Sejamos desequilibrados, imperfeitos apaixonadamente
impuros. Sejamos portugueses. É isso que nos parece
dizer esta peça impura, que muitos acharão imperfeita,
desequilibrada. Mas que é apaixonadamente portuguesa.
Como também isso nos diz, e talvez não seja por acaso,
todo o benditamente impuro génio dramático de Gil
Vicente e muito em especial essas CORTES DE JÚPITER, que
serão teatro oficial até mais não poder ser, mas que o
pobre Vicente imaginado por Garrett apaixonadamente
tenta ensaiar, contra tudo e contra todos, no meio de
negócios de Estado e embaixadas estrangeiras, de mistura
com paixões e desgostos de amor de poetas, princesas e
actrizes, preso no seu próprio entusiasmo.
As CORTES já são acima de tudo uma peça portuguesa e
talvez sobre Portugal: são o roteiro de uma despedida. A
despedida de uma menina. Uma princesa portuguesa parte
para longe, para "o estrangeiro", deixa a sua terra,
leva e deixa saudades. A festa da sua despedida é uma
sumptuosa oposição de Portugal ao resto do Mundo. Uma
afirmação de nacionalidade, um esconjuro do medo de
partir, ao que parece e por sinal, destino português por
excelência.
As CORTES são, como toda a obra de Gil Vicente,
profundamente portuguesas até na ironia com que cumprem
a sua função oficial de anunciar o desfile náutico que
no dia seguinte iria rivalizar com os"trionfi" dos
italianos. São irónicas, inteligentes, impuras,
misturando o tom nobre de um ou outro verso de Júpiter,
da Providência ou de Marte, figuras de cartão de
inspiração ilustre (e de menos consequência que o épico
concílio dos deuses de Camões) com as palhaçadas dos
ventos, o romance Niña era Ia Ifanta, que apaixonou
Garrett, e essa fabulosa e longa antevisão do cortejo,
maravilhosamente fechada em jogos de cumplicidades
internas à côrte, em graças, elogios e galanteios que
quase já nos são incompreensíveis de tão profundamente
efémeros mas a que Vicente confere a densidade poética
de uma apoteose onírica.
Tudo isto sem esquecer que Portugueses também são
mistura. Sempre andaram berberes por aqui. Valha-nos
isso! E lá vem a moura encantada do Algarbe, filha de
Braxa e neta de Axa. Tudo com castelhano à mistura. E
muitos axes e exes. Pois então? Tudo num punhado de
versos.
Uma representação da peça
Foi desta portuguesa "confusão" que Garrett gostou.
Este teatro é que é o passado que apaixonadamente invoca
quando se lhe mete na cabeça criar um novo repertório e
construir o futuro do nosso teatro. (E seria isso um
projecto português? Não lhe bastava, à portuguesa,
escrever mais uma ou outra peça imperfeita e escrever um
dia uma talvez obra-prima - o tal FREI LUÍS DE SOUSA?
Quem acredita ainda em fazer escola para lá de deixar
formoso exemplo?). Ficou depois o Dona Maria, ficou o
Conservatório.
Mas neste UM AUTO DE GIL VICENTE o que ainda hoje nos
entusiasma é sobretudo o amor pela confusão, a paixão de
um projecto.
A própria ideia de cruzar as duas intrigas (a dos
ensaios e representação do auto com a dos amores de
Beatriz, Paula e Bernardim) é também a de um entusiasmo:
como se o teatro se vivesse entre um suicídio por e o
destino da nação, como se o teatro fosse tudo e nada ao
mesmo tempo, como se fosse aquele único sítio em que
toda a vida tem lugar, tanto as nossas paixões como os
interesses do Estado. Parece-me que foi assim que
Garrett pensou na sua peça.
Pensou num palco onde houvesse espaço para tudo. E onde
mais que tudo tivesse lugar a sua terra, os seus poetas,
as suas mulheres, os seus actores, bispos, falcoeiros,
pagens, reis, ministros e plebeus. Sofrendo todos com
certeza de um mal comum, essa inimitável "saudade" que
mais não é que uma especial e muito doce maneira de
viver a paixão. E talvez sempre às voltas com a questão
da liberdade. ("Eu constrangi sua vontade. Meu Deus, se
eu matei a minha filha!", diz a culpa do rei no fim da
peça). Este projecto de teatro não nos ficava mal
adoptar.
Uma representação da peça
UM AUTO DE GIL VIGENTE é também um pouco as "Viagens na
Minha Terra" do teatro. Uma viagem pelo meu país sem ir
mais longe que de Lisboa a Santarém. Também nesta peça
pouco se passa mas de tudo se fala. Lá está, na
abertura, em compére deste novo teatro português, uma
versão do mesmo Sancho de que falam as "Viagens", a
grotesca figura de Pero Safio, confidente e factotum de
uma outra versão de D. Quixote, o sublime Bernardim. De
Paula a Georgina não vai tão grande distância e menos
ainda de Beatriz a ]oaninha. A "desordem" também é a
mesma das "Viagens". E por entre esses amores vai
passando todo Portugal, país de gente do mar, vai
passando toda a cultura portuguesa, a poesia, a culta e
a tradicional, o teatro, a arquitectura antiga, os
descobrimentos, a política das artes, a sinceridade e a
hipocrisia, os barões e os frades. De tudo se fala sem
qualquer muito evidente unidade, num moderno e ousado
desprezo pelas regras clássicas e um gosto de facto novo
pela mistura dos estilos, pela convivência e debate dos
registos dramáticos mais opostos e que vão do monólogo
trágico à farsa, passando pelo melodrama ou pela alta
comédia. Isto, a partir de uma intriga quase
inexistente, apenas de uma situação de impasse amoroso
(um poeta ama uma princesa destinada a outro amor
oficial e é amado por outra mulher que não ama ou julga
não amar). E nem o desfecho, alguma solução para o
impasse, parece interessar Garrett. A sua nota ao
suicídio de Bernardim, que se diria aliás um trecho das
"Viagens", é isso que nos conta na sua ironia: Aqui
atirei com ele ao mar por me era preciso. Creio que
acima de tudo interessava a Garrett pôr Portugal em
cena, sem qualquer intenção normativa, apenas por gosto
de contemplar ou dar a ver. O quê? A nossa terra, as
coisas portuguesas, a nossa generosidade. É alguma
coisa. Mas este UM AUTO são apenas três actos gratuitos,
leves. É um mero prazer cultural, é quase um exercício.
E se não é verdade, foi assim que gostámos dele. São
três actos que permitem três tipos de escrita dramática
e três modos diferentes de mostrar a mesma gente em três
locais de acção emblemáticos. E a esses três "quadros"
vivos se vão colando todas as referências culturais
possíveis sem medo de perder a medida, de passagem. É,
de certo modo, uma estrutura aberta, livre. E a
encenação assim a quis expor e sublinhar-lhe as
dissonâncias.
Também por aí gostámos da peça. Por ser portuguesa
assim. E sentimos que essa liberdade de escrita nos
pedia que a manipulássemos, que não tivéssemos medo de a
ela agarrar mais pedaços da "Menina e Moça" de que
apaixonadamente gostamos, que à evocação de Gil Vicente
acrescentássemos mais texto das CORTÊS e
acrescentássemos até uma ou outra referência a um
"jeito" já nosso de pegar nos seus autos. Pedia que não
a tomássemos a sério demais. Achámos que podíamos e
devíamos, sei pelo menos que me apeteceu, encontrar
lugar em cena também para um Portugal que Garrett já não
conheceu e que é hoje a nossa terra. A uma coisa sei que
a peça de Garrett felizmente nos obriga: memória. O seu
teatro defende a Liberdade e afirma uma necessidade de
História. Para formar um novo repertório recorre à
História, põe em cena Gil Vicente; para falar à sua
época traz para cena D. Manuel e o Renascimento em
Portugal, de forma mais ou menos fiel, não é isso que
importa.
E para nós, portugueses já do fim do século seguinte, a
peça de Garrett pedia neste seu amor à História, novo
trabalho da memória, um salto para o nosso tempo.
Percebemos que pôr em cena a peça de Garrett era rever a
nossa bandeira, tanto mais que estreamos a peça em
co-produção com um Teatro Nacional.
Fizemos um espectáculo que é um jogo livre com as suas
cores vermelho e verde com esfera armiIar dourada como o
sol e quinas azuis como o luar, a abrir e fechar
cortinas de teatro. Depois de Garrett as representações
da memória portuguesa foram outras. Não ficámos
sobretudo com a alma apaixonada dos poetas nem com
tantos exemplos como isso de tolerância e liberdade na
condução dos destinos nacionais. A nossa memória
portuguesa está cheia de fatos típicos de fadistas,
campinos, minhotas e pescadores da Nazaré. Limpemos as
cores da bandeira. O nosso espectáculo gostava de
esvaziar a nossa bandeira da normalização das fardas,
sejam elas de soldados, futebolistas ou executivos.
Reivindicamos a generosidade portuguesa. Uma certa
desordem. Por trás da nossa bandeira está a delicadeza
da alma das nossas Beatrizes, a violência da paixão das
nossas Paulas, o corpo de Bernardim. Quero acreditar no
seu suicídio. Acabemos com os barões. Voltemos a ser
marinheiros. Lugar para o coração dos nossos rapazes!