Na intriga de Amor de Perdição há muitos elementos
próprios da tragédia clássica, como o comprova o
quadro a seguir apresentado:
Elementos trágicos
Definição e/ou aplicação à obra
Temática
Amores contrariados.
Anankê
Fatum, destino ou fatalidade.
Simão parece perseguido pelo destino, desde
o seu nascimento - relembre-se que foi
baptizado em perigo de vida. Mas alguns
elementos da sua família, mormente no que
concerne ao campo amoroso, também foram
abalados pelo destino malévolo (cf. Cap. I,
página 44). De igual modo, Teresa e a
Mariana parecem vítimas inocentes de um
fatum madrasto. Efectivamente, qualquer
uma destas personagens cumpre o seu destino
trágico, ao entregar-se a um amor proibido.
O que está em causa, em relação a Simão e a
Teresa, é orgulho terrível das suas
famílias, que os condenam à morte, por
alimentarem preconceitos e estereótipos
comportamentais, que caracterizam um espaço
social onde não há lugar para a afirmação
individual. Camilo critica aqui o "homem
social", mesquinho e descontrolado pela sua
própria Razão.
Quanto a Mariana, é como se, à partida, e
dada a realidade social estabelecida, ela
estivesse irremediavelmente condenada a amar
sem ser correspondida. É um facto que Simão
acaba por considerar Mariana e João da Cruz
a sua família, mas a sua incapacidade de
corresponder ao amor da filha do ferrador
(porque ama Teresa) aparece, ainda que
sub-repticiamente, como um estigma que marca
as diferentes classes sociais. aliás, é esse
o sentido da reflexão de João da Cruz,
quando afirma convictamente que Mariana vale
mais do que qualquer fidalga.
Hybris
Desafio lançado por Simão e Teresa à
prepotência dos respectivos pais.
Também Mariana desafia a mentalidade da
época, assete numa estrutura de classes
hierarquizadas, pelo simples facto de se
atrever a apaixonar-se por Simão,
alimentando, inicialmente de forma mais
remota, como que platonicamente, mas depois
de maneira mais esperançosa, a ideia de que
o seu amor fosse correspondido.
Agón
Combate ou luta empreendidos pelos
protagonistas, um combate que é levado a
cabo contra os preconceitos sociais e contra
a prepotência dos pais que põem os seus
interesses/problemas pessoais sobre os
interesses dos seus próprios filhos.
Pathos
Sofrimento dos protagonistas, que se
desenvolve em gradação crescente, até à
morte ou suicídio.
Peripeteia
Peripécia(s), constituída(s) pelo(s)
acontecimento(s) imprevistos que fazem
avançar a intriga, às vezes alterando
completamente o seu rumo. Exemplos: Teresa é
encarcerada no convento; Simão assina
Baltasar Coutinho; Simão é preso; Mariana
larga tudo e segue Simão até ao abraço
suicida...
Compaixão
O sentimento de compaixão é despoletado nos
leitores, que vêem os apaixonados a
perder-se irremediavelmente, enredados nas
teias de um destino cruel, que deriva, na
verdade, da incompreensível e incongruente
desavença de duas famílias, cujos patriarcas
não têm pejo algum em sacrificar o amor dos
respectivos filhos em benefício de uma
suposta honra a defender.
Na obra, essa compaixão é sugerida e
desencadeada pela inserção na narrativa das
cartas de Simão e Teresa (de tom
melodramático e expressivo do sofrimento que
atinge as personagens) e dos comentários do
narrador, que tenta despertar, com uma
linguagem extremamente emotiva, a
sensibilidade dos leitores.
Clímax
Ponto auge da tragédia, quando morrem
malfadadamente os protagonistas.
Catastrophé
Corresponde ao desenlace fatal, quando
ocorrem as morte das personagens que
constituem o triângulo amoroso significativo
da obra.
Coro
É
a "voz " do senso comum, que tenta moderar a
exaltação desmedida dos protagonistas.
O papel do coro é desempenhado no Amor
de Perdição pelos cartas e pelos
comentários do narrador, já atrás referidos.
Indícios ou presságios
Mariana, por mais do que uma vez, (pres)sente
a desgraça que irá atingir Simão Botelho.
A lei das três unidade
Segundo a tragédia classe, tudo deveria
ocorrer de forma linear, sem grandes
desvios, num curto espaço de tempo (mais ou
menos um dia) e no mesmo local.
Em Amor de Perdição,
apenas a unidade de acção é respeitada.
A catarse ou cataroia
Tem a ver com o facto de os
leitores/espectadores, depois de sentirem
vibrar as cordas da sensibilidade e de verem
despertar sensações, ficarem mais
purificados e com ganas de lutarem contra
todas as formas de injustiça.
Assim, a novela Amor de Perdição apresenta
uma dimensão trágica, que se traduz na morte das
personagens principais, as quais lutam até ao fim, ainda que
ingloriamente, pelo único motivo que lhes dá a razão do
seu existir - o amor. Findas as esperanças na vida na
terra, sucumbem ou procuram na morte o
consolo possível e a esperança de um amor absoluto, agora vivido
espiritualmente, num além-mundo.
Obs: as
páginas indicadas referem-se à obra de Camilo, Amor
de Perdição (Memórias de uma família), com
realização didática de Luiz Amaro Joaquim de Oliveira,
Porto Editora, 6.ª ed., 1980.