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XLIII
ANTES O
VOO DA AVE, QUE PASSA E NÃO DEIXA RASTO
Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza.
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!
"O
Guardador de Rebanhos". In Poemas de Alberto Caeiro.
Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993.
1ª publ. in Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925)
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