Talvez em nenhuma obra de
Camilo se encontre uma linguagem tão simples e
despreocupada como no Amor de Perdição. Ele
próprio o reconhece no prefácio à 2." edição: “...a
rapidez das peripécias, a derivação concisa do diálogo
para os pontos essenciais do enredo, a ausência das
divagações filosóficas, a lhaneza da linguagem e
desartifício das locuções".
Daí o predomínio das
frases curtas onde domina o verbo, no geral no perfeito
narrativo, acompanhado do substantivo (sujeito ou
complemento directo), com grande parcimónia de
adjectivos. O que lhe interessava eram os factos (os
eventos), isto é, as "peripécias” e os "pontos
essenciais do enredo". Não há nesta novela aquele
vocabulário rico e erudito que torna por vezes pesada a
leitura de certas obras de Camilo. Deve-se isto, talvez,
ao facto de o livro ter sido escrito de jacto, na
prisão: "...nos quinze atormentados dias em que o
escrevi faleceu-me o vagar e a contenção que requer o
acepilhar e brunir os períodos..."
Mas estas simplicidade e
espontaneidade de linguagem são enriquecidas pela
emotividade nascida do facto de Camilo projectar o seu
drama pessoal no drama de Simão, seu tio.
Há, no entanto, variedade
de níveis de língua: culta, quando fala o narrador;
elegante e académica, nas falas de Simão; familiar, em
Teresa e Mariana; popular e, por vezes, com calão, em
João da Cruz, o ferrador. Assim, Camilo revela-se um
exímio dominador da linguagem popular nas suas variantes
familiar, gíria e calão. Escute-se, por exemplo, a
linguagem de João da Cruz: é na realidade um ferrador
que está a falar e não apenas um homem do povo.
Se tivermos em conta a
globalidade da obra camiliana, diremos o seguinte, no
que concerne à sua linguagem e ao seu estilo:
LINGUAGEM
Na obra de Camilo,
deparamo-nos com um vocabulário riquíssimo, variado,
cheio de termos populares e clássicos, todo vernáculo de
gema. Ramalho Ortigão classificou-o como "o
mais copioso que existe na língua portuguesa".
Nas dissertações
emprega um vocabulário erudito, em frases declamatórias,
ultra-românticas. Mas na narração de cenas vulgares
aflora toda a simplicidade da sua linguagem, sendo até
de um realismo impressionante, quando desce ao nível
popular, sobretudo nos diálogos. Os termos, as
comparações, as figuras disseminadas pela frase são
originalíssimos e expressivos.
ESTILO
O estilo de Camilo é
vivo, comunicativo, natural, cheio de cor, maleável,
rico de aspectos e recursos, em que o erudito se mistura
com o popular, o pitoresco com o sugestivo, o sarcástico
com o sério, o cómico com o trágico.
Como outras
características fundamentais podemos apontar as
seguintes:
-
a ironia
(num abrir e fechar de olhos, Camilo passa do extremo
encarecimento ao extremo insulto, tanto manifesta as
suas emoções líricas, como fulmina impiedosamente ;
-
o lirismo (encontramos nas suas obras, mormente nas
novelas passionais, páginas de intensa expansão lírica);
-
a ausência quase total da descrição (Camilo não se
deteve, por exemplo, na análise psicológica das
personagens à maneira dos realistas, isto é, a partir de
dentro. É através do diálogo, sempre rápido e conciso, e
das acções que conseguimos perceber o carácter moral das
pessoas que vivem nas suas novelas);
-
a narração é muito
sumariada;
-
o diálogo é explorado
ao máximo,
de modo a tirar o máximo efeito da sua dramatização;
-
a adjectivação pouco cuidada (Camilo não aprendeu a
sábia combinação do adjectivo e do substantivo que
Garrett e, depois dele, Eça de Queirós utilizaram para a
expressão de estados de alma) é suprida eficazmente pela
propriedade do substantivo e do verbo: “O rosto de
Mariana acerejou-se”;
-
a abundância de comentários pessoais (cínicos ou
sarcásticos, apiedados ou indignados, cómicos ou
morais).
De tudo isto resultou
uma extraordinária arte de contar.