Ao longo dos tempos, tornando-se
mais notório nos momentos de maior repressão da história
de Portugal (Idade Média, período da
Inquisição,
ditadura salazarista...), houve um conluio entre a
Igreja e os poderes instituídos, quando aquela, enquanto
instituição, se demitiu, de forma aviltante, da sua
missão de lutar em prol dos ideais de Amor, de Justiça,
de Liberdade e de Igualdade. Devem ressalvar-se,
evidentemente, muitos dos seus representantes que sempre
foram favoráveis a um não-alinhamento, a uma não-convergência de interesses entre os poderes
religiosos e seculares, respeitando, aliás, a máxima de
Cristo: "A Deus o que é de Deus e a César o que é de
César".
Em Felizmente Há Luar!, é
ao Principal Sousa, esse ser execrável, com falta de
valores éticos, que compete consubstanciar o papel
ingrato de conluio evidente Igreja/Poder, enquanto o
Frei Diogo representa todos os clérigos que não se
deixam seduzir por essa conveniente aliança.
Não é por isso de admirar que o
anticlericalismo se tenha arreigado, de forma mais ou
menos indelével, no espírito das pessoas, aflorando mais
estrepitosamente por alturas revolucionárias.
O
Anticlericalismo
A evolução do clero, como classe
politicamente privilegiada, foi bastante semelhante à da
nobreza, ou seja, foi decaindo paulatinamente ao longo
dos tempos.
No século XVII tinha aumentado
enormemente o número de membros do clero, sobretudo do
clero regular - frades e freiras - a tal ponto que, no
dizer de Coelho da Rocha, "Tanta gente concorria ao
estado eclesiástico, que nas Cortes de 1668 requereram
os povos que os pais fossem compelidos a dar a seus
filhos um ofício, porque todos queriam ser frades ou
clérigos". Num país fundamentalmente católico, esta
classe continuou a ter um grande prestígio social; mas o
seu poder e privilégios foram diminuindo até quase
desaparecerem sob o domínio do marquês de Pombal.
No reinado de D. José
estabeleceu-se, por lei, que «a jurisdição ordinária dos
prelados era restrita aos negócios puramente
espirituais» - para, no reinado de D. Maria I, os
clérigos ficaram sujeitos aos tributos gerais, como os
demais cidadãos; finalmente, a Revolução de 1820 retirou
ao clero todo o poder político e social que este ainda
detinha, impondo severas restrições aos seus
rendimentos. Foram suprimidos os dízimos e a propriedade
eclesiástica foi sujeita ao pagamento de impostos.
Muitos bens da Igreja e todos os
das ordens religiosas (que foram extintas) foram
confiscados e nacionalizados ou vendidos em hasta
pública. As dioceses e as paróquias foram sujeitas às
leis e ao controlo do governo. Ao clero regular foi
negado o direito de votar nas eleições e de ser eleito.
E se é verdade que a Carta Constitucional reservava aos
representantes da alta hierarquia da Igreja um lugar
permanente na Câmara dos Deputados tal deixou de
acontecer após a guerra civil e pelo menos até 1844,
porque a maioria deles tinha, numa atitude retrógrada,
tradicionalista, estado ao lado de D. Miguel.
Não era, pois, de admirar que
grande parte dos religiosos estivesse contra o regime
liberal e as relações entre os governos liberais e o
clero agravaram-se, levando mesmo a um corte temporário
de relações diplomáticas com o Vaticano. A mentalidade
laica triunfante tendia, cada vez mais, a separar os
interesses do Estado e da sociedade da esfera dos da
religião, ao mesmo tempo que a população em geral dava
largas a um profundo sentimento anticlerical.
Veja-se a este propósito o que
amargamente dizia Frei Dinis em Viagens na Minha
Terra, de Almeida Garrett:
"O chamado liberalismo, esse
entendia ele. «Reduz-se», dizia «a duas coisas, duvidar
e destruir por princípio, adquirir e enriquecer por fim:
é uma seita toda material em que a carne domina e o
espírito serve; tem muita força para a mal; bem
verdadeiro, real e perdurável, não o pode fazer. Curar
com uma revolução liberal um país estragado, como são
todos os da Europa, é sangrar um tísico: a falta de
sangue diminui as ânsias do pulmão por algum tempo, mas
as forças vão-se, e a morte é mais certa».
Dos grandes e eternos princípios
da Igualdade e da Liberdade dizia: «Em eles os
praticando deveras, os liberais, faço-me eu liberal
também. Mas não há perigo: se os não entendem! Para
entender a liberdade é preciso crer em Deus, para
acreditar na igualdade é preciso ter o Evangelho no
coração».
As instituições monásticas eram,
no seu entender e no seu sistema, condição essencial de
existência para a sociedade civil - para uma sociedade
normal. Não paliava os abusos dos conventos, não cobria
os defeitos dos monges, acusava mais severamente que
ninguém a sua relaxação; mas sustentava que, removido
aquele tipo da perfeição evangélica, toda a vida cristã
ficava sem norma, toda a harmonia se destruía, e a
sociedade ia, mais depressa e mais sem remédio,
precipitar-se no golfão do materialismo estúpido e
brutal em que todos os vínculos sociais apodreciam e
caíam, e em que mais e mais se isolava e estreitava o
individualismo egoísta - da última fase da civilização
exagerada que vai tocar no outro extremo da vida
selvagem."