Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
Outros Autores

 

OS MAIAS - Personagens

 

- A CONDESSA DE GOUVARINHO -

 

Da primeira vez que Carlos da Maia ouve falar da senhora condessa de Gouvarinho, a descrição é insinuante: «uma senhora inglesada, de cabelo cor de cenoura, muito bem feita»; depois, Ega desafia o amigo para, como ele dizia, “gouvarinhar”; por fim, o encontro em São Carlos, selado por um «grande shake-hands, em que tilintaram uma infinidade de aros de prata e de blangles índios sobre a sua luva preta de doze botões». Algo excessiva, dir-se-á, esta exibição de pratas e de botões, mistura pouco subtil do que se quer ostentar e do que se pretende desvelar. O que vem a acontecer confirma-o.

Mergulhada no tédio de uma vida sem emoções, a Gouvarinho rapidamente faz justiça ao seu «arzinho de provocação e de ataque» e empolga Carlos. A ligação é breve, mas a senhora condessa não deixa, por isso, de ser uma amante nervosa e exigente; tão exigente que Carlos rapidamente se farta. Assim eram as coisas...

 

Na galeria queirosiana, a condessa vale pouco, mas significa, ainda assim, alguma coisa. Ela é parte de uma vida colectiva, em que a mulher aristocrata – no caso, aristocrata por casamento – tinha a expressão pública que lhe era concedida pela vontade masculina: o casamento, as obrigações sociais (receber, estar, conversar), uma ou outra leitura e, quando calhava, o adultério.

 

O que calha à senhora condessa de Gouvarinho não deixa de ter o seu picante: os encontros clandestinos passavam-se em casa de uma Miss Jones, missionária evangélica que facilitava aos amantes um quarto que era «um ninho de Bíblias».

 

Nada de muito impressionante, afinal, para a senhora condessa, se nos lembrarmos de um expressivo escorço biográfico, traçado pela palavra competente do Baptista, o criado de Carlos. Massacrada pelas esquisitices e pelos remoques do conde, a senhora condessa não se ensaia e atira ao chão a loiça, num ataque de fúria; e, humilhada pela lembrança de que «fora ele que fizera dela uma condessa», não esteve com meias medidas: «ali mesmo à mesa mandou o condado à tábua».
 

Obs: as páginas indicadas referem-se à obra de Eça de Queirós, Os Maias (Episódios da Vida Romântica), Edição Livros do Brasil, de acordo com a primeira edição (1888). Lisboa

 

Joaquim Matias da Silva

 

Voltar

Início da página

 

© Joaquim Matias 2009

 

 

 

 Páginas visitadas