Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
Camilo Castelo Branco

AMOR DE PERDIÇÃO

 

PERSONAGENS - OS "NÃO-HERÓIS"

 

D. RITA PRECIOSA

D. Rita Teresa Margarida Preciosa da Veiga Caldeirão Castelo Branco era a mãe de Simão Botelho.

Antiga dama de D. Maria I, muito formosa, veio a casar-se com Domingos Botelho, com quem não foi feliz. Aliás, demorou dez anos a deixar-se persuadir a um casamento que não desejava. Em 1801, infeliz com o marido e saudosa da corte, com os dois filhos a estudar em Coimbra, as três meninas são o prazer e a vida toda do coração de sua mãe.

 

É uma personagem ambiguamente caracterizada. É extremamente dotada, sendo com ela que Simão se parece. No entanto, em relação a este filho, ela funciona como ausência - está sempre ausente nas ocasiões mais críticas do filho. Nota-se-lhe até uma certa aversão, talvez devido à sua índole insubmissa. Apesar de tudo, irritada, mas irritada como mãe procura ajudar Simão, a ocultas do marido, e persuadir o corregedor a uma atitude mais flexível e cai doente, quando sabe que o filho foi condenado à forca. Para com Manuel, foi sempre uma mãe extremosa, chegando ao ponto de vender a pouco e pouco as suas jóias para o ajudar.

 

Domingos Botelho casou com D. Rita Preciosa. Rita era uma formosura, que ainda aos cinquenta anos se podia prezar de o ser. E não tinha outro dote, se não é dote uma série de avoengos, uns bispos, outros generais, e entre estes o que morrera frigido em caldeirão de não sei que terra da mourisma, glória, na verdade, um pouco ardente, mas de tal monta que os descendentes do general frito se assinaram Caldeirões.

A dama do paço não foi ditosa com o marido. Molestavam-na saudades da corte, das pompas das câmaras reais, e dos amores de sua feição e molde, que imolou ao capricho da rainha. Este desgostoso viver, porém, não empeceu que se reproduzissem em dois filhos e três meninas. O mais velho era Manuel, o segundo Simão; das meninas, uma era Maria, a segunda Ana e a última tinha o nome de sua mãe e alguns traços da beleza dela.
 

(Amor de Perdição, cap.I)

 

MANUEL BOTELHO

Identificado, na “Conclusão” de Amor de Perdição como pai do autor da novela, é filho primogénito de D. Rita Preciosa e de Domingos Botelho. Em 1801 tem vinte e dois anos e frequenta o segundo ano jurídico em Coimbra. Nunca se deu bem e nunca estimou o irmão, razão por que faz amiúde queixas de Simão ao pai, afirmando que ele convive com os mais famosos perturbadores da academia, e corre de noite as ruas insultando os habitantes e provocando-os à luta com assuadas.

Chegou a ser cadete de cavalaria em Bragança, mas um desgraçado amor a uma dama açoriana casada com um estudante de medicina, em Coimbra, leva-o a fugir com ela para Lisboa e daí para Espanha, onde vive uns meses do dinheiro que sua mãe lhe envia. Esgotados estes recursos, regressa a Vila Real com a infeliz senhora. Seu pai, informado da presença da açoriana, faz lavrar ordem de prisão para o cadete desertor de cavalaria de Bragança e recambia a jovem para a sua ilha natal.

Faleceu em 1835.

Funciona na obra como contraste com Simão, não pela maldade, mas pela mediocridade. Manuel representa a mediania, a marginalidade tolerada. Ama, mas não até ao ponto de morrer: resigna-se perante a separação. Por medo, mente e aceita compromissos. Não poderia ser um herói de uma novela romântica, porque lhe falta o excesso, que caracteriza, por exemplo, Simão.
 

Manuel, o mais velho de seus filhos, tem vinte e dois anos, e frequenta o segundo ano jurídico. Simão, que tem quinze, estuda humanidades em Coimbra. As três meninas são o prazer e a vida toda do coração de sua mãe.
O filho mais velho escreveu a seu pai queixando-se de não poder viver com seu irmão, temeroso do génio sanguinário dele. Conta que a cada passo se vê ameaçado na vida, porque Simão emprega em pistolas o dinheiro dos livros, convive com os mais famosos perturbadores da academia, e corre de noite as ruas insultando os habitantes e provocando-os à luta com assuadas. O corregedor admira a bravura de seu filho Simão, e diz à consternada mãe que o rapaz é a figura e o génio de seu bisavô Paulo Botelho Correia, o mais valente fidalgo que dera Trás-os-Montes.

Manuel, cada vez mais aterrado das arremetidas de Simão, sai de Coimbra antes de férias e vai a Viseu queixar-se, e pedir que lhe dê seu pai outro destino. D. Rita quer que seu filho seja cadete de cavalaria. De Viseu parte para Bragança Manuel Botelho, e justifica-se nobre dos quatro costados para ser cadete.

No entanto, Simão recolhe a Viseu com os seus exames feitos e aprovados. O pai maravilha-se do talento do filho, e desculpa-o da extravagância por amor do talento. Pede-lhe explicações do seu mau viver com Manuel, e ele responde que seu irmão o quer forçar a viver monasticamente.

(Amor de Perdição, cap. I)

 

RITA

 

Rita Emília da Veiga Castelo Branco era a irmã mais nova e a predilecta de Simão. Para além do mesmo nome, tinha alguns traços da beleza de sua mãe. Com onze anos de idade, em 1801, era com ela que Simão brincava e só a ela obedecia. Algumas vezes falou, das janelas de sua casa, com Teresa, que, sabendo-a a mais querida irmã de Simão, da janela da casa fronteira, contou a Rita o segredo do seu amor. Quando Simão é preso, Ritinha quer ir visitá-lo à cadeia e é por isso espancada pelo pai.

Em 1860, terá escrito ao autor da novela uma carta em que narra os acontecimentos de há cinquenta e sete anos e onde se torna evidente o carinho que ela nutria pelo mano Simão.
 

Os quinze anos de Simão têm aparências de vinte. É forte de compleição; belo homem com as feições de sua mãe, e a corpulência dela; mas de todo avesso em génio. Na plebe de Viseu é que ele escolhe amigo e companheiros. Se D. Rita lhe censura a indigna eleição que faz, Simão zomba das genealogias, e mormente do general Caldeirão, que morreu frito. Isto bastou para ele granjear a malquerença de sua mãe. O corregedor via as coisas pelos olhos de sua mulher, e tomou parte no desgosto dela e na aversão ao filho. As irmãs temiam-no, tirante Rita, a mais nova, com quem ele brincava puerilmente, e a quem obedecia, se ela lhe pedia, com meiguices de criança, que não andasse com pessoas mecânicas.

 

(Amor de Perdição, cap.I)

 

IRMÃS DE BALTASAR COUTINHO

 

Eram três as irmãs de Baltasar Coutinho.

Sobrinhas de Tadeu de Albuquerque, estão presentes aquando da partida de Teresa para o Mosteiro de Viseu. Uma delas tenta mesmo persuadir a jovem a remediar a desgraça, acedendo a casar com Baltasar, o que Teresa recusa liminarmente.

 

Estão também presentes no momento em que Teresa deixa este mosteiro e se prepara para partir para o Convento de Monchique no Porto. Por isso, assistem à morte do irmão, tentando em vão interpor-se entre este e Simão.

 

 

Morte de Baltasar Coutinho. Imagem do filme Amor de Perdição, de Manuel de Oliveira

 

 

 

Uma das primas, irmãs de Baltasar, chamou-a de parte, e segredou-lhe:

– Ó menina, estava ainda na tua mão dares remédio à desordem desta casa...

– Qual remédio?! - perguntou Teresa com artificial seriedade.

– Diz a teu pai que não duvidas casar com o mano Baltasar.

– O primo Baltasar não me quer - replicou ela, sorrindo.

– Quem te disse isso, Teresinha?

– Disse-mo o meu pai.

– Deixa falar teu pai, que está desatinado com o amorque te tem. Queres tu que eu lhe fale?

– Para quê?

– Para se remediar deste modo a desgraça de todos nós.

– Estás a brincar, prima! – redarguiu Teresa. – Eu hei-de ser tua cunhada quando não tiver coração. Teu mano tem a certeza de que eu amo outro homem.

(Amor de Perdição, cap. VIII)


MENDIGA

 

É uma velha mendiga de Viseu que assegura a correspondência entre Teresa e Simão. Apesar das perseguições de que é vítima, mostra-se sempre muito devotada e fiel.
 

Teresa, num ímpeto de angústia, quando tal soube, correu a uma janela, e chamou a pobre, que se retirava assustada e lançou-lhe ao pátio um bilhete com estas palavras: «É impossível a nossa correspondência. Vou ser tirada daqui para outro convento. Espera em Coimbra notícias minhas.» Isto foi rapidamente ao conhecimento da prioresa, e, logo, às ordens dela, partiu o hortelão no encalço da pobre. O hortelão seguiu-a até fora das portas, espancou-a, tirou-lhe o bilhete, e foi ao convento apresentá-lo a Tadeu de Albuquerque. A mendiga não retrocedeu; caminhou a casa do ferrador e contou a Simão o acontecido.
 

(Amor de Perdição, cap. IX)


A PRELADA DE MONCHIQUE

 

Abadessa do Convento de Monchique, no Porto, era próxima parenta de Tadeu de Albuquerque, razão por que o velho fidalgo escolheu esse convento para internar Teresa. Mulher de bom coração, ficou feliz ao receber a filha do seu parente e mesmo quando foi informada do assassínio de Baltasar e da prisão de Simão, ainda assim a religiosa tratou Teresa com brandura, compadecendo-se com a narração dos acontecimentos e com a leitura das cartas de Simão.

 

Mais tarde, autoriza Teresa, já muito doente, a escrever a Simão e consente que uma freira do convento faculte a entrega dessa carta. Permite também que João da Cruz entregue à jovem uma carta de Simão. Por fim, enfrenta Tadeu de Albuquerque, quando este, sabedor de que Simão foi transferido para o Porto e de que se prevê a comutação da sua condenação à morte, decide retirar Teresa do convento e levá-la consigo para Viseu: Estas portas não se abrem assim, meu primo, sem licença superior. A regra do mosteiro não pode ser quebrada para servir uma paixão desordenada.

Virtuosa, foi amiga e confidente de Teresa durante os dois anos e nove meses que esta passou no convento. Serve como contraponto à imoralidade das religiosas do convento de Viseu.
 

(…) Ouviu a prelada da boca de sua sobrinha a fiel história dos acontecimentos, e viu uma a uma as cartas de Simão Botelho. Choraram abraçadas; mas a prelada, enxugadas as lágrimasde mulher ao fogo da austeridade religiosa, falou e aconselhou como freira, e freira que ciliciava o corpo com as rosetas, e o coração com as privações tormentosas de quarenta anos.

(…) Quis Teresa escrever.

– A quem, minha filha? – perguntou a prelada.

Teresa não respondeu.

– Escrever-lhe para quê ? – tornou a religiosa. – Cuidas tu, menina, que as tuas cartas lhe chegam à mão? Que vais tu fazer senão redobrar a ira de teu pai contra ti e contra o infeliz preso ? Se o amas, como creio, apesar de tudo, cuida em salvá-lo.

(…) De mês a mês recebia a abadessa de Monchique uma carta de seu primo. Eram estas cartas um respiradouro de vingança! Em todas dizia o velho que o assassino iria ao patíbulo irremediavelmente. A sobrinha não via as cartas; mas reparava nas lágrimas da compassiva freira.

(Amor de Perdição, cap. XIII)


RELIGIOSAS DO CONVENTO DE MONCHIQUE

 

Freiras do Convento de Monchique, no Porto. Eram religiosas exemplares e rodearam Teresa de bondade e de carinho, rezando sem desfalecimentos em sua intenção. Uma das Religiosas, que tinha uma amiga freira no Convento dos Remédios de Lamego, consegue, por intermédio dela, fazer chegar a Simão uma carta de Teresa e propicia ainda que a jovem receba a respectiva resposta.
 

Quantas carícias inventou a simpatia e a piedade, todas, por ministério das religiosas exemplares de Monchique, aporfiaram em refrigerar o ardor que consumia rapidamente a reclusa. Inútil tudo. Teresa reconhecia com lágrimas a compaixão, e, ao mesmo tempo, alegrava-se tirando das carícias a certeza de que os médicos a julgavam incurável.

Alguma freira inadvertida lhe disse um dia que uma sua amiga do convento dos Remédios de Lamego lhe dissera que Simão tinha sido condenado à morte.

Teresa estremeceu, e murmurou, sem forças já para a exclamação:

– E eu vivo ainda!

Depois orou, e chorou; mas os costumes da sua vida em paroxismos continuaram inalteráveis.

Perguntou à senhora que lhe dera a notícia se a sua amiga do convento dos Remédios lhe faria a esmola de fazer chegar às mãos de Simão uma carta. Prontificou-se a freira, depois que ouviu o parecer da prelada. Entendeu esta religiosa que o derradeiro colóquio entre dois moribundos não podia danificá-los na vida temporal, nem na vida eterna.
 

(Amor de Perdição, cap.XIII)


A PRIORESCA DO MOSTEIRO DE VISEU

 

Prelada do Mosteiro de Dominicanas, em Viseu, onde Teresa passa algumas semanas de reclusão. Freira há cinquenta e cinco anos, a sua conduta hipócrita e depravada não revela qualquer devoção. Ao referir-se às outras religiosas apelida-as de doidivanas. Estas, por seu lado, dizem dela que o vinho não o bebe, suga-o; é uma esponja viva. Não exerce autoridade, não dá exemplo, nem merece estima. Por isso, no mosteiro que dirige reina a corrupção generalizada.
 

Pouco depois, entrou a prelada com a ceia, e saíram as duas freiras.

– Que lhe pareceram as duas religiosas que ficaram com a menina? – disse ela a Teresa.

– Pareceram-me muito bem.

A velha distendeu os beiços matizados de meandros de esturrinho líquido, e regougou:

– Hum!.... Está feito, está feito!... Ainda não são das piores; mas, se fossem melhores, não se perdia nada... Ora vamos a isto, menina; aqui tem duas pernas de galinha e um caldo que o podem comer os anjos.

– Eu não como nada, minha senhora – disse Teresa.

– Ora essa! Não come nada?! Há-de comer; sem comer ninguém resiste. Paixões... que as leve o porco-sujo!... As mulheres é que ficam logradas, e eles não têm que perder!... Que eu, cá de mim, até ao presente, Deus louvado, não sei o que sejam paixões; mas quem tem cinquenta e cinco anos de convento tem muita experiência do que vê penar às outras doidivanas. E, para mão ir mais longe, estas duas que daqui saíram têm pagado bem o seu tributo à asneira. Deus me perdoe se peco. A organista tem já os seus quarenta bons e ainda vai ao locutório derreter-se em finezas; a outra, apesar de ser mestra de noviças à falta doutra que quisesse sê-lo, se eu lhe não andasse com o olho em cima, estragava-me as raparigas.

(Amor de Perdição, cap.VII)


 

Voltar

Início da página

 

© Joaquim Matias 2008

 

 

 

 Páginas visitadas