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AMOR DE PERDIÇÃO - ACÇÃO

 

- LINHA DO AMOR -

 

Amor de Perdição é a novela dos grandes penitentes do amor. Com efeito, Simão Botelho regenerou-se por amor, matou por amor, foi preso e condenado por amor; Teresa recusa a politicamente correcta obediência  ao pai por amor, optou pela clausura do convento por amor  e morre sem ver o seu amor fisicamente consumado; Mariana, por sua vez, abdica de ter uma vida própria por amor e suicida-se por amor.

 

O Amor como sentimento Absoluto é um sentimento arrebatador que provoca tensão nos sujeitos e o total isolamento da realidade que os envolve e em que estão inseridos. Simão e Teresa são os protagonistas inocentes do drama de amar, de amar contra a vontade dos pais que, à semelhança de uma aranha, construíram a teia que, tragicamente, os aprisiona e os liquida, sem dó nem piedade. Tal como Pedro e Inês, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque ousaram amar e, ao fazê-lo, provocaram a sua perda física e a sua conquista espiritual. Não podendo realizar a entrega de corpo e alma, consubstanciam o imenso amor que os une numa entrega espiritual, elevando-se, assim, à grandiosidade heróica. É, deste modo, que o Amor se vai associar à morte, mas, simultaneamente, significa uma conquista de Absoluto, a conquista da verdadeira dimensão de Ser.

 

A oposição romântica Sentimento/Razão é a mola que desencadeia a catástrofe. Foi a paixão avassaladora que, exacerbadamente sentida e vivida, colocou os amantes numa situação de conflito irremediável e os conduziu à fatalidade, isto é, à morte. Em todo o enredo amoroso são visíveis os indícios ou presságios da fatalidade que vitimaria as personagens (cf. a apresentação da família de Simão, a apresentação da personagem, a questão legal subjacente ao ódio das duas famílias, entre outros assuntos correlacionados com esta temática).

 

A caracterização psicológica de Simão e a de Teresa, definida pelo seu carácter romântico, constitui o ponto de partida para o seu estatuto de heróis míticos, porque assumem até às últimas consequências a entrega ao seu amor. Para o autor, relativizar ou tentar relativizar o Amor é destituí-lo de todo o seu carácter absoluto e torná-lo um sentimento vulgar que, ao invés de unir de forma inabalável os amantes, provocaria nestes a sensação da banalidade dos seus sentimentos e a ruptura, a médio prazo, desse sentimento morno e quiçá amorfo. Como torná-lo, então, Amor Absoluto?

 

Se o Amor "é querer estar preso por vontade", se representa a força motriz que condiciona o comportamento dos amantes, há que construí-los (enquanto personagens), dotando-os dessa força inesgotável que os leva a lutar estoicamente contra tudo e contra todos, na ânsia de vencer todos os obstáculos para, dessa forma, celebrarem as núpcias física e espiritualmente.

 

Se atentarmos na análise objectivando epistolografia (nas cartas) de Simão e de Teresa constatamos que, embora exista essa vontade, os obstáculos são de tal modo intransponíveis que, mesmo sem o desejarem, os amantes adiam para a eternidade e para o intemporal, o sentimento que os torna vivos. Ao serem incapazes de lutar contra a sociedade (metonimicamente representada pelos pais), ambos abdicam do amor em vida e procuram vivê-lo para além da morte (cf. última carta de Teresa a Simão), assumindo, assim, a atemporalidade do seu sentimento e a sua condição de amantes infelizes que, da vida, não souberam "colher doce fruito" (Luís de Camões, Os Lusíadas, III, 120), porque não quiseram renunciar.

 

O amor torna-se, pois, o seu absoluto e aparece, na obra, como um sentimento indissociável do sentimento religioso. É através do amor que Simão e Teresa se tornam heróis, ascendendo ao espaço celeste.

 

(JACINTO, Conceição; LANÇA, Gabriela. Amor de Perdição. Colecção Estudar Português, Porto Editora, 1998, com adaptações.)

 

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

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