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III |
* Reflexões sobre as condições de vida,
em Lisboa, onde uns andam de "pança repleta"
e outros de "barriga agarrada às costas". É
apresentada uma visão abjecta da cidade no
Entrudo.
* Entretanto, e apesar do
contraste entre a magnificência da corte e a
miséria do povo, "a quaresma, como o sol,
quando nasce, é para todos" (pág. 27).
* As celebrações do início da Quaresma, nas ruas
de Lisboa, e a coexistência do religioso e do
profano, que despoleta, por parte do narrador
interventivo, uma sátira aos costumes: hábitos depravados dos religiosos; hipocrisia dos penitentes, que se autoflagelam
para propiciarem um certo prazer sádico às
namoradas ou mulheres. Estas últimas
aproveitam as liberdades concedidas neste
período para se entregarem a práticas menos
dignas – "por isso a mulher, entre duas
igrejas, foi a encontrar-se com um homem"
(pág. 30).
* A rainha está grávida,
pelo que se verá privada dos "desafogamentos"
semanais do seu esposo, como era "regra
comum" (página 31), na altura,
quando a mulher engravidava.
Talvez por
isso sonha com o cunhado, o infante D.
Francisco. Entretanto,
a sua exacerbada religiosidade surge-nos
realçada por se entregar constantemente a rezas
intermináveis
e
pela veneração doentia de relíquias
(Santo Sudário) - "torna a rezar, reza
infinitamente, começam as damas a cabecear, mas
resistem..."; "na Quinta-Feira Santa
há-de ir à igreja da
Madre de Deus, onde está um Santo Sudário que as
freiras desdobrarão diante dela antes de o
exporem aos fiéis" (página 329).
Infante D. Francisco
(1691-1742)
* Passou a Páscoa e as
mulheres recolhem "à sombra dos quartos
e ao carrego das saias. Em casa há mais uns
tantos maridos cucos" (página 33).
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