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Fernando Pessoa

 

BÓIAM LEVES, DESATENTOS

 

Bóiam leves, desatentos
Meus pensamentos de mágoa,
Como no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.


Bóiam como folhas mortas,
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.


Sono de ser, sem remédio,
vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se para, se flui;
Não sei se existe ou se dói.

 

(Fernando Pessoa, Poesias de Fernando Pessoa, 4-8-1930, Edições Ática)

 

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© Joaquim Matias 2008