|
|
DESCIDA AOS INFERNOS
Desço
aos infernos, a descer em mim.
Mas agora o meu canto não perfura
O coração da morte,
À procura Da sombra
Dum amor perdido.
Agora
É o repetido
Aceno
Do próprio abismo
Que me seduz.
É ele, embriaguez nocturna da vontade,
Que me obriga a sair da claridade
E a caminhar sem luz.
Ergo a voz e mergulho
Dentro do poço,
Neste moço Heroísmo
Dos poetas,
Que enfrentam confiantes
O interdito
Guardado por gigantes,
Cães vigilantes
Aos portões do mito.
E entro finalmente
No reino tenebroso
Das minhas trevas.
Quebra-se a lira,
Cessa a melodia;
E um medo triste, de vergonha e assombro,
Gela-me o sangue, rio sem nascente,
Onde o céu, lá do alto, se reflecte,
Inútil como a paz que me promete.
Miguel Torga, Orfeu Rebelde, Coimbra Ed.
Publicado por
Joaquim Matias da Silva
Comentário
|