TEMPO DA HISTÓRIA,
TEMPO DO DISCURSO E TEMPO PSICOLÓGICO
A acção da novela começa em 1779 (página 42),
retrocedendo depois para uma época anterior a 1758
(página 1758), através de uma analepse, que serve para
explicar os antecedentes familiares de Simão Botelho.
Nesta parte introdutória, o ritmo é rápido, pois tudo
ocorre muito depressa. Na verdade, em cerca de 16
páginas narra-se o que aconteceu em mais ou menos 40
anos (de 1758 a 1801).
Na novela propriamente dita, os factos decorrem mais
devagar. Por vezes os acontecimentos sucedem-se de tal
forma que se perde a noção da passagem do tempo (tempo
psicológico). Em duzentas páginas narra-se o que
aconteceu em apenas 6 anos.
Não há, portanto, proporcionalidade entre o tempo da
história (aquele que respeita ao tempo cronológico, à
sucessão dos anos, meses, dias, semanas, horas...; no
fundo, aquele que é marcado pelos ponteiros do relógio)
e o do discurso (aquele que resulta do tratamento dado
ao tempo da história pelo narrador/autor, que pode
alongar determinados períodos temporais, reduzi-los mais
ou menos drasticamente, ou simplesmente omiti-los).
Há referências temporais que merecem uma menção
especial:
1758
(Cap. I, página 44), quando se menciona a
tentativa regicida, na qual, presumivelmente teria
estado envolvido o avô de Simão, Fernão Botelho;
1767
(Cap. I, página 44), ano em que se dá a formatura
de Domingos Botelho, pai de Simão;
1779
(Cap. I, página 42), data em que Domingos José Correia
Botelho de Mesquita se casa com uma dama do Paço, D.
Rita Teresa Margarida Preciosa da Veiga Caldeirão
Castelo Branco;
1784
(Cap. I, página 45), ano em que nasce Simão Botelho, o
penúltimo de cinco irmãos do casal supracitado (dois do
sexo masculino, Manuel e Simão; e três do sexo feminino,
Maria, Ana e Rita);
1801
(Cap. II, página 49), data que corresponde ao
início da acção;
1803
(Cap. II, página 59) - em Fevereiro, Teresa envia
uma carta para Coimbra, a informar Simão de que recusara
casar com Baltasar Coutinho e que, em consequência, iria
ser encerrada num convento.
1805
(Cap. XVIII, página 2003) - durante cinco meses,
de 13 de Março a 4 de Agosto, Simão Botelho esteve
encarcerado na cadeia da Relação do Porto;
1807
(Introdução, página 38) - em 17 de Março, Simão Botelho
vai para a Índia, depois de ter visto a sua condenação à
forca ser comutada em dez anos de degredo e já depois de
ter recusado a graça do Príncipe Regente (no seguimento
de diligências feitas por Domingos Botelho, relembre-se,
"instigado mais do seu
capricho que do amor paternal" - página 204) de
cumprir o condenado a sua sentença na prisão de Vila
Real.
Esta datação rigorosa está em consonância com o carácter
documental da narrativa - recorde-se que Amor de
Perdição tem como subtítulo "Memórias de
uma Família".
TEMPO
DIEGÉTICO
Este tempo, que diz respeito à intriga (diegese)
propriamente dita, é relativamente curto - cerca de seis
anos, como ficou atrás dito, mais concretamente, de 1801
a 1807.
TEMPO
HISTÓRICO
O tempo histórico da acção prolonga-se desde a
segunda metade do século XVIII até aos inícios do século
XIX.
TEMPO DA
ESCRITA
A fazer fé nas palavras do próprio Camilo, Amor de
Perdição terá sido escrito em 15 dias, quando
ele esteve preso na cadeia da Relação do Porto.
Obs: as
páginas indicadas referem-se à obra de Camilo, Amor
de Perdição (Memórias de uma família), com
realização didática de Luiz Amaro Joaquim de Oliveira,
Porto Editora, 6.ª ed., 1980.