As cantigas de amigo são composições poéticas em
que uma donzela ingénua e humilde, num discurso
simples, apaixonado e emotivo, exprime os seus
sentimentos, as suas preocupações, em virtude da
ausência do amigo (= namorado), que foi para a
guerra, a pesca ou a caça.
Pertencem ao género poético da lírica medieval
galaico-portuguesa.
Um dos principais traços que distinguem a
cantiga de amigo da cantiga de amor reside
no facto de,
na primeira, ser a donzela, ou namorada, quem
fala, dirigindo-se a seres da natureza, à mãe ou a
amigas, num desabafo ou na narrativa breve de um
episódio relacionado com o seu amigo.
Segismundo Spina diz-nos que "Os cantares de
amigo exprimem (...) estes pequeninos dramas e
situações da vida amorosa das donzelas, em que a vida do
campo (com todas as sugestões da natureza), a vida
burguesa e o ambiente doméstico (...) formam a
moldura desses singelos quadros sentimentais e impregnam
de original encanto e doce realismo essa poesia feminina".
Por sua vez, Costa Pimpão acrescenta que "esta
expressão, cantigas de amigo, aplica-se a um
grande número de composições de maior variedade formal e
psicológica, mas que têm isto de comum: o serem postas
na boca de uma mulher - não da mulher já subordinada às
suas obrigações matrimoniais, mas da donzela, da menina
"em cabelo".
A cantiga de amigo é, pois, uma composição poética em
que o sujeito de enunciação é a donzela, a menina "em
cabelo" que expressa os seus pequeninos dramas, que ela
tenta transpor nestes cantares e em que, muitas vezes,
desabafa, confidencia com a mãe, com uma amiga ou,
então, interroga a natureza sobre o seu amigo, à maneira
das comunidades míticas mais primitivas. Às vezes está
tão contente, tão apaixonada, que ela e as suas amigas
"velidas" e "louçanas" vão bailar, para junto das
"avelaneiras frolidas"; outras vezes martiriza-se,
sofre, com o afastamento do amigo ou com a passagem de
um cavaleiro por quem se apaixonou, mas que nunca mais
verá.
Estes textos, destinados a serem cantados, tinham
frequentemente uma estrutura paralelística, com
repetição de versos e refrão.