Nem força teve em si para soltar um grito;
E eu, nesse tempo, um destro e bravo rapazito,
Como um homenzarrão servi-lhe de barreira!
Em meio de arvoredo, azenhas e ruínas,
Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas;
E, tetas a abanar, as mães, de largas ancas,
Desciam mais atrás, malhadas e turinas.
Do seio do lugar - casitas com postigos -
Vem-nos o leite. Mas baptizam-no primeiro.
Leva-o, de madrugada, em bilhas, o
leiteiro,
Cujo pregão vos tira ao vosso sono, amigos!
Nós dávamos, os dois, um giro pelo vale:
Várzeas, povoações, pegos, silêncios vastos!
E os fartos animais, ao recolher dos pastos,
Roçavam pelo teu "costume de percale".
Já não receias tu essa vaquinha preta,
Que eu segurei, prendi por um chavelho? Juro
Que estavas a tremer, cosida com o muro,
Ombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!
Cesário Verde, Obra Completa (org. Joel Serrão),
Lisboa, Livros Horizonte, 1988
Notas:
V. 3 - destro: ágil, hábil; V. 8 -
turinas:
animais pertencentes a uma raça de gado bovino; v. 10-
baptizam-no: adicionam-lhe água; V. 12 -
pregão: anúncio público feito em voz alta; V.14 -
pegos: os sítios mais fundos do rio; V. 16
- "costume de percale" (expressão
francesa): fato de percal (tecido de algodão fino e
liso); V - 18 - chavelho: chifre.
QUESTIONÁRIO
1. Resuma o pequeno episódio evocado no poema.
2. Indique os traços que caraterizam o espaço
representado.
3. Compare os retratos das personagens que protagonizam
o referido episódio.
4. Interprete, no contexto do poema, a invocação aos
"amigos" (3.ª estrofe).
5. Analise a relação que se estabelece no texto entre o
presente e o passado.
RESPOSTAS
1. Certa tarde, um «rapazito» e a sua «companheira»
passeavam pelo campo. No momento em que o gado recolhia
aos estábulos, ao lado deles, uma «vaquita preta»
assustou a rapariga. Mas o rapaz agarrou o animal, de
modo a que a «companheira» se sentisse segura.
2. O cenário evocado é o espaço aberto do campo, um
«vale», com referência a elementos da paisagem vistos de
perto - «arvoredo», uma «fonte», «pastos», «azenhas e
rumas » - alguns dos quais marcam a presença do homem.
Veem-se também, ao longe, «Várzeas, povoações,
pegos».
Há, ainda, a referência a uma povoação («casitas
com postigos»), onde vivem os camponeses. Os «silêncios
vastos» da paisagem indicam a largueza das vistas e a
paz que a inunda, ajudando a descrever o passeio no
campo tal como dois citadinos, habituados ao ruído, o
sentem. O muro é um elemento do espaço que tem uma
função precisa na história: contra ele se cose a figura
assustada da jovem «companheira».
3. A «companheira» é magra «fina», veste um «costume de
percale» e usa «luneta» - estamos perante um retrato que
compõe um tipo de personagem urbana. A situação em que
se encontra provoca nela uma reação de pessoa «medrosa»,
traço que é reiterado no poema (e acentuado pelo facto
de se encontrar fora do seu meio, num ambiente que não
domina): «Mais morta do que viva», «Nem força teve em si
para soltar um grito», «estavas a tremer, cosida com o
muro, / Ombros em pé».
Em contrapartida, o «eu» que se autorretrata, no
episódio recordado, como um «rapazito» «destro» e
«bravo» (com alguma ironia, pois, naquele caso, o perigo
era mais imaginário do que real), parece conhecer melhor
o meio em que se encontra, a real mansidão da «vaquita
preta» e dos restantes «fartos animais», revelando uma
maior sintonia com o ambiente campestre e uma maior
capacidade de adaptação a esse mesmo ambiente. Assim,
ele age naquela circunstância «Como um homenzarrão»
(designação em que se lvislumbra, de novo, ironia).
4. Os «amigos» invocados, neste contexto, podem ser os
que, na cidade, recebem o leite que é no campo produzido
e a partir do campo distribuído. É de madrugada que os
leiteiros fazem o transporte do leite, chegando ainda
cedo aos locais onde o vão vender, lançando pregões que
acordam os citadinos.
A invocação aos «amigos» (que também podem ser uma
imagem do público do poeta, ou dos leitores do poema)
coloca em contraposição aqueles que produzem e os que
consomem.
5. O poema está construído em dois tempos diferentes, o
da escrita poética e o da história. O presente é o da
escrita, o momento em que o «eu» recorda um episódio
situado «nesse tempo», aquele em que ele, ainda
«rapazito», protege a «companheira» do seu próprio
susto.
São duas as imagens principais que recorda e que
sintetizam o episódio: a dela, «cosida com o muro», «a
tremer» de susto; e a dele, a segurar «por um chavelho»
uma «vaquita preta».
No presente da rememoração, o sujeito poético pergunta à
«companheira» se ainda receia uma «vaquita preta» como
aquela, o que parece indicar que o tempo em que a
história se passou é o da infância, sendo ambos muito
novos (o que também é induzido pelo título genérico do
poema de que esta é a primeira parte: Em Petiz).
Na estrofe medial, por seu turno, o «eu», ao fazer a
invocação aos «amigos», está a ligar esse passado da sua
memória ao presente da sua experiência.