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ANÁLISE DE UMA CANTIGA

 

- Sedia-m' eu na ermida de San Simhon -

 

Sedia-m' eu na ermida de San Simhon
e cercaram-me as ondas, que grandes son:
Eu atendendo o meu amigo,

eu atendendo o meu amigo!


Estava eu na ermida ante o altar,
e cercaram-me as ondas grandes do mar:
Eu atendendo o meu amigo,

eu atendendo o meu amigo!


E cercaram-me as ondas, que grandes son
Non hei barqueiro, nem ar son remador:

Eu atendendo o meu amigo,

eu atendendo o meu amigo!
 

E cercaram-me as ondas do alto mar!

Non hei i barqueiro, nem ar sei remar:
Eu atendendo o meu amigo,
eu atendendo o meu amigo!


Non hei barqueiro, nem ar son remador,

e morrerei fremosa, no mar maior:
Eu atendendo o meu amigo,
eu atendendo o meu amigo!
 

Non hei i barqueiro, nen ar sei remar,

e morrerei, fremosa, no alto mar:
Eu atendendo o meu amigo,
eu atendendo o meu amigo!

Mendinho - CV 438, CBN 795


Notas: V. 1 - sedia-m'eu: estava eu sentada; V. 3 - atendendo: esperando; v. 10- hei: tenho; V. 14 - i: aí; V.14 - ar: também, além disso; V. 17 - son: são; V - 18 - fremosa: formosa; V. 19 - mar maior: alto mar.
 

Ilha de S. Simion

QUESTIONÁRIO
1. Procure compreender o sentido global do texto e indique o seu assunto.
2. Há dois sentimentos que parecem dominar o estado de espírito do sujeito emissor. Quais são?
3. Acha que a natureza é apenas cenário, no contexto deste poema, ou funciona também como actante neste esboço de narrativa?
4. Os sentimentos que dominam o espírito da donzela exprimem-se num crescendo de intensidade dramática. Relacione os momentos dessa gradação com as diferentes formas verbais.
5. Refira-se à expressividade do adjectivo fremosa (duas últimas coplas), dentro do contexto global do poema.
6. E que valor expressivo tem a repetição do próprio estribilho (refrão), no contexto global do poema? No refrão da última estrofe, não poderemos ver uma expressividade especial, além da que tinha nas outras estrofes?
7. Faça a descrição formal do poema. Relacione a forma descrita com o tipo de mensagem expressa e com a origem das Cantigas de Amigo.
 

 

RESPOSTAS


1. O sujeito de enunciação (emissor), servindo-se da metáfora das ondas do mar, exprime os seu desespero amoroso pela ausência do namorado.


2. Os dois sentimentos que, à primeira leitura, parecem dominar o espírito da donzela são o receio de se ver engolida pelas ondas do mar e o receio de que o seu namorado não regresse. Note-se, porém, que o primeiro receio é apenas metáfora do segundo. O grande desespero da donzela está, verdadeiramente, na ausência do namorado. A possível perda do seu amor é a sua perdição, o seu naufrágio na vida. Ela pressente o seu naufrágio, isto é, receia a destruição da sua vida amorosa.


3. Mesmo interpretando como metáfora as ondas do mar, a natureza (aqui corporizada pelo mar) funciona neste esboço de narrativa como oponente em relação ao sujeito (donzela) e ao objecto (namorado). Em dois sentidos, as ondas do mar funcionam como oponente: metaforicamente, ameaçando engolir a donzela; e realmente, separando-a do objeto do seu amor.


4. Há, na verdade, um crescendo de intensidade dramática na expressão dos sentimentos da donzela. Nas duas primeiras coplas, a donzela exprime apenas um receio longínquo, como se tivesse já passado (notar o emprego do passado: sedia-me e cercaram-me). Na terceira e quarta coplas já o perfeito cercaram-me ganha aspeto de persistência da ação no presente, quando se acrescenta: "Non hei barqueiro, nem ar son remador" (notar o emprego do presente). O perigo era já iminente para a donzela. Preste-se atenção ao emprego do ponto de exclamação em "E cercaram-me as ondas, que grandes son!", quando, nas frases equivalentes das duas primeiras coplas, não tinha sido usado. É já a emoção da donzela perante o perigo.

Mas o perigo, e consequentemente a emoção da donzela, vai-se avolumando, até que, nas duas últimas coplas se repete esta afirmação: "E morrerei, fremosa, no alto mar". Note-se o emprego do futuro, a apontar para uma perdição próxima, iminente.

 


 

5. O adjetivo fremosa serve admiravelmente para nos fazer passar do plano da metáfora para o plano da realidade. Afinal, o que a donzela receava não eram propriamente as ondas do mar, mas o não regresso do namorado. E ela ali ficava, frente ao mar que o tinha levado, mas ainda fremosa, como quando o fascinara. A sua formosura era, afinal, a grande causa do grande amor e, agora, do grande desespero.


6. Note-se que o refrão repete-se, é iterativo, não apenas ao longo do poema, mas também em si mesmo, em cada copla. Esta repetição vem realçar, em cada estrofe e ao longo do poema, que a grande causa da angústia da donzela era a ausência do namorado. Na última quadra, porém, o refrão tem uma expressividade mais funda, se o considerarmos depois do verso "e morrerei fremosa, no alto mar". É que a donzela corria à espera do seu amigo e talvez sem esperanças de o recuperar. Este refrão, reiterativo em si próprio, exprime a obsessão da donzela, provocada talvez pela falta a um compromisso por parte do namorado.


7. A composição é constituída por seis coplas formadas de dois versos (dístico) hendecassilábicos agudos e um refrão de dois versos octossilábicos graves, obedecendo a rima ao esquema: aaBB / ccBB / aaBB / ccBB / aaBB / ccBB. É uma cantiga paralelística perfeita, pois o segundo verso da primeira estrofe repete-se como primeiro da terceira, o segundo verso da segunda  repete-se como primeiro da quarta e assim sucessivamente. Além disso, há ainda outras repetições, se não completas, pelo menos quanto ao sentido.

Todas estas repetições adaptam-se maravilhosamente às cantigas de amigo, em que tão há praticamente nem descrição, nem narração, mas apenas uma sucessão de lamentações da donzela.

Além disso, a presença do refrão e do paralelismo manifesta claramente a origem popuIar destas cantigas, feitas para serem cantadas, algumas delas por dois cantores, em repetições paralelísticas, como nas cantigas à desgarrada e por um coro (refrão).
 

BORREGANA, António, Textos em análise, c/ adaptações.
 

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

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