Embora se possa já vislumbrar na obra um certo pendor
realista, Amor de Perdição mantém ainda uma
atmosfera tipicamente romântica, bem visível em algumas
características, a seguir indicadas:
- A projecção do Escritor no texto;
- A busca constante da coloquialidade (o diálogo
narrador-leitor, a referência a “apontamentos” e ao
estatuto de "Memórias" do texto são manifestações da
vontade de "autenticar" a obra);
- A caracterização das personagens principais:
• juventude e beleza;
• entrega a um ideal amoroso, que regenera e que destrói;
• a violência e os excessos;
• o herói dominado pela paixão;
• a mulher-anjo;
- A simpatia pelo sentir e pela intuição populares;
- Os lances dramáticos que se sucedem;
- Os valores em jogo: a honra (as personagens agem no
sentido de não traírem a sua honra, conceito este que
varia de indivíduo para indivíduo, segundo a perspectiva
dos interesses ou preconceitos de cada um), a defesa
apaixonada da liberdade, a concepção do amor como valor
máximo que tudo justifica (a idealidade, a fidelidade, a
expiação amorosas);
- A tensão entre os direitos do indivíduo e os
interesses da sociedade que gera conflitos e leva à
denúncia de uma sociedade repressiva (autoritarismo
paterno, casamentos por conveniência, educação limitada
para as mulheres, a vida conventual, os tribunais ... )
- o que há de dramático nas relações humanas na
sociedade portuguesa do séc. XIX é sentido pelo Escritor
como consequência do peso de séculos de uma educação
repressiva. A derrota dos heróis face à sociedade é
visível na solução encontrada para o desfecho: doença
(tuberculose dum, febre maligna do outro) que conduz à
morte;
- O destino que recai e persegue algumas personagens
(pág. 239);
- O sofrimento e a obsessão da morte, como elementos
integrantes do amor (a novela camiliana é a novela dos
grandes penitentes do amor). Ver págs. 214, 216, 217,
218, 239, 243...
Obs: as
páginas indicadas referem-se à obra de Camilo, Amor
de Perdição (Memórias de uma família), com
realização didática de Luiz Amaro Joaquim de Oliveira,
Porto Editora, 6.ª ed., 1980.