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QUANDO EU ME
SENTO À JANELA
Quando eu me sento à
janela
P' los vidros qu' a neve embaça
Vejo a doce imagem dela
Quando passa... passa.... passa...
Nesta escuridão tristonha
Duma travessa sombria
Quando aparece risonha
Brilha mais qu' a luz do dia.
Quando está noite ceifada
E contemplo imagem sua
Que rompe a treva fechada
Como um reflexo da lua,
Penso ver o seu semblante
Com funda melancolia
Qu' o lábio embriagante
Não conheceu a alegria.
E vejo curvado à dor
Todo o seu primeiro encanto
Comunica-mo o palor
As faces, aos olhos pranto.
Todos os dias passava
Por aquela estreita rua
E o palor que m' aterrava
Cada vez mais s' acentua.
Um dia já não passou
O outro também já não
A sua ausência cavou
Ferida no meu coração.
Na manhã do outro dia
Com o olhar amortecido
Fúnebre cortejo via
E o coração dolorido.
Lançou-me em pesar profundo
Lançou-me a mágoa seu véu:
Menos um ser neste mundo
E mais um anjo no céu.
Depois o carro funério
Esse carro d' amargura
Entrou lá no cemitério
Eis ali a sepultura:
Epitáfio.
Cristãos! Aqui jaz no pó da sepultura
Uma jovem filha da melancolia
O seu viver foi repleto d' amargura
Seu rir foi pranto, dor sua alegria.
Quando eu me sento à janela
P' los vidros qu' a neve embaça
Julgo ver imagem dela
Que já não passa... não passa.
(Fernando Pessoa, Cancioneiro)
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