ARTICULADORES / CONETORES / MARCADORES DE DISCURSO 4

Preenchimento de lacunas

  

Completa os espaços com os articuladores de discurso apropriados.
   acima de tudo      como      E é pelos mesmos motivos      Em compensação      mas antes      O que me interessa aqui      ou seja      por conseguinte      Por isso      porque      se   
É a este desassossego, a esta inquietação, a este medo permanente de nos aborrecermos que me refiro quando te digo que as sociedades humanas não se contentam com a sobrevivência mas anseiam pela imortalidade.
Olha bem: para os seres humanos, capazes de terem uma consciência antecipada da morte, de a compreenderem como fatalidade sem remissão, de a pensarem, morrer não é um simples incidente biológico
o símbolo decisivo do nosso destino, à sombra do qual e contra o qual edificamos a complexidade sonhadora da nossa vida. Remédios reais e eficazes contra a morte parece não haver nenhum: diz o poeta de Borges, «morrer é um costume que temos» e não temos maneira de o perdermos.
, os remédios simbólicos, , os que nos servem de consolo e prestam algum alívio perante a certeza da morte, são de dois tipos: religiosos ou sociais. Os religiosos, já tu conheces (uma vida depois da morte, a imortalidade da alma, a ressurreição dos corpos, a transmigração, o espiritismo, etc.) e correspondem a problemas em que não me vou meter, pois já há no mundo padres que cheguem e é a eles que compete falar de tudo isso.
são os remédios sociais ou civis por meio dos quais nós, seres humanos, temos procurado não só proteger as nossas vidas como, , fortalecer os nossos espíritos contra a presença da morte, vencendo-a no terreno simbólico (pois que no outro é impossível).
Posso dizer-te então que as sociedades humanas funcionam sempre como máquinas de imortalidade, a que nós, indivíduos, nos ligamos a fim de recebermos as suas descargas simbólicas vitalizantes que nos permitam combater a inegável ameaça da morte. O grupo social apresenta-se como um grupo que não pode morrer, diferindo nisso dos indivíduos, e as suas instituições servem para contrabalançar aquilo que cada um de nós teme perante a fatalidade da morte:
a morte é solidão definitiva, a sociedade oferece-nos permanente companhia; se a morte é debilidade e inacção, a sociedade proporciona-se como a sede da força colectiva e como a origem de mil tarefas, feitos e resultados; se a morte apaga toda a diferença pessoal e torna tudo idêntico, a sociedade adianta as suas hierarquias, a possibilidade para o indivíduo de se distinguir e ser reconhecido e admirado pelos outros; se a morte é esquecimento, a sociedade fomenta o que é memória, lenda, monumento, celebração de glórias passadas; se a morte é insensibilidade e monotonia, a sociedade potencia os nossos sentidos, refina com as suas artes o nosso paladar, o nosso ouvido e a nossa vista, prepara diversões emocionantes e intensas destinadas a romper a rotina que mortifica; a morte despoja-nos de tudo e a sociedade dedica-se à acumulação e à produção de bens de todos os tipos; a morte é silêncio e a sociedade jogo de palavras, de comunicações, de histórias, de informação, etc., etc.
é que a vida humana é tão complexa: estamos sempre a inventar coisas novas e gestos inéditos contra as aborrecidas pompas fúnebres da morte.
E é assim que se torna possível que os homens cheguem ao ponto de morrer com alegria em defesa e benefício das sociedades em que vivem: porque então a morte já não é um acidente sem sentido, mas a forma de que o indivíduo dispõe de apostar voluntariamente no que não morre, naquilo que, em termos colectivos, representa a negação da morte.
que os homens sentem o aniquilamento das suas comunidades como um triunfo da morte mais grave e terrível do que qualquer morte individual...

Política para Um Jovem, Fernando Savater

 

Adaptado de "http://stortomas.no.sapo.pt"

Joaquim Matias da Silva

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