHK filmou um peixe-voador planando

no ar durante 45 segundos, no que pode ser o voo mais longo

alguma vez gravado da espécie marinha.
 

Representam, neste sermão, os vaidosos, os presunçosos, os ambiciosos, ilustrados por figuras mitológicas, lendárias ou bíblicas, a saber:

* Ícaro, que se aproximou demasiado do sol, pelo que as suas asas derreteram, tendo-se afogado no rio Danúbio;

* Simão Mago, um homem famosíssimo pelas suas artes mágicas, dizendo-se o verdadeiro Filho de Deus, e tendo mesmo assinalado o dia em que subiria, de Roma, aos céus, só que, numa queda precipitada e previsível (a oração de S. Pedro voou mais depressa até Deus que ele), veio a perder as asas e a partir os pés, deixando, assim, de poder voar e de poder andar;

* Aquela mulher que S. João Evangelista viu no Apocalipse, que estava no céu e a quem foram fornecidas duas asas de águia, que ela utilizou, insensatamente, para voar para baixo, para o deserto, querendo, pois trocar o Céu pela Terra!...

 

Todas essas figuras perderam tudo por tanto quererem, pois "quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem".

 

E, mais uma vez, é apresentado o exemplo de Santo António, cuja alma, embora tendo "duas asas de águia, que foi aquela duplicada sabedoria natural e sobrenatural", "não as estendeu para subir", antes, "encolheu-as para descer", sendo humilde.

 

Então, que ele sirva de modelo para todos nós.

 

 

 

 

 

 

 

Debaixo da aparência de Monge, de Estrela, de brandura e mansidão, o polvo é o maior traidor do mar. Com efeito, este monstro "tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso", recorre ao estratagema da camuflagem, transmutando a sua cor, de acordo com o local onde se encontra, para, desta maneira, melhor aprisionar as presas, abraçando-as mortalmente com os seus tentáculos.

O seu embuste traiçoeiro é tão grande, que o Padre António Vieira, empolando, naturalmente, o assunto, assevera que Judas, que entregou Cristo, não foi tão traidor como o polvo: "Judas abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o Polvo é o que abraça, e  mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o Polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas, é verdade, que foi traidor, mas com lanternas diante: traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras".

 

 

O polvo é símbolo, pois, de todos os homens que são  dissimulados, fingidos, astutos, ardilosos, enganosos, daqueles que se aproveitam do alheio (sobretudo dos "bens dos naufragantes") e "para os homens não há mais
miserável morte que o morrer com o alheio atravessado na garganta, porque é pecado de que o mesmo S. Pedro e o mesmo Sumo Pontífice não podem absolver
".


Santo António deve ser, portanto, imitado, de novo, porque ele é o "
mais puro exemplar da candura, da sinceridade e da verdade, onde nunca houve dolo, fingimento ou engano".
 

Joaquim Matias da Silva

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