Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
Sttau Monteiro

 

A IGREJA E O PODER

(Página ainda em construção)

 

Ao longo dos tempos, tornando-se mais notório nos momentos de maior repressão da história de Portugal (Idade Média, período da Inquisição, ditadura salazarista...), houve um conluio entre a Igreja e os poderes instituídos, quando aquela, enquanto instituição, se demitiu, de forma aviltante, da sua missão de lutar em prol dos ideais de Amor, de Justiça, de Liberdade e de Igualdade. Devem ressalvar-se, evidentemente, muitos dos seus representantes que sempre foram favoráveis a um não-alinhamento, a uma não-convergência de interesses entre os poderes religiosos e seculares, respeitando, aliás, a máxima de Cristo: "A Deus o que é de Deus e a César o que é de César".

Em Felizmente Há Luar!, é ao Principal Sousa, esse ser execrável, com falta de valores éticos, que compete consubstanciar o papel ingrato de conluio evidente Igreja/Poder, enquanto o Frei Diogo representa todos os clérigos que não se deixam seduzir por essa conveniente aliança.

 

Não é por isso de admirar que o anticlericalismo se tenha arreigado, de forma mais ou menos indelével, no espírito das pessoas, aflorando mais estrepitosamente por alturas revolucionárias.

 

 

O Anticlericalismo

 

A evolução do clero, como classe politicamente privilegiada, foi bastante semelhante à da nobreza, ou seja, foi decaindo paulatinamente ao longo dos tempos.

 

No século XVII tinha aumentado enormemente o número de membros do clero, sobretudo do clero regular - frades e freiras - a tal ponto que, no dizer de Coelho da Rocha, "Tanta gente concorria ao estado eclesiástico, que nas Cortes de 1668 requereram os povos que os pais fossem compelidos a dar a seus filhos um ofício, porque todos queriam ser frades ou clérigos". Num país fundamentalmente católico, esta classe continuou a ter um grande prestígio social; mas o seu poder e privilégios foram diminuindo até quase desaparecerem sob o domínio do marquês de Pombal.

 

No reinado de D. José estabeleceu-se, por lei, que «a jurisdição ordinária dos prelados era restrita aos negócios puramente espirituais» - para, no reinado de D. Maria I, os clérigos ficaram sujeitos aos tributos gerais, como os demais cidadãos; finalmente, a Revolução de 1820 retirou ao clero todo o poder político e social que este ainda detinha, impondo severas restrições aos seus rendimentos. Foram suprimidos os dízimos e a propriedade eclesiástica foi sujeita ao pagamento de impostos.

 

Muitos bens da Igreja e todos os das ordens religiosas (que foram extintas) foram confiscados e nacionalizados ou vendidos em hasta pública. As dioceses e as paróquias foram sujeitas às leis e ao controlo do governo. Ao clero regular foi negado o direito de votar nas eleições e de ser eleito. E se é verdade que a Carta Constitucional reservava aos representantes da alta hierarquia da Igreja um lugar permanente na Câmara dos Deputados tal deixou de acontecer após a guerra civil e pelo menos até 1844, porque a maioria deles tinha, numa atitude retrógrada, tradicionalista, estado ao lado de D. Miguel.

 

Não era, pois, de admirar que grande parte dos religiosos estivesse contra o regime liberal e as relações entre os governos liberais e o clero agravaram-se, levando mesmo a um corte temporário de relações diplomáticas com o Vaticano. A mentalidade laica triunfante tendia, cada vez mais, a separar os interesses do Estado e da sociedade da esfera dos da religião, ao mesmo tempo que a população em geral dava largas a um profundo sentimento anticlerical.

 

Veja-se a este propósito o que amargamente dizia Frei Dinis em Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett:
 

"O chamado liberalismo, esse entendia ele. «Reduz-se», dizia «a duas coisas, duvidar e destruir por princípio, adquirir e enriquecer por fim: é uma seita toda material em que a carne domina e o espírito serve; tem muita força para a mal; bem verdadeiro, real e perdurável, não o pode fazer. Curar com uma revolução liberal um país estragado, como são todos os da Europa, é sangrar um tísico: a falta de sangue diminui as ânsias do pulmão por algum tempo, mas as forças vão-se, e a morte é mais certa».

 

Dos grandes e eternos princípios da Igualdade e da Liberdade dizia: «Em eles os praticando deveras, os liberais, faço-me eu liberal também. Mas não há perigo: se os não entendem! Para entender a liberdade é preciso crer em Deus, para acreditar na igualdade é preciso ter o Evangelho no coração».

 

As instituições monásticas eram, no seu entender e no seu sistema, condição essencial de existência para a sociedade civil - para uma sociedade normal. Não paliava os abusos dos conventos, não cobria os defeitos dos monges, acusava mais severamente que ninguém a sua relaxação; mas sustentava que, removido aquele tipo da perfeição evangélica, toda a vida cristã ficava sem norma, toda a harmonia se destruía, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remédio, precipitar-se no golfão do materialismo estúpido e brutal em que todos os vínculos sociais apodreciam e caíam, e em que mais e mais se isolava e estreitava o individualismo egoísta - da última fase da civilização exagerada que vai tocar no outro extremo da vida selvagem."

 

Joaquim Matias da Silva

 

Voltar

Início da página

 

© Joaquim Matias 2008

 

 

 

 Páginas visitadas