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MEMORIAL DO CONVENTO - O narrador

 

Em Memorial do Convento, o narrador é, geralmente, heterodiegético, recorrendo ora à focalização omnisciente, ora à focalização interna (quando nos apresenta os acontecimentos sob a perspectiva de determinada personagem), ora à focalização interventiva, quando tece comentários, quase sempre com carácter valorativo, a propósito dos eventos narrados.

 

Mas a caracterização do narrador torna-se muito complexa nesta obra. Narrador e criador da obra confundem-se com frequência. O narrador não só é conduzido pelos pontos de vista do autor como encontra outras vozes a argumentar, a reflectir, a ironizar com a história contada. Chega-se, por exemplo, a criar intrusões discursivas para os seus comentários, ironias e divagações e confere o estatuto de narrador a outras personagens da história (narradores hipodiegéticos),  como é o caso de Manuel Milho que conta a história do ermitão e da rainha (capítulo XIX).

Há, porém, sempre uma voz a controlar a narrativa, apresentando-se como contemporânea do leitor, mas apropriando-se do passado, que evoca, quer para fazer a sua leitura, quer, sobretudo, para se posicionar ideologicamente sobre o presente ou mesmo sobre o futuro.

Assim, a atitude do narrador principal para com o narrado é aparentemente contraditória: por um lado, temos uma tentativa de aproximação à época retratada, ao reconstituir a cor local e epocal, mas, por outro, dá-se uma enorme distanciação, visível nas inúmeras prolepses e na ironia sarcástica utilizada para atacar alguns aspectos da História, fundamentalmente os que se ligam às personagens socialmente favorecidas. Com efeito, o narrador distancia-se do narrado pelas referências irónicas, mas também por um processo de afastamento temporal que o obriga a adaptar a linguagem e a distinguir entre um vocabulário respeitante à época histórica retratada e outro que se reporta à actual. Veja-se, a título de exemplo, a actualização de vocabulário aquando da descrição da pedra do pórtico da igreja, cujas medidas e peso nos são dados primeiro em pés, palmos e arrobas, para depois se falar em metros e quilos.

 

A riqueza e versatilidade deste(s) narrador(es) levaram Maria Alzira Seixo (in O Essencial sobre José Saramago, 1987), a dizer que em Memorial do Convento há seis matizes de narrador: o que habita um presente intemporal e se revela omnisciente; o conhecedor do futuro, capaz de revelar as grandes linhas da História e do final a que conduzem; o que fícciona e recria os limites da realidade; o que se revela numa omnisciência limitada perante o entrecruzar de actos particulares e destinos singulares; o crítico irónico ou humorista perante a sua possibilidade de manipular.

Joaquim Matias da Silva


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© Joaquim Matias 2008

 

 

 

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