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DESCIDA AOS INFERNOS

 

 

Desço aos infernos, a descer em mim.
Mas agora o meu canto não perfura
O coração da morte,
À procura Da sombra
Dum amor perdido.
Agora
É o repetido
Aceno
Do próprio abismo
Que me seduz.
É ele, embriaguez nocturna da vontade,
Que me obriga a sair da claridade
E a caminhar sem luz.

Ergo a voz e mergulho
Dentro do poço,
Neste moço Heroísmo
Dos poetas,
Que enfrentam confiantes
O interdito
Guardado por gigantes,
Cães vigilantes
Aos portões do mito.

E entro finalmente
No reino tenebroso
Das minhas trevas.
Quebra-se a lira,
Cessa a melodia;
E um medo triste, de vergonha e assombro,
Gela-me o sangue, rio sem nascente,
Onde o céu, lá do alto, se reflecte,
Inútil como a paz que me promete.

                                              Miguel Torga, Orfeu Rebelde, Coimbra Ed.

 

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

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© Joaquim Matias 2008

 

 

 

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