D. Rita Teresa Margarida Preciosa da Veiga Caldeirão
Castelo Branco era a mãe de Simão Botelho.
Antiga dama de D. Maria I, muito formosa, veio a
casar-se com Domingos Botelho, com quem não foi feliz.
Aliás, demorou dez anos a deixar-se persuadir a um
casamento que não desejava. Em 1801, infeliz com o
marido e saudosa da corte, com os dois filhos a estudar
em Coimbra, as três meninas são o prazer e a vida toda
do coração de sua mãe.
É uma personagem ambiguamente caracterizada. É
extremamente dotada, sendo com ela que Simão se parece.
No entanto, em relação a este filho, ela funciona como
ausência - está sempre ausente nas ocasiões mais
críticas do filho. Nota-se-lhe até uma certa aversão,
talvez devido à sua índole insubmissa. Apesar de tudo,
irritada, mas irritada como mãe procura ajudar Simão, a
ocultas do marido, e persuadir o corregedor a uma
atitude mais flexível e cai doente, quando sabe que o
filho foi condenado à forca. Para com Manuel, foi sempre
uma mãe extremosa, chegando ao ponto de vender a pouco e
pouco as suas jóias para o ajudar.
Domingos Botelho casou com D. Rita Preciosa.
Rita era uma formosura, que ainda aos
cinquenta anos se podia prezar de o ser. E
não tinha outro dote, se não é dote uma
série de avoengos, uns bispos, outros
generais, e entre estes o que morrera
frigido em caldeirão de não sei que terra da
mourisma, glória, na verdade, um pouco
ardente, mas de tal monta que os
descendentes do general frito se assinaram
Caldeirões.
A dama do paço não foi ditosa com o marido.
Molestavam-na saudades da corte, das pompas
das câmaras reais, e dos amores de sua
feição e molde, que imolou ao capricho da
rainha. Este desgostoso viver, porém, não
empeceu que se reproduzissem em dois filhos
e três meninas. O mais velho era Manuel, o
segundo Simão; das meninas, uma era Maria, a
segunda Ana e a última tinha o nome de sua
mãe e alguns traços da beleza dela.
(Amor de Perdição, cap.I)
MANUEL
BOTELHO
Identificado, na “Conclusão” de Amor de Perdição
como pai do autor da novela, é filho primogénito de D.
Rita Preciosa e de Domingos Botelho. Em 1801 tem vinte e
dois anos e frequenta o segundo ano jurídico em Coimbra.
Nunca se deu bem e nunca estimou o irmão, razão por que
faz amiúde queixas de Simão ao pai, afirmando que ele
convive com os mais famosos perturbadores da academia, e
corre de noite as ruas insultando os habitantes e
provocando-os à luta com assuadas.
Chegou a ser cadete de cavalaria em Bragança, mas um
desgraçado amor a uma dama açoriana casada com um
estudante de medicina, em Coimbra, leva-o a fugir com
ela para Lisboa e daí para Espanha, onde vive uns meses
do dinheiro que sua mãe lhe envia. Esgotados estes
recursos, regressa a Vila Real com a infeliz senhora.
Seu pai, informado da presença da açoriana, faz lavrar
ordem de prisão para o cadete desertor de cavalaria de
Bragança e recambia a jovem para a sua ilha natal.
Faleceu em 1835.
Funciona na obra como contraste com Simão, não pela
maldade, mas pela mediocridade. Manuel representa a
mediania, a marginalidade tolerada. Ama, mas não até ao
ponto de morrer: resigna-se perante a separação. Por
medo, mente e aceita compromissos. Não poderia ser um
herói de uma novela romântica, porque lhe falta o
excesso, que caracteriza, por exemplo, Simão.
Manuel, o mais velho de seus filhos, tem
vinte e dois anos, e frequenta o segundo ano
jurídico. Simão, que tem quinze, estuda
humanidades em Coimbra. As três meninas são
o prazer e a vida toda do coração de sua
mãe.
O filho mais velho escreveu a seu pai
queixando-se de não poder viver com seu
irmão, temeroso do génio sanguinário dele.
Conta que a cada passo se vê ameaçado na
vida, porque Simão emprega em pistolas o
dinheiro dos livros, convive com os mais
famosos perturbadores da academia, e corre
de noite as ruas insultando os habitantes e
provocando-os à luta com assuadas. O
corregedor admira a bravura de seu filho
Simão, e diz à consternada mãe que o rapaz é
a figura e o génio de seu bisavô Paulo
Botelho Correia, o mais valente fidalgo que
dera Trás-os-Montes.
Manuel, cada vez mais aterrado das
arremetidas de Simão, sai de Coimbra antes
de férias e vai a Viseu queixar-se, e pedir
que lhe dê seu pai outro destino. D. Rita
quer que seu filho seja cadete de cavalaria.
De Viseu parte para Bragança Manuel Botelho,
e justifica-se nobre dos quatro costados
para ser cadete.
No entanto, Simão recolhe a Viseu com os
seus exames feitos e aprovados. O pai
maravilha-se do talento do filho, e
desculpa-o da extravagância por amor do
talento. Pede-lhe explicações do seu mau
viver com Manuel, e ele responde que seu
irmão o quer forçar a viver monasticamente.
(Amor de Perdição, cap. I)
RITA
Rita
Emília da Veiga Castelo Branco era a irmã mais nova e a
predilecta de Simão. Para além do mesmo nome, tinha
alguns traços da beleza de sua mãe. Com onze anos de
idade, em 1801, era com ela que Simão brincava e só a
ela obedecia. Algumas vezes falou, das janelas de sua
casa, com Teresa, que, sabendo-a a mais querida irmã de
Simão, da janela da casa fronteira, contou a Rita o
segredo do seu amor. Quando Simão é preso, Ritinha quer
ir visitá-lo à cadeia e é por isso espancada pelo pai.
Em
1860, terá escrito ao autor da novela uma carta em que
narra os acontecimentos de há cinquenta e sete anos e
onde se torna evidente o carinho que ela nutria pelo
mano Simão.
Os quinze anos de Simão têm aparências de
vinte. É forte de compleição; belo homem com
as feições de sua mãe, e a corpulência dela;
mas de todo avesso em génio. Na plebe de
Viseu é que ele escolhe amigo e
companheiros. Se D. Rita lhe censura a
indigna eleição que faz, Simão zomba das
genealogias, e mormente do general
Caldeirão, que morreu frito. Isto bastou
para ele granjear a malquerença de sua mãe.
O corregedor via as coisas pelos olhos de
sua mulher, e tomou parte no desgosto dela e
na aversão ao filho. As irmãs temiam-no,
tirante Rita, a mais nova, com quem ele
brincava puerilmente, e a quem obedecia, se
ela lhe pedia, com meiguices de criança, que
não andasse com pessoas mecânicas.
(Amor de Perdição, cap.I)
IRMÃS DE
BALTASAR COUTINHO
Eram
três as irmãs de Baltasar Coutinho.
Sobrinhas de Tadeu de Albuquerque, estão presentes
aquando da partida de Teresa para o Mosteiro de Viseu.
Uma delas tenta mesmo persuadir a jovem a remediar a
desgraça, acedendo a casar com Baltasar, o que Teresa
recusa liminarmente.
Estão também presentes no momento em que Teresa
deixa este mosteiro e se prepara para partir
para o Convento de Monchique no Porto. Por isso,
assistem à morte do irmão, tentando em vão
interpor-se entre este e Simão.
Morte de Baltasar Coutinho. Imagem do filme
Amor de Perdição, de Manuel de Oliveira
Uma das primas, irmãs de Baltasar, chamou-a
de parte, e segredou-lhe:
– Ó menina, estava ainda na tua mão dares
remédio à desordem desta casa...
– Qual remédio?! - perguntou Teresa com
artificial seriedade.
– Diz a teu pai que não duvidas casar com o
mano Baltasar.
– O primo Baltasar não me quer - replicou
ela, sorrindo.
– Quem te disse isso, Teresinha?
– Disse-mo o meu pai.
– Deixa falar teu pai, que está desatinado
com o amorque te tem. Queres tu que eu lhe
fale?
– Para quê?
– Para se remediar deste modo a desgraça de
todos nós.
– Estás a brincar, prima! – redarguiu
Teresa. – Eu hei-de ser tua cunhada quando
não tiver coração. Teu mano tem a certeza de
que eu amo outro homem.
(Amor de Perdição, cap. VIII)
MENDIGA
É uma
velha mendiga de Viseu que assegura a correspondência
entre Teresa e Simão. Apesar das perseguições de que é
vítima, mostra-se sempre muito devotada e fiel.
Teresa, num ímpeto de angústia, quando tal
soube, correu a uma janela, e chamou a
pobre, que se retirava assustada e
lançou-lhe ao pátio um bilhete com estas
palavras: «É impossível a nossa
correspondência. Vou ser tirada daqui para
outro convento. Espera em Coimbra notícias
minhas.» Isto foi rapidamente ao
conhecimento da prioresa, e, logo, às ordens
dela, partiu o hortelão no encalço da pobre.
O hortelão seguiu-a até fora das portas,
espancou-a, tirou-lhe o bilhete, e foi ao
convento apresentá-lo a Tadeu de
Albuquerque. A mendiga não retrocedeu;
caminhou a casa do ferrador e contou a Simão
o acontecido.
(Amor de Perdição, cap. IX)
A PRELADA
DE MONCHIQUE
Abadessa do Convento de Monchique, no Porto, era próxima
parenta de Tadeu de Albuquerque, razão por que o velho
fidalgo escolheu esse convento para internar Teresa.
Mulher de bom coração, ficou feliz ao receber a filha do
seu parente e mesmo quando foi informada do assassínio
de Baltasar e da prisão de Simão, ainda assim a
religiosa tratou Teresa com brandura, compadecendo-se
com a narração dos acontecimentos e com a leitura das
cartas de Simão.
Mais tarde, autoriza Teresa, já muito doente, a
escrever a Simão e consente que uma freira do
convento faculte a entrega dessa carta. Permite
também que João da Cruz entregue à jovem uma
carta de Simão. Por fim, enfrenta Tadeu de
Albuquerque, quando este, sabedor de que Simão
foi transferido para o Porto e de que se prevê a
comutação da sua condenação à morte, decide
retirar Teresa do convento e levá-la consigo
para Viseu: Estas portas não se abrem assim, meu
primo, sem licença superior. A regra do mosteiro
não pode ser quebrada para servir uma paixão
desordenada.
Virtuosa, foi amiga e confidente de Teresa durante os
dois anos e nove meses que esta passou no convento.
Serve como contraponto à imoralidade das religiosas do
convento de Viseu.
(…) Ouviu a prelada da boca de sua sobrinha
a fiel história dos acontecimentos, e viu
uma a uma as cartas de Simão Botelho.
Choraram abraçadas; mas a prelada, enxugadas
as lágrimasde mulher ao fogo da austeridade
religiosa, falou e aconselhou como freira, e
freira que ciliciava o corpo com as rosetas,
e o coração com as privações tormentosas de
quarenta anos.
(…) Quis Teresa escrever.
– A quem, minha filha? – perguntou a
prelada.
Teresa não respondeu.
– Escrever-lhe para quê ? – tornou a
religiosa. – Cuidas tu, menina, que as tuas
cartas lhe chegam à mão? Que vais tu fazer
senão redobrar a ira de teu pai contra ti e
contra o infeliz preso ? Se o amas, como
creio, apesar de tudo, cuida em salvá-lo.
(…) De mês a mês recebia a abadessa de
Monchique uma carta de seu primo. Eram estas
cartas um respiradouro de vingança! Em todas
dizia o velho que o assassino iria ao
patíbulo irremediavelmente. A sobrinha não
via as cartas; mas reparava nas lágrimas da
compassiva freira.
(Amor de Perdição, cap. XIII)
RELIGIOSAS DO CONVENTO DE MONCHIQUE
Freiras do Convento de Monchique, no Porto. Eram
religiosas exemplares e rodearam Teresa de bondade e de
carinho, rezando sem desfalecimentos em sua intenção.
Uma das Religiosas, que tinha uma amiga freira no
Convento dos Remédios de Lamego, consegue, por
intermédio dela, fazer chegar a Simão uma carta de
Teresa e propicia ainda que a jovem receba a respectiva
resposta.
Quantas carícias inventou a simpatia e a
piedade, todas, por ministério das
religiosas exemplares de Monchique,
aporfiaram em refrigerar o ardor que
consumia rapidamente a reclusa. Inútil tudo.
Teresa reconhecia com lágrimas a compaixão,
e, ao mesmo tempo, alegrava-se tirando das
carícias a certeza de que os médicos a
julgavam incurável.
Alguma freira inadvertida lhe disse um dia
que uma sua amiga do convento dos Remédios
de Lamego lhe dissera que Simão tinha sido
condenado à morte.
Teresa estremeceu, e murmurou, sem forças já
para a exclamação:
– E eu vivo ainda!
Depois orou, e chorou; mas os costumes da
sua vida em paroxismos continuaram
inalteráveis.
Perguntou à senhora que lhe dera a notícia
se a sua amiga do convento dos Remédios lhe
faria a esmola de fazer chegar às mãos de
Simão uma carta. Prontificou-se a freira,
depois que ouviu o parecer da prelada.
Entendeu esta religiosa que o derradeiro
colóquio entre dois moribundos não podia
danificá-los na vida temporal, nem na vida
eterna.
(Amor de Perdição, cap.XIII)
A
PRIORESCA DO MOSTEIRO DE VISEU
Prelada do Mosteiro de Dominicanas, em Viseu, onde
Teresa passa algumas semanas de reclusão. Freira há
cinquenta e cinco anos, a sua conduta hipócrita e
depravada não revela qualquer devoção. Ao referir-se às
outras religiosas apelida-as de doidivanas. Estas, por
seu lado, dizem dela que o vinho não o bebe, suga-o; é
uma esponja viva. Não exerce autoridade, não dá exemplo,
nem merece estima. Por isso, no mosteiro que dirige
reina a corrupção generalizada.
Pouco depois, entrou a prelada com a ceia, e
saíram as duas freiras.
– Que lhe pareceram as duas religiosas que
ficaram com a menina? – disse ela a Teresa.
– Pareceram-me muito bem.
A velha distendeu os beiços matizados de
meandros de esturrinho líquido, e regougou:
– Hum!.... Está feito, está feito!... Ainda
não são das piores; mas, se fossem melhores,
não se perdia nada... Ora vamos a isto,
menina; aqui tem duas pernas de galinha e um
caldo que o podem comer os anjos.
– Eu não como nada, minha senhora – disse
Teresa.
– Ora essa! Não come nada?! Há-de comer; sem
comer ninguém resiste. Paixões... que as
leve o porco-sujo!... As mulheres é que
ficam logradas, e eles não têm que
perder!... Que eu, cá de mim, até ao
presente, Deus louvado, não sei o que sejam
paixões; mas quem tem cinquenta e cinco anos
de convento tem muita experiência do que vê
penar às outras doidivanas. E, para mão ir
mais longe, estas duas que daqui saíram têm
pagado bem o seu tributo à asneira. Deus me
perdoe se peco. A organista tem já os seus
quarenta bons e ainda vai ao locutório
derreter-se em finezas; a outra, apesar de
ser mestra de noviças à falta doutra que
quisesse sê-lo, se eu lhe não andasse com o
olho em cima, estragava-me as raparigas.