Nesta novela encontramos um narrador/autor. Na verdade,
por três vezes, no texto, Camilo identifica o narrador
consigo próprio. É o que acontece no cap. XII, ao
inserir a carta da sua tia Rita (pág. 155); no cap.
XIII, quando alude à sua estada na prisão e à redação da
novela (pág. 162); ou então nas linhas finais da
"conclusão", quando identifica Manuel Botelho como seu
pai (pág. 244).
O narrador é, pois, a Voz do Escritor, que conta
apaixonadamente a história, não se coibindo de condenar,
de elogiar ou de se sensiblizar. Trata-se, então, de um
narrador atuante, de uma voz que tenta influenciar o seu
público, enfatizando certos aspetos da personagem e da
história e apagando outros. Narra na 3.ª pessoa e, umas
vezes, é omnisciente, como se estivesse dentro das
personagens e no meio dos acontecimentos, para, mais à
frente, confessar ter tido notícia do que conta através
de cartas que lhe chegaram à mão e até de apontamentos
rascunhados por Simão.
Entretanto, estamos perante um narrador que revela ter
consciência dos processos de engrandecimento ou
vulgarização das personagens, criando heróis (Simão,
Teresa, Mariana), anti-heróis (Baltasar Coutinho,
Domingos Botelho, Tadeu de Albuquerque) e não-heróis
(Manuel e D. Rita preciosa) e demarcando-os de capítulo
para capítulo.
Quanto à focalização, conjuga a focalização externa com
a interna, alternando-as. Dá-nos, assim, acesso a atos,
a cartas e à própria consciência das personagens. À
medida que a narrativa avança, o peso da focalização
interna aumenta, como o espelha, por exemplo, a atitude
cada vez mais abnegada, desprendida, de Mariana, que
tudo sacrifica em prol do seu amor.
No que respeita ao narratário, quer o leitor, quer a
leitora são, por vezes, chamados pelo próprio narrador,
ao espaço das emoções para que se sensibilizem com o
amor ou com a infelicidade que atinge inexoravelmente os
seres apaixonados ou, então, para que tenham uma
atitude de compreensão face a atos tresloucados
cometidos por causa da exacerbação
sentimental/emocional.
Obs: as
páginas indicadas correspondem à obra de Camilo, Amor
de Perdição (Memórias de uma família), com
realização didática de Luiz Amaro Joaquim de Oliveira,
Porto Editora, 6.ª ed., 1980.