Rodrigues Lapa afirma que já antes de Cristo, na
China, se faziam cantigas de mulher. Na época
pré-trovadoresca, a doutrina do amor cortês, produto de
uma cultura renascente, invertia os papéis: a mulher
virava uma deusa; ele, seu escravo, seu vassalo.
Ela começa a ser adorada e não desgostava.
O trovador, através dela, se enobrecia e o seu
espírito se elevava numa ascese quase divina.
Mas em Portugal acontece algo de diferente: o
homem-poeta finge de mulher enamorada,
transforma-se nela através da criação artística
e tenta interpretar o sentir da menina. Acaba-se a dona
com todo o seu ritual formal para ceder o seu lugar a
este lirismo simples, variado, terno e saudoso.
Serão, entretanto, realmente autótones,
espontâneos, sem nenhuma interferência, estes cantares
de amigo, verdadeiros e sentidos hinos de amor?
Para Natália Correia o "paralelismo da
cantiga de amigo é o testemunho da sua antiguidade,
aliás nitidamente relacionado com cultos remotos, que
nele prevalecem". Cultos que se perdem no tempo...
Assim, as preces da donzelinha ao Santo para que este
lhe traga o namorado (aliás "a romaria é um local de
entrevista amorosa") têm a ver com rituais, muito
antigos, talvez até célticos e, quem sabe, romanos ou
mesmo africanos... Neles se pedia aos antepassados ou
forças da natureza, proteção e ajuda. É o que faz a
donzelinha quando interpela as ondas do mar ou, num
queixume, tenta saber se elas viram o seu amigo ( "Ondas
do mar de Vigo / Se vistes meu amigo") ou, então, quem
sabe se elas, "as flores do verde pino", o não
viram!....
Para Natália Correia, talvez nas ermidas
cristianizadas existissem outrora santuários pagãos
consagrados a divindades aquáticas e vegetais, cuja
"liturgia" seria a "matriz" da cantiga paralelística,
"arrecadada nas arcas conservadoras do folclore..."
Nestes cantares a figura da mãe ganhava um papel de
relevo, tudo se passando num mundo que desconhece a
autoridade paterna. E Natália Correia constata que "nem
uma só vez a sombra do pai vem perturbar este universo
estritamente feminino que apenas se excita com as
proibições e concessões da mãe, único juiz da filha
enamorada". O pai não para em casa. Certamente é a
guerra contra os mouros que o obriga a fazer parte das
hostes guerreiras. Muitas vezes vai para cãs del-rei;
outras, irá para a pesca. Segundo ela, acontece o mesmo
com as
carjas,
poesia feminina de "extração românica" que se insere no
lirismo andaluz. "Ambas radicam num substrato lírico
da Europa Ocidental que subentende um núcleo sagrado em
que à mulher cabe uma função sacerdotal..."
Escritores árabes do século XII contam que um
tal Mucádam, o Cego, natural de Córdova, dos fins do
século IX, inventara as
muwaschahas
(leia-se muaxás) , de versos curtos, de cunho
popular, em língua dos cristãos ou em árabe vulgar.
Depois foram aparecendo e estudadas outras cantigas,
umas estrofes em romanço moçárabe, a que se dá o nome de
jaryas
(járias), colocadas no fim de muwaschahas árabes
e hebraicas dos séculos XI, XII e XIII. A muaxá era uma
canção cujas estrofes obedeciam ao esquema rimático
aa-bbba-aa. A jária era uma estrofe muito curta que se
acrescentava à muaxá e da qual damos aqui um exemplo:
«Que farey
(farei)
o que será de mibi
(mim)?
Habibi
(amigo)
non te tuelgas
(afastes)
de mibi
(mim)!»
Eram canções populares, cantadas pelas donzelas
que choravam a ausência do amigo ou confidenciavam a sua
infidelidade; muitas vezes, desabafavam com a mãe ou a
irmã, queixando-se da ausência do amigo.
"Garid vos, ay yermanelas
Com' contener é meu mali?
Sin e habib non vivreyu
ed voarei demandar!"
Numa outra muaxá de Joseph ben Saddiq de Córdova
(m. 1149), que seria uma cantiga moçárabe andaluza, a
menina parece desatinada e pede conselho à mãe:
"Quê faré, mamma?
meu - habib est ad y anã"
(o meu amigo está à porta)
Menendez Pidal demonstrou que entre as járias, o lirismo
castelhano, representado pelo
vilancico,
e as cantigas de amigo há, pelo menos, estas
características comuns: todas são cantigas postas na
boca de uma donzela enamorada e, em todas, a donzela se
confia à solicitude da mãe. Daí que seja provável que
tenham tido uma fonte comum.
Menedez Pidal e Dámaso Alonso acreditam mesmo que estas
cantigas possam ter ajudado a despontar o nosso lirismo
popular. Segundo eles, parecem ser esses os cantares
mais antigos que se conhecem no mundo neolatino. Terão
surgido paralelamente de um fundo românico comum e,
assim como no andaluz floresceu este tipo de cantigas,
porque não apareceriam também no Noroeste peninsular?
Entretanto, Natália Correia continua a defender a sua
ideia de que as nossas cantigas de amigo tinham muito
que ver com rituais onde a mulher tinha um papel muito
importante. Ainda hoje nas comunidades africanas são
reservados a ela certos papéis, até relacionados com o
fogo. E refere-se às bailadas, nas quais ainda perdura o
vestígio da árvore ritual, como encontramos na famosa
"bailia das avelaneiras".
Nas tribos africanas dos Macuas, por exemplo, perduram
ainda estes rituais junto à árvore sagrada, o
muthulo,
onde as gentes cantam e dançam e imploram aos seus
antepassados, ao avô, ao tio e todos os que se foram já,
que afastem os animais que destroem os campos
cultivados, que os protejam contra fome, que venha a
chuva e que nunca mais leão ou elefante ouse penetrar na
povoação.
Curiosidades:
Há quem defenda que a canção mais antiga escrita em
português é a que vem no Cancioneiro da Ajuda,
sob o n.° 38, da autoria de Pai Soares de Taveiros,
conhecida por
Cantiga da Garvaia.
Carolina Micaelis datava-a de 1189. Contudo, Costa
Pimpão e Elza Pacheco põem em causa tal conclusão.
Também se indicou como mais antiga uma conhecidíssima
canção que começa assim:
«Ay eu, coitada, como vivo
en grani cuydado por meu amigo
que ey alongado! Muyto me tarda
o meu amigo na Guarda.»
(CBN, 398)
Seria de D. Sancho I e dataria de 1199. Sílvio Pelegrini
afirma, porém, que esta poesia pertence a Afonso X de
Castela.
Numa tentativa de ultrapassarem esta problemática,
alguns eruditos preconizam que a mais antiga canção
escrita em português é uma de escárnio, feita talvez em
1196 por João Soares de Paiva, trovador nascido à volta
de 1141.
João Soares de Paiva será, pois, o mais antigo trovador
que se conhece. O mais recente é o Conde de Barcelos, D.
Pedro, falecido em 1354.
A época dos trovadores estende-se, desta maneira, desde
meados do século XII até meados do século XIV.