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Fernando Pessoa

 

BÓIAM FARRAPOS DE SOMBRA

 

Bóiam farrapos de sombra
Em torno ao que năo sei ser.
É todo um céu que se escombra
Sem me o deixar entrever.
O mistério das alturas
Desfaz-se em ritmos sem forma
Nas desregradas negruras
Com que o ar se treva torna.

Mas em tudo isto, que faz
O universo um ser desfeito,
Guardei, como a minha paz,
A 'sp'rança, que a dor me traz,
Apertada contra o peito.

 

(Fernando Pessoa, Poesias Coligidas)

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© Joaquim Matias 2008