Camilo Castelo Branco
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Camilo Castelo Branco

AMOR DE PERDIÇÃO - MODOS DE EXPRESSÃO LITERÁRIA

 

No prefácio da 2.ª edição, Camilo procura justificar o sucesso da sua obra, apondo-lhe as seguintes qualidades: "...a rapidez das peripécias, a derivação concisa do diálogo para os pontos essenciais do enredo, a ausência de divagações filosóficas, a lhaneza da linguagem e o desartifício das locuções".

 

Esta análise do próprio autor está, de facto, em harmonia com a sua obra: uma novela de acção de ritmo acelerado, onde o mais importante é a NARRAÇÃO e em que o próprio DIÁLOGO (também importante) ajuda a narração, pois através dele temos conhecimento de pormenores factuais que o narrador se dispensa de narrar.

A DESCRIÇÃO é muito pouco relevante nesta novela, ocupando um espaço muito reduzido e permitindo o ritmo bastante rápido da narração. A descrição da vida conventual das freiras de Viseu é a mais longa de toda a novela, travando o ritmo narrativo e fazendo diminuir a tensão dramática, em benefício de um certo cómico (de situações e de linguagem), com óbvios intuitos críticos, mais próprio das farsas. Daí o facto de alguns críticos considerarem, quiçá exageradamente, essa descrição como uma excrescência inútil e até prejudicial ao tom dramático da novela.

Além desta descrição mais longa, há apenas mais dois pequenos quadros descritivos que mereçam referência: a descrição espácio-temporal que precede o assassinato de Baltasar (cap. X) e a descrição da larga paisagem vista por Simão das grades da cela da cadeia (cap. XV). Estas duas pequenas descrições têm a função de dar relevo à grande solidão e amargura de Simão, em contraste com a sinfonia de sons e de cores da natureza ao raiar da madrugada e com o ambiente buliçoso e vivo de um dia de Verão.

A mesma parcimónia descritiva se nota nos retratos fisico-psicológicos das personagens, que se reduzem a raras anotações dispersas, como estas referentes a Mariana, cujo retrato ainda é dos mais completos: "formas bonitas, um rosto belo e triste, ...olhar melancólico, ...sorriso triste"; "...grandes olhos azuis..."; "boa moça..."; "esta é bem mais bonita que a fidalga!"

 Em conclusão, é muito reduzido o espaço ocupado pela descrição nesta obra de Camilo. As qualidades das personagens são mais sugeridas do que descritas. Daí a importância do diálogo na caracterização (indirecta) das personagens.

 

Mais importantes são as CARTAS (género epistolar) trocadas entre Simão e Teresa, verdadeiras efusões líricas, em que os dois apaixonados, evocando coisas passadas, emitem autênticas lamentações, um pouco como as lançadas pelo coro da tragédia clássica. Estas cartas, que travam o ritmo da narrativa, contêm também uma critica, sentida e amarga, à prepotência dos pais e às estruturas sociais vigentes. Há nelas como que a perda da consciência da passagem do tempo cronológico, ou a transferência deste tempo da terra para o tempo metafísico da eternidade: "Adeus! À luz da eternidade parece-me que já te vejo, Simão!".

A transcrição de  CARTAS ocorre em grande número ao longo da novela: de Teresa a Simão,  nos capítulos  VII, IX, XIII, XIX e na  Conclusão; de Simão a Teresa, nos capítulos  VIII, X, XIII, XV  e XIX; da mãe de Simão a Simão, no capítulo XI; da irmã de Simão ao próprio narrador, incluída no capítulo XII; e do pai de Simão ao Juiz corregedor, inserta no capítulo XVI. Para além das informações que trazem, das comunicações veiculadas entre os diversos destinatários,  de servirem como forma de persuasão do destinatário, numa tentativa de este adoptar determinadas atitudes, de servirem, ainda, como verdadeiras efusões líricas, de um sentimentalismo deveras notável, as CARTAS desempenham uma outra função, não menos interessante, na economia da narrativa - vêm conferir-lhe um mais alto grau de autenticidade, de veracidade (aquilo a que alguém chamou de técnica historiográfica).
 

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© Joaquim Matias 2008

 

 

 

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