Camilo Castelo Branco
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Camilo Castelo Branco

 

 

CAMILO CASTELO BRANCO - CONTEXTUALIZAÇÃO

 

(Página ainda em construção)

 

A segunda geração romântica coincide com o período da Regeneração, que teve início com Saldanha, em 1851.

A pequena e média burguesia são as classes particularmente beneficiadas com o desenvolvimento a que se assiste no país (fomenta-se a agricultura, investe-se na indústria e abrem-se estradas e caminhos-de-ferro).

Surgem as ideologias socialistas e republicanas e a classe operária adquire alguma expressão; contudo, na obra de Camilo Castelo Branco aparece ainda a ideia dos valores feudais, circunscritos sobretudo à região de Entre Douro e Alto Minho. Aliás, nas obras do autor perpassa a crítica aos preconceitos que se associam ao tipo de organização sociopolítica feudal. De facto, a produção literária camiliana caracteriza-se por dois factores temáticos e estruturais fundamentais: por um lado, sobressai a herança do primeiro Romantismo, representado sobretudo por Almeida Garrett e Alexandre Herculano, que se traduz nos temas do amor irrealizável, da morte e pelo gosto pela Idade Média, entre outros, enfatizado pela retórica ultra-romântica (considera-se que a geração ultra-romântica é aquela que se situa entre 1838 e 1865, data em que se iniciou a célebre "Questão Coimbrã"), que privilegia o tom declamatório (que, por sua vez, revela a influência barroca) e o melodramatismo; por outro lado, Camilo, ainda que o conteste, apresenta já marcas que o aproximam da estética realista, que surgiria após o ano de 1865 e que seria definida por Eça de Queirós, na quarta Conferência do Casino, em 1871, posteriormente à "Questão Coimbrã", que opôs os jovens inovadores de Coimbra a Castilho. Veja-se, porém, o que o autor escreve no Prefácio da quinta edição do Amor de Perdição, datado de 1879, a propósito do Realismo:

 

"Se comparo o Amor de Perdição, cuja 5.ª edição me parece um êxito fenomenal e extralusítano, com o Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio, confesso, voluntariamente resignado, que para o esplendor destes dois livros foi preciso que a Arte se ataviasse dos primores lavrados no transcurso de dezasseis anos. O Amor de Perdição, visto à luz eléctrica do criticismo moderno, é um romance romântico, declamatório, com bastantes aleijões líricos, e umas ideias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo. Eu não cessarei de dizer mal desta novela, que tem a boçal inocência de não devassar alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas salas, na presença de suas filhas ou de suas mães, e não precisem de esconder-se com o livro no seu quarto de banho. (...)"

 

Se é verdade que, pela predominância temática da absolutização do amor, que conduz à tragédia e ao martírio, numa exaltação passional que determina o próprio ritmo narrativo, Camilo Castelo Branco pertence incontestavelmente à segunda geração romântica, não menos verdade é que, a partir de 1850, a sua produção novelística traduz a absorção do ensinamento de Balzac, ao esboçar um retrato da sua época. Coexistem, com efeito, na novela camiliana, a partir de então, não apenas a intensidade amorosa e dramática, mas também a sátira de costumes (desde a crítica à sociedade burguesa aos preconceitos inflexíveis de estratos sociais caducos e fossilizados até à crítica à vida religiosa), proposta pela geração realista (e que o autor nega), ou seja, Camilo concilia dois vectores estruturantes da sua intriga novelesca: o idealismo, ligado à temática passional; e a vertente social, que constitui um espaço que serve de pretexto à crítica e funciona como mola construtora da ideologia subjacente às suas obras.

 

Não se deve esquecer, ainda, que para o autor de Amor de Perdição, a escrita era uma questão de sobrevivência, pois Camilo necessitava do dinheiro que ganhava com a publicação das suas obras. Este facto obrigava-o a veicular, nos seus livros, os valores religiosos, morais e estéticos do seu tempo. Entretanto, este factor determinaria, de igual modo, a opção por uma determinada tipologia: a novela, caracterizada pela celeridade narrativa e por uma extensão menor que a do romance (proposto pelos realistas).

 

O que é certo é que o público não estava educado para receber as chicotadas sociais que os homens da Geração de 70 se propuseram executar em relação ao panorama nacional. Basta atentar no facto de Amor de Perdição, composto por Camilo  "nos quinze dias mais atormentados da minha [sua] vida" (Prefácio da segunda edição),   ter sido publicado em 1862, obtendo,  de imediato, um êxito estrondoso .

 

 

 

Publicado por Joaquim Matias da Silva

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