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Fernando Pessoa

 

NÃO SEI, AMA, ONDE ERA

23-5-1916

 

Não sei, ama, onde era                                           
Nunca o saberei...
Sei que era primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...)

 

 

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Que azul tão azul tinha
Ali o azul do céu!
Se eu não era a rainha,
Por que era tudo meu?
(Filha, quem o adivinha?)


E o jardim tinha flores
De que não me sei lembrar...
Flores de tantas cores...
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos são dores...)


Qualquer dia viria
Qualquer coisa a fazer
Toda aquela alegria
Mais alegria nascer
(Filha, o resto é morrer...)


Conta-me contos, ama...
Todos os contos são
Esse dia, e jardim e a dama
Que eu fui nessa solidão...

 

Pessoa, Fernando, Obra poética. Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz, 4ª ed., Rio de Janeiro, José Aguilar Editora, 1972, p.123. Fernando Pessoa, Cancioneiro.

 

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