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UM AUTO DE GIL VICENTE - Sequências dramáticas

 

(Página a construir)

 

 

No segundo acto, desenrolado nos Paços da Ribeira (num "grande salão no estilo de Belém: é gótico florido inclinando fortemente à renascença"), assiste-se aos preparativos da representação: Gil Vicente e Paula Vicente não gostam do ensaio de Joana do Taco, destacada para interpretar Taes. Bernardim aparece disfarçado e pede para falar com Gil Vicente, pedindo-lhe o papel da moura. Mediante a interferência de Paula, Gil acede. Inicia-se a apresentação da peça com a presença de D. Manuel I e dos altos dignitários da Corte, entre os quais Garcia de Resende. Quando Bernardim entra em cena, modifica as falas da moura, conferindo-lhes um grande lirismo. O Rei percebe que se trata de Bernardim e manda interromper a representação, retirando-se com enfado, sem se aperceber de que D. Beatriz tinha desmaiado.

 

 

Actos

SEQUÊNCIAS DRAMÁTICAS

II

 

- Paula Vicente  queixa-se pelo facto de a sua vida ser/parecer uma comédia. Com efeito, os seus momentos de glória como actriz e como coadjuvante do pai na composição de autos são efémeros: "Comédia, comédia! Tudo é representar e fingir nesta vida de corte. Que fosse para os grandes em quem é natureza [atente-se na crítica que faz aos poderosos, os quais vivem uma vida de ostentação, de fingimento], não lhes custa. Mas para os pequenos também... é suplício". No seguimento desta autocrítica, não poupa o próprio pai, acusando-o de viver um pouco de ilusões: "Sem o salvo-conduto de bobo e de chocarreiro, morria de fome o grande poeta".

Entrementes, Paula recebe um bilhete de Bernardim, voltando a reconhecer que o ama e a lamentar-se pelo facto de ter enjeitado os seus galanteios atrevidos e o seu cortejo: "Porque enjeitei seu galanteio atrevido, porque eu, Paula Vicente, a filha do comediante, do jogral, do chocarreiro - como lhe eles chamam ao maior poeta que ainda teve esta nação - porque eu, eu filha do pobre poeta, não quis aceitar o cortejo do poeta senhor e cavaleiro... - Cuida que o não amo, o louco! (Cena I)

 

- Ensaio geral das Cortes de Júpiter.

Gil Vicente queixa-se da actriz Joana do Taco, que não consegue decorar e recitar convenientemente as réplicas. Por sua vez, Joana do Taco confessa que não lhe agrada o papel que lhe foi destinado. Queria "coisa mais heróica e grande" (ambição de qualquer artista), o que leva Gil Vicente a dedicar-lhe uma série de impropérios: judia, mal-amanhada, excomungada, negregada, mal-entrouxada, "que um taco de Belzebu te carambole na alma!" - palavras e expressões que conferem comicidade à cena.

Enquanto isso, Paula relê o bilhete de Bernardim e pede ao pai para interromper o ensaio ("... que deixe essa pasmaceira") porque quer falar com ele. Gil Vicente sente-se angustiado, dado que tem medo que a representação do auto seja um fracasso.

Paula ordena a Pêro Safio que vá ao cais buscar Bernardim, estando ele vestido com uma capa caída e com chapéu de romeiro. (Cena II)

 

- Gil Vicente dialoga com a filha. Esta fala da sua relação de amizade e do  seu papel de confidente da infanta D. Beatriz e refere-se ao facto de ajudar o pai na composição de algumas peças. Gil Vicente enaltece-a como artista e como filha. (Cena III)

 

- Gil Vicente recebe Bernardim. Inicialmente, pensa que ele quer apenas que lhe arranje um lugar para assistir, ainda que de forma camuflada, ao auto, mas depois de uma troca de elogios entre dois homens de letras (que não da mesma classe social...) Bernardim diz ao que vem: quer fazer o papel de moura encantada (Taes ou Tais). A insistência da filha, Gil Vicente acede a esse pedido. Fá-lo, aliás, com um certo alívio porque não estava a confiar muito em Joana do Taco.  (Cena IV)

 

- Recomeça o ensaio.

Bernardim dirige alguns galanteios a Paula, o que a deixa ainda mais amargurada, pois ela ama-o, mas não vê o seu amor a ser correspondido - Bernardim vê nela mais uma irmã do que uma mulher a conquistar, embora reconheça que ela seria merecedora do seu amor... se não houvesse a outra... a Beatriz!... (Bernardim: "Sempre bela e discreta!"; "Porque não havia eu de amar esta mulher!"; Paula [aparte]: Meu Deus! se este homem me amasse!").

Enquanto isso, Gil Vicente está tão absorto no seu papel de encenador que até se esquece que faz de Júpiter, na peça. (Cena V)

 

- Um pajem do rei traz um recado do mordomo-mor, que ordena que se dê início à representação do auto. (Cena VI)

 

- Bernardim, jogando com as palavras, considera Paula a sua Providência (na peça, ela faz exactamente o papel da Providência) e pede-lhe que fale sobre a cerimónia do casamento de Beatriz e do duque de Sabóia - "a fatal cerimónia" - e da reacção de Beatriz, pedido a que Paula se escusa. (Cena VII)

 

- Algumas trocas de palavras entre os actores, antes do início da representação. (Cena VIII)

 

- Bernardim reconhece que, agora, não tem cabeça para decorar o papel da moura, indício de que vai improvisar. (Cena IX)

 

- Representação do auto. Intervalo. Recomeço. (Cena X)

 

- Bernardim deturpa, efectivamente, as réplicas da moura encantada, recitando, antes, versos por si elaborados e que afloram a temática dos amores entre si e a infanta. Entrega, entretanto, a Beatriz o anel que ela lhe tinha oferecido no tempo em que estavam enamorados. A duquesa acaba por reconhecer Bernardim e troca com ele algumas palavras melodramáticas ("Desgraçado, não vês que me matas?"), para, de seguida, desfalecer.

As damas e os senhores da corte retiram-se, sem que a maioria, inclusive D. Manuel I, se aperceba do desfalecimento da princesa. (Cena XI)

 

- Beatriz recupera e pede a Paula para a acompanhar até aos seus aposentos. Chatel fica desconfiado face à situação presenciada. (Cena XII)

 

 

 

 

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

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