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Camilo Castelo Branco

AMOR DE PERDIÇÃO - PERSONAGENS

 

TERESA CLEMENTINA DE ALBUQUERQUE

- A "nossa" Julieta -

Filha única de Tadeu de Albuquerque, órfã de mãe e presumível herdeira de um grande património, na sua apresentação avultam os indicadores sociais. Do seu amor por Simão pouco sabemos (a sua origem, o seu desenvolvimento...), apenas que se trata de um amor extremo, que leva inevitavelmente à perdição.

 

 

Por amor recusa casar com o seu primo Baltasar Coutinho, enfrentando a fúria paterna e aceitando resignadamente a clausura que lhe foi imposta.

Reclusa no convento, Teresa continua a existir para Simão através das cartas e surge glorificada pelo contraste da sua pureza com a corrupção generalizada do convento. Ela é uma figura ideal que assume lucidamente o seu amor.

Romântica até à medula, pelo seu amor extremo que leva inexoravelmente à morte, pela luta pela liberdade de sentimentos, pelo facto de ver a morte como única via para o encontro amoroso, pela religiosidade,

Teresa Clementina de Albuquerque é a única heroína que Simão, no seu desejo de glória, poderia amar. Se Simão é o Romeu português, Teresa é sem dúvida a nossa Julieta.

 

Tadeu mudou de aspecto, e disse irado:

– Hás-de casar! Quero que cases! Quero... Quando não, serás amaldiçoada para sempre, Teresa! Morrerás num convento! Esta casa irá para teu primo! Nenhum infame há-de aqui pôr um pé nas alcatifas de meus avós. Se és uma alma vil, não me pertences, não és minha filha, não podes herdar apelidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados pelo pai desse miserável que tu amas! Maldita sejas! Entra nesse quarto, e espera que daí te arranquem para outro, onde não verás um raio de sol.

Teresa ergueu-se sem lágrimas, e entrou serenamente no seu quarto. Tadeu de Albuquerque foi encontrar seu sobrinho, e disse-lhe:

– Não te posso dar minha filha, porque já não tenho falha. A miserável, a quem eu dei este nome, perdeu-se para nós e para ela.

(Amor de Perdição, cap.IV)

 

SIMÃO ANTÓNIO BOTELHO - o "nosso" Romeu

 

Simão António Botelho é a recriação de um tio paterno de Camilo. É o protagonista de uma história trágica de amor que decorre entre 1801 e 1807: Amou, perdeu-se e morreu amando. Nascido em 1784, em Lisboa, era o quarto filho de D. Rita Preciosa e de Domingos Botelho, irmão de Manuel, Maria, Ana e Rita. Aos quinze anos encontrámo-lo a estudar Humanidades em Coimbra.

 

Amor de Perdição. Simão e Mariana, na cadeia. Veto-Teatro Oficina

 

Jovem estroina, arruaceiro, impulsivo, muito dado a excessos, com tendência para o inconformismo social e até para a marginalidade, que o leva à prisão no cárcere académico durante seis meses, assistimos, depois, à sua maravilhosa mudança por amor a Teresa de Albuquerque, sendo por ela correspondido.

 

Entrega-se totalmente a um amor puro e idealizado, um amor-paixão, e começa a estudar a sério, tendo êxito nos exames, convertido aos deveres, à honra, à sociedade e a Deus pelo amor. Será, aliás, por amor que se vai perder: mata Baltasar Coutinho, é preso e condenado à forca. Comutada a sentença na pena de dez anos de degredo para a Índia, já na nau, de partida, vê Teresa, que do mirante do convento ao longe agita um lenço. Informado pelo Comandante da morte dela, adoece e morre em poucos dias. O seu cadáver é lançado ao mar.

 

Simão Botelho representa bem o papel do Romeu português.
 

No espaço de três meses fez-se maravilhosa mudança nos costumes de Simão. As companhias da ralé desprezou-as. Saía de casa raras vezes, ou só, ou com a irmã mais nova, sua predilecta. O campo, as árvores e os sítios mais sombrios e ermos eram o seu recreio. Nas doces noites de Estio demorava-se por fora até ao romper da alva. Aqueles que assim o viam admiravam-lhe o ar cismador e o recolhimento que o sequestrava da vida vulgar. Em casa encerrava-se no seu quarto, e saía quando o chamavam para a mesa.

D. Rita pasmava da transformação, e o marido, bem convencido dela, ao fim de cinco meses, consentiu que seu filho lhe dirigisse a palavra.

Simão Botelho amava. Aí está uma palavra única, explicando o que parecia absurda reforma aos dezassete anos.

Amava Simão uma sua vizinha, menina de quinze anos, rica herdeira, regularmente bonita e bem-nascida. Da janela do seu quarto é que ele a vira a primeira vez, para amá-la sempre. Não ficara ela incólume da ferida que fizera no coração do vizinho: amou-o também, e com mais seriedade que a usual nos seus anos.

(Amor de Perdição, cap.II)

 

 

 

 

MARIANA

Terceiro elemento do triângulo amoroso, esta personagem avulta gradualmente na novela. Acaba por ser a figura mais humana e completa da obra. O narrador detém-se na sua  figura , nas suas atitudes , nos seus sentimentos. O seu amor por Simão vai sendo sugerido e afirmado progressivamente. A mímica é fundamental na construção desta personagem. É através do seu olhar, do seu sorriso, de certos gestos que o narrador sugere o seu amor, o seu "martírio oculto”.

 

Mariana surge desajustada do seu meio pela sua excepcional sensibilidade e pela sua beleza invulgar. A sua extrema sensibilidade é frisada desde o início. Já na idade de treze anos ela estava disposta a matar-se, caso o seu pai fosse condenado.

 

Saliência ainda para a delicadeza moral e a altivez da filha de João da Cruz. Mariana ama Simão, no entanto, nada faz  para o afastar de Teresa, em quem vê, aliás, um modelo que admira e em cujo lugar desejaria estar. Companheira  ideal de prisão (confidente), ela é o símbolo da abnegação, da gratidão desinteressada, da generosidade discreta e delicada, do amor humilde e puro. Ela é, no fundo, a encarnação da mulher-anjo. Mas apesar de todos estes atributos, não pensemos que nela está ausente a vibração humana. Na verdade, mais do que uma vez, revela uma esperança secreta de vir a conquistar o amor de Simão e quase ficamos com a impressão que o consegue, quando Simão como que renuncia  ao amor de Teresa, recusando trocar a prisão de Vila Real (onde poderia continuar a manter uma relação com Teresa) pelo degredo (onde essa relação seria impossível) e permite que Mariana o acompanhe.

 

"Um Amor de Perdição", uma adaptação livre da obra camiliana, num filme de Mário Barroso, com produção de Paulo Branco. Catarina Wallenstain, no papel de Mariana.

 

No final, o seu ato suicida pode ser interpretado como a possibilidade que ela teve de possuir, enfim, o corpo do ser bem amado. É, então, que Simão é dela e só dela. Até o rolo de papéis que continha a correspondência  de Teresa é retirado da água, para que, no silêncio escuro e profundo das águas, nada venha perturbar aquela posse total.

 

Mariana tirou o maço das cartas debaixo do travesseiro, e foi a uma caixa buscar os papéis de Simão. Atou o rolo no avental, que ele tinha daquelas lágrimas dela, choradas no dia da sua demência, e cingiu o embrulho à cintura.

Foi o cadáver envolto num lençol, e transportado ao convés.
Mariana seguiu-o.

Do porão da nau foi trazida uma pedra, que um marujo lhe atou às pernas com um pedaço de cabo. O comandante contemplava a cena triste com os olhos húmidos, e os soldados que guarneciam a nau, tão funeral respeito os impressionara, que insensivelmente se descobriram.

Mariana estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e parecia estupidamente encarar aqueles empuxões que o marujo dava ao cadáver, para segurar a pedra na cintura.

Dois homens ergueram o morto ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o balanço para o arremessarem longe. E, antes que o baque do cadáver se fizesse ouvir na água, todos viram, e ninguém já pode segurar Mariana, que se atirara ao mar.

À voz do comandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homens para salvar Mariana.

(Amor de Perdição, “Conclusão”)

 

De qualquer dos modos, Mariana tinha consciência de que a sua origem a afastava de Simão. A sua proveniência humilde e a sua educação não preenchiam os requisitos de uma heroína de romance - e só uma heroína, Simão,  no seu desejo de glória, poderia amar.

JOÃO DA CRUZ - o bom bandido

 

Mestre ferrador, pai de Mariana, tem uma oficina a um quarto de légua de Viseu. Impulsivo destemido, o seu corpo está uma rede de facadas, [...] das feridas com que [...} vinha laureado de todas as feiras e romarias.

 

Alvo de uma emboscada montada por dois Criados de Baltasar Coutinho, mata um deles com um tiro de clavina e o outro, ferido, mata-o com um podão para não deixar testemunhas, alegando que quem o seu inimigo poupa, nas mãos lhe morre, e que tanto faz matar um como dois.

É assassinado a 4 de Agosto de 1805, pelo filho de Bento Machado, recoveiro que João da Cruz havia morto numa briga dez anos antes.

 

É a personagem mais autêntica e, simultaneamente, mais folhetinesca desta novela. É autêntica pela sua caracterização física, psíquica e social, pelo seu agir e pelo seu dizer. É autêntica ainda  nas suas contradições: amor paternal, gratidão extrema e coragem, por um lado; violência e ausência de escrúpulos, por outro.

 

É uma personagem folhetinesca pela sua inserção na novela. O ferrador surge, com efeito, relacionado com Simão por uma série de coincidências: foi criado de Baltasar; deve a vida ao pai de Simão; a sua filha é atraída, fortemente, por Simão e por Rita; a sua própria morte, tão "oportuna" em termos de estrutura, pois "liberta" Mariana, que poderá seguir para o degredo, ocorre inesperadamente e sem motivação na história.

 

O narrador deixa-nos uma imagem viva e simpática  desta  personagem,  que  é  um auxiliar

 

desinteressado do herói e um símbolo do bom bandido, tão caro à ficção ultra-romântica e que desempenhou tão bem a função que lhe estava reservada: uma função dinâmica, um modelo de gratidão, de vitalidade, um desvio ao convencionalismo.

 

Há-de haver seis meses que ele [Baltasar Coutinho] me mandou chamar a Viseu, e me disse que tinha trinta peças para me dar, se eu lhe fizesse um serviço. – «O que vossa senhoria quiser, fidalgo.» E vai ele disse-me que queria que eu tirasse a vida a um homem. Isto buliu cá por dentro comigo, porque, a falar verdade, um homem que mata outro num aperto, não é matador de ofício, acho eu, não é assim?

– Decerto... – respondeu Simão, adivinhando o remate da história. – Quem era o homem que ele queria morto?

– Era vossa senhoria... Ó homem! – disse o ferrador com espanto. – O senhor nem sequer mudou de cor!

– Eu não mudo nunca de cor, senhor João – disse o académico.

– Estou pasmado!

– E vossemecê não aceitou a incumbência, pelo que vejo – tomou Simão.

– Não, senhor; e, então, logo que ele me disse quem era, a minha vontade era pregar-lhe com a cabeça numa esquina.

(Amor de Perdição, cap. V)

 

 

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© Joaquim Matias 2008

 

 

 

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