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Paula Vicente queixa-se pelo facto de a sua
vida ser/parecer uma comédia. Com efeito, os seus
momentos de glória como actriz e como
coadjuvante do pai na composição de autos são
efémeros: "Comédia, comédia! Tudo é
representar e fingir nesta vida de corte. Que
fosse para os grandes em quem é natureza
[atente-se na crítica que faz aos poderosos, os
quais vivem uma vida de ostentação, de
fingimento], não lhes custa. Mas para os
pequenos também... é suplício". No
seguimento desta autocrítica, não poupa o
próprio pai, acusando-o de viver um pouco de
ilusões: "Sem o salvo-conduto de bobo e de
chocarreiro, morria de fome o grande poeta".
Entrementes, Paula recebe um bilhete de
Bernardim, voltando a reconhecer que o ama e a
lamentar-se pelo facto de ter enjeitado os seus
galanteios atrevidos e o seu cortejo: "Porque
enjeitei seu galanteio atrevido, porque eu,
Paula Vicente, a filha do comediante, do jogral,
do chocarreiro - como lhe eles chamam ao maior
poeta que ainda teve esta nação - porque eu, eu
filha do pobre poeta, não quis aceitar o cortejo
do poeta senhor e cavaleiro... - Cuida que o não
amo, o louco!"
(Cena I)
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Ensaio geral das Cortes de Júpiter.
Gil
Vicente queixa-se da actriz Joana do Taco, que
não consegue decorar e recitar convenientemente
as réplicas. Por sua vez, Joana do Taco confessa
que não lhe agrada o papel que lhe foi
destinado. Queria "coisa mais heróica e grande"
(ambição de qualquer artista), o que leva Gil
Vicente a dedicar-lhe uma série de impropérios:
judia, mal-amanhada,
excomungada, negregada,
mal-entrouxada, "que um taco de Belzebu
te carambole na alma!" - palavras e
expressões que conferem comicidade à cena.
Enquanto isso, Paula relê o bilhete de Bernardim
e pede ao pai para interromper o ensaio ("...
que deixe essa pasmaceira") porque quer
falar com ele. Gil Vicente sente-se angustiado,
dado que tem medo que a representação do auto
seja um fracasso.
Paula
ordena a Pêro Safio que vá ao cais buscar
Bernardim, estando ele vestido com uma capa
caída e com chapéu de romeiro.
(Cena II)
- Gil
Vicente dialoga com a filha. Esta fala da sua
relação de amizade e do seu papel de
confidente da infanta D. Beatriz e refere-se ao
facto de ajudar o pai na composição de algumas
peças. Gil Vicente enaltece-a como artista e
como filha.
(Cena III)
- Gil
Vicente recebe Bernardim. Inicialmente, pensa
que ele quer apenas que lhe arranje um lugar
para assistir, ainda que de forma camuflada, ao
auto, mas depois de uma troca de elogios entre
dois homens de letras (que não da mesma classe
social...) Bernardim diz ao que vem: quer fazer
o papel de moura encantada (Taes ou Tais). A
insistência da filha, Gil Vicente acede a esse
pedido. Fá-lo, aliás, com um certo alívio
porque não estava a confiar muito em Joana do
Taco.
(Cena IV)
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Recomeça o ensaio.
Bernardim dirige alguns galanteios a Paula, o
que a deixa ainda mais amargurada, pois ela
ama-o, mas não vê o seu amor a ser correspondido
- Bernardim vê nela mais uma irmã do que uma
mulher a conquistar, embora reconheça que ela
seria merecedora do seu amor... se não houvesse
a outra... a Beatriz!... (Bernardim: "Sempre
bela e discreta!"; "Porque não havia eu
de amar esta mulher!"; Paula [aparte]:
Meu Deus! se este homem me amasse!").
Enquanto isso, Gil Vicente está tão absorto no
seu papel de encenador que até se esquece que
faz de Júpiter, na peça.
(Cena V)
- Um
pajem do rei traz um recado do mordomo-mor, que
ordena que se dê início à representação do auto.
(Cena VI)
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Bernardim, jogando com as palavras, considera
Paula a sua Providência (na peça, ela faz
exactamente o papel da Providência) e pede-lhe
que fale sobre a cerimónia do casamento de
Beatriz e do duque de Sabóia - "a fatal
cerimónia" - e da reacção de Beatriz, pedido a
que Paula se escusa.
(Cena VII)
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Algumas trocas de palavras entre os actores,
antes do início da representação.
(Cena VIII)
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Bernardim reconhece que, agora, não tem cabeça
para decorar o papel da moura, indício de que
vai improvisar.
(Cena IX)
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Representação do auto. Intervalo. Recomeço.
(Cena X)
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Bernardim deturpa, efectivamente, as réplicas da
moura encantada, recitando, antes, versos por si
elaborados e que afloram a temática dos amores
entre si e a infanta. Entrega, entretanto, a
Beatriz o anel que ela lhe tinha oferecido no
tempo em que estavam enamorados. A duquesa acaba
por reconhecer Bernardim e troca com ele algumas
palavras melodramáticas ("Desgraçado, não vês
que me matas?"), para, de seguida,
desfalecer.
As
damas e os senhores da corte retiram-se, sem que
a maioria, inclusive D. Manuel I, se aperceba do
desfalecimento da princesa.
(Cena XI)
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Beatriz recupera e pede a Paula para a
acompanhar até aos seus aposentos. Chatel fica
desconfiado face à situação presenciada.
(Cena XII)
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