No último parágrafo da conclusão de Amor de
Perdição pode ler-se:
Da família de Simão Botelho vive ainda, em Vila Real de
Trás-os-Montes, a senhora D. Rita Emília da Veiga
Castelo Branco, a irmã predilecta dele. A última pessoa
falecida, há vinte e seis anos, foi Manuel Botelho, pai
do autor deste livro.
Foi, de facto, a história de seu tio paterno
(Simão António Botelho) que Camilo se propôs narrar,
como ressalta da ideia desenvolvida na Introdução
ao livro, onde o autor delineou uma estrutura baseada
totalmente em função da personagem principal - Simão -,
uma estrutura tripartida, enunciada numa expressão
sintética do novelista: "Amou (1.ª parte),
perdeu-se (2.ª parte) e morreu
amando" (3.ª parte), como se pode confirmar no
esquema seguinte:
1.ª parte
2.ª parte
3.ª parte
AMOU
PERDEU-SE
MORREU AMANDO
Simão amou Teresa.
- Mata Baltasar.
- É encarcerado na prisão de Viseu.
- É condenado à morte na forca.
- É transferido para a cadeia da Relação do
Porto.
Cadeia da Relação do Porto.
Morre, vítima de febre maligna, na
viagem a caminho do degredo.
Teresa amou Simão.
- Recusa a proposta de casamento de
Baltasar.
- Rejeita a imposição paterna de casar com
Baltasar.
- É encarcerada no convento de Viseu.
- Foi transferida para o convento de
Monchique.
Morre, vítima da tuberculose, no convento de
Monchique.
Mariana amou Simão.
- Trata dos ferimentos de Simão, em casa de
seu pai, João da Cruz.
- Faz companhia a Simão na prisão.
- Embarca com ele para o degredo.
Morre, lançando-se ao mar e levando
agarradas, contra o peito, as cartas de
Simão e Teresa.
Encontraremos, portanto, nesta novela, personagens e
factos verdadeiros, assim como nos depararemos com
figuras/personagens verdadeiras e outras adulteradas.
Entre as personagens e/ou factos verdadeiros, podemos
apontar:
A prisão de Simão Botelho, por ter ferido um criado de
José Cardoso Cerqueira, com um tiro.
O julgamento de Simão e a intervenção de Domingos
Botelho em seu favor.
A condenação a degredo de Simão.
Manuel, irmão de Simão, foi um desertor, encoberto pelo
pai.
Quanto às personagens/figuras adulteradas, temos:
Domingos Botelho, que era de origem plebeia, aparecendo,
pois, enobrecido, moral e genealogicamente falando.
Simão era um perigoso arruaceiro, envolvido em vários
crimes, aparecendo aqui regenerado.
"Um Albuquerque" acusou Simão, perante o Príncipe
Regente, D. João, de delito grave. Por isso, a pessoa de
Tadeu de Albuquerque tem uma função mais ampla no drama
do que, na realidade, parece ter tido "esse tal
Albuquerque".
Finalmente, no que concerne às personagens/figuras
criadas por Camilo, podemos referir o seguinte:
São criações literárias do autor a Teresa de
Albuquerque, Baltasar Coutinho, o ferrador João da Cruz
e a mendiga.
O ferrador João da Cruz deve talvez representar qualquer
dos companheiros de ralé de que Simão gostava de andar
rodeado.
Mariana poderá ter sido sugerida por uma mulher
que Camilo encontrava na cadeia da Relação do
Porto, uma dedicada companheira do preso Leonardo com
quem partiu para o degredo em África.
A mendiga talvez encarne uma certa D. Eufrásia, que
desempenhou idêntico papel em relação a Camilo e Ana
Plácido.