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OS MAIAS
- Personagens
- A CONDESSA
DE GOUVARINHO -
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Da primeira vez que Carlos da Maia ouve falar da
senhora condessa de Gouvarinho, a descrição é
insinuante: «uma
senhora inglesada, de cabelo cor de cenoura,
muito bem feita»;
depois, Ega desafia o amigo para, como ele
dizia, “gouvarinhar”;
por fim, o encontro em São Carlos, selado por um
«grande
shake-hands, em que tilintaram uma infinidade de
aros de prata e de blangles índios sobre a sua
luva preta de doze botões».
Algo excessiva, dir-se-á, esta exibição de
pratas e de botões, mistura pouco subtil do que
se quer ostentar e do que se pretende desvelar.
O que vem a acontecer confirma-o. |
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Mergulhada no tédio de uma vida sem emoções, a
Gouvarinho rapidamente faz justiça ao seu «arzinho
de provocação e de ataque»
e empolga Carlos. A ligação é breve, mas a senhora
condessa não deixa, por isso, de ser uma amante nervosa
e exigente; tão exigente que Carlos rapidamente se
farta. Assim eram as coisas...
Na galeria queirosiana, a condessa vale pouco, mas
significa, ainda assim, alguma coisa. Ela é parte de uma
vida colectiva, em que a mulher aristocrata – no caso,
aristocrata por casamento – tinha a expressão pública
que lhe era concedida pela vontade masculina: o
casamento, as obrigações sociais (receber, estar,
conversar), uma ou outra leitura e, quando calhava, o
adultério.
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O que calha à senhora condessa de Gouvarinho
não deixa de ter o seu picante: os encontros
clandestinos passavam-se em casa de uma Miss Jones,
missionária evangélica que facilitava aos amantes um
quarto que era «um
ninho de Bíblias». |
Nada de muito impressionante, afinal, para a senhora
condessa, se nos lembrarmos de um expressivo escorço
biográfico, traçado pela palavra competente do Baptista,
o criado de Carlos. Massacrada pelas esquisitices e
pelos remoques do conde, a senhora condessa não se
ensaia e atira ao chão a loiça, num ataque de fúria; e,
humilhada pela lembrança de que «fora
ele que fizera dela uma condessa»,
não esteve com meias medidas: «ali
mesmo à mesa mandou o condado à tábua».
Obs: as
páginas indicadas referem-se à obra de Eça de Queirós,
Os Maias (Episódios da Vida Romântica), Edição
Livros do Brasil, de acordo com a primeira edição
(1888). Lisboa
Joaquim Matias da Silva
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