Domingos José Correia Botelho de Mesquita de Menezes,
fidalgo de linhagem, e um dos mais antigos solarengos de
Vila Real de Trás-os-Montes, encarna nesta novela o
figurino do pai-tirano, caprichoso e déspota.
É diminuído e ridicularizado desde as primeiras páginas
da obra, por contraste com Simão. A imagem que fica dele
é acentuadamente negativa, sobretudo pela indiferença
demonstrada em relação à sorte do filho.
Domingos Botelho era extremamente feio. (…)
Faltavam-lhe bens de fortuna. (…) Os dotes
de espírito não o recomendavam também: era
alcançadíssimo de inteligência, e granjeara
entre os seus condiscípulos da Universidade
o epíteto de «Brocas», com que ainda hoje os
seus descendentes em Vila Real são
conhecidos. Bem ou mal derivado, o epíteto
Brocas vem de broa. Entenderam os académicos
que a rudeza do seu condiscípulo procedia de
muito pão de milho que ele digerira na sua
terra.
Domingos Botelho devia ter uma vocação
qualquer, e tinha: era excelente flautista;
foi a primeira flauta do seu tempo.
(Amor de Perdição, cap.I)
TADEU DE
ALBUQUERQUE
Fidalgo de Viseu, viúvo, pai de Teresa, trata a filha
única com desvelo. É porém com violência que vai opor-se
ao amor dela por Simão, a ponto de preferir encarcerá-la
num convento a vê-la casada com o filho de Domingos
Botelho, seu inimigo. Como Domingos Botelho, encarna
nesta novela o figurino do pai-tirano, caprichoso e
déspota.
A sua
figura vai-se tornando progressivamente mais negativa e
muito menos escrupulosa na sua actuação. É uma
personagem que se vai "desfigurando", por contraste com
a caracterização cada vez mais positiva de Teresa e de
Simão. Esta “desfiguração” vem sublinhar a sem-razão dos
opositores dos dois amantes, permite explicar as
proporções dramáticas que o conflito irá atingir e
funciona ainda como crítica à mediocridade e aos falsos
valores da aristocracia. "Condenado” pelo seu papel na
estrutura da novela, perde gradualmente a razão que lhe
poderia assistir e torna-se irremediavelmente mau.
Horas depois, chamou
[Tadeu de Albuquerque]
sua filha, mandou-a sentar ao pé de si, e,
em termos serenos e gesto bem-composto, lhe
disse que era sua vontade casá-la com o
primo; porém, que ele já sabia que a vontade
de sua filha não era essa. Ajuntou que a não
violentaria; mas também não consentiria que
ela, sovando aos pés o pundonor de seu pai,
se desse de coração ao filho do seu maior
inimigo. Disse mais que estava a resvalar na
sepultura, e mais depressa desceria a ela,
perdendo o amor da filha, que ele já
considerava morta. Terminou perguntando a
Teresa se ela duvidava entrar num convento,
e aí esperar que seu pai morresse, para
depois ser desgraçada à sua vontade.
Teresa respondeu, chorando, que entraria num
convento, se essa era a vontade de seu pai;
porém, que se não privasse ele de a ter em
sua companhia nem a privasse a ela dos seus
afectos, por medo de que sua filha
praticasse alguma acção indigna, ou lhe
desobedecesse no que era virtude obedecer.
(Amor de Perdição, cap. III)
BALTASAR
COUTINHO
Fidalgo de Castro Daire, “senhor de casa”, era primo de
Tadeu de Albuquerque, com quem este planeia casar a sua
filha Teresa. Esta, porém, recusa casar-se com o primo,
pois o seu coração já tinha dono – Simão Botelho.
Rejeitado e perante a resistência de Teresa, aconselha
Tadeu de Albuquerque a usar de paciência e astúcia. Com
ele planeia a cerimónia do casamento, em Junho de 1803,
apanhando a jovem de surpresa. Mas “malograda a
tentativa do seu amor de emboscada”, chama João da Cruz,
que fora criado em sua casa, e propõe-lhe que assassine
Simão a troco de trinta moedas; o ferrador rejeita em
nome da gratidão a Domingos Botelho, magistrado cuja
clemência o salvara da forca.
Morte de Baltasar Coutinho. Imagem do filme
Amor de Perdição, de Manuel de Oliveira.
Prepara depois
um atentado contra a vida de Simão Botelho por
alvitre de Tadeu de Albuquerque. No lance, perde
dois criados e Simão sai ferido num braço.
Aconselha o tio a enviar Teresa para um convento
no Porto. Quando tudo estava preparado para a
partida, surge Simão. Na refrega que se segue,
Baltasar actua primeiramente como covarde mas, provocado pelo jovem,
lançou-se de ímpeto a ele. Chegou a apertar-lhe a
garganta nas mãos; mas depressa perdeu o vigor dos
dedos.
Quando as damas chegaram a interpor-se entre os dois,
Baltasar tinha o alto do crânio aberto por uma bala que
lhe entrara na fronte. Vacilou um segundo e caiu
desamparado aos pés de Teresa.(Amor
de Perdição, cap. X)
Baltasar Coutinho é, por excelência o anti-herói,
opondo-se a Simão pelos seus valores – nele o interesse
sobrepõe-se à paixão – e pela sua actuação,
caracterizada por "uma absoluta carência de brios", pela
falta de pundonor, de escrúpulos.