Com "Advertência", texto que antecede a colectânea de
poemas que constituem "Folhas Caídas", Garrett pretende,
como o próprio título indicia, prevenir-nos para o que
se segue. E o que se segue mais não é, por um lado, do
que uma espécie de teorização da concepção de Poeta e de
Poesia na época romântica; por outro, um testemunho
humano e sensível de um homem que, já no fim da vida,
faz uma rememoração de toda uma existência, num momento
em que a chama do amor (pela viscondessa da Luz) o
rejuvenesce para o sonho e para a felicidade, mas também
o desperta para a (ir)realidade onde já só a saudade
existe e persiste.
Neste texto ensaístico pairam duas ideias fundamentais:
o Poeta é um vidente, um profeta, logo um ser superior
que transporta o facho da imortalidade e a luz que
poderá guiar os outros seres pelos caminhos da
felicidade, embora frequentemente seja incompreendido; a
Poesia é a arte que permite atingir esses desideratos.
Daqui se infere que:
* "O Poeta é um fingidor", sendo que a sua missão é criar e
guardar aquilo que foi criado ao longo da vida: "Antes
que venha o Inverno e disperse ao vento essas folhas de
poesia que por aí caíram, vamos escolher uma ou outra
que valha a pena conservar, ainda que não seja senão
para memória."
* O Poeta romântico há-de ser sempre poeta: "Poeta na
primavera, no estio e no outono da vida, hei-de sê-lo no
inverno, se lá chegar, e hei-de sê-lo em tudo. Mas
dantes cuidava que não, e nisso ia o erro."
(deparamo-nos aqui com uma espécie de autocrítica, pois
Garrett tinha afirmado na "Advertência" ao volume de
versos Flores Sem Fruto que seriam os últimos poemas que
escreveria: "Eu pouco mais tinha de vinte anos quando
publiquei certo poema, e jurei que eram os últimos
versos que fazia. Que juramentos!").
* O Poeta, como ser superior, não deve preocupar-se com
a opinião dos outros (egocentrismo): "Não sei se são
bons ou maus estes versos; sei que gosto mais deles do
que de nenhuns outros que fizesse. Porquê? É impossível
dizê-lo, mas é verdade. E, como nada são por ele nem
para ele, é provável que o público sinta bem
diversamente do autor. Que importa?"
* O Poeta é um louco, pois aspira ao impossível, mas
essa sua loucura é bem calculada e permite todos os
exageros: "Imaginação que porventura se não realiza
nunca. (...) Ao infinito não se chega, porque deixava de
o ser em se chegando a ele. Logo o poeta é louco, porque
aspira sempre ao impossível. Não sei. Essa é uma disputação mais longa. Mas sei que as presentes
Folhas Caídas representam o estado de alma do poeta
nas variadas, incertas e vacilantes oscilações do
espírito, que, tendendo ao seu fim único, a posse do
Ideal, ora pensa tê-lo alcançado, ora estar a ponto de
chegar a ele, ora ri amargamente porque reconhece o seu
engano, ora se desespera de raiva impotente por sua
credulidade vã."
* O Poeta é um Mensageiro incompreendido, um ser
excepcional, um maldito, um marginal. E isso deve ser um
motivo de orgulho para ele (o romântico é um ser
solitário, mas orgulhoso, afirmando-se com uma
identidade própria onde o Eu emerge e ocupa um lugar
centralizador): "Deixai-o passar, porque ele vai onde
vós não ides; vai, ainda que zombeis dele, que o
calunieis, que o assassineis. Vai, porque é espírito, e
vós sois matéria."
* O Poeta é um rebelde e Garrett foi-o, dado que a
assunção de sentimentos de um apaixonado perante a
sociedade é, sem dúvida, uma atitude de rebeldia, mais
própria do jovem que do homem maduro, barão e político (re)conhecido
que era agora Garrett.
* O Poeta mantém com os seus textos uma relação de
afectividade muito forte, revê-se neles como um pai se
revê no(s) seus(s) filho(s). No entanto, conserva um
lucidez de espírito que lhe permite julgar e ver os
defeitos que enfermam a sua obra: "Apesar de sempre se
dizer e escrever há cem mil anos o contrário, parece-me
que o melhor e mais recto juiz que pode ter um escritor
é ele próprio, quando o não cega o amor-próprio. Eu sei
que tenho os olhos abertos, ao menos agora.
Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda
sem ser Tasso, a queimar os seus versos, que são seus
filhos; mas o sentimento paterno não impede de ver os
defeitos das crianças".
Na "Advertência" encontram-se ainda outras linhas de
leitura que perpassam por toda a poesia amorosa de
"Folhas Caídas" e que fornecem a chave de descodificação
da mesma:
* É uma poesia de expressão espontânea de sentimentos,
que, por isso mesmo, se aproxima da vida concreta,
física (daí a coloquialidade, a sensualidade, a apologia
dos prazeres físicos, presentes em numerosos poemas...).
* É uma poesia em que a mulher aparece supervalorizada,
comparada a uma "estrela", colocada num plano celeste,
identificada com um anjo (e estamos perante uma das
convenções românticas: mulher-anjo). Só que esse anjo
encontra-se no terreno propício à tentação (Terra),
correndo o risco de a ela não resistir, sendo portanto
precária a sua ligação ao céu, tanto mais que muitas
vezes esse anjo (caído) na terra mais não encontra que
um habitante ( o próprio Eu), também ele em busca da sua
própria salvação, estando pois pouco indicado para
ajudar o anjo na sua luta contra a tentação (o corpo, o
prazer dos sentidos).
Em suma: sob a aparência de anjo, puro, inocente,
celeste, alheio às coisas da terra, descobre-se um outro
ser, de características terrestres,com poderes
malévolos, quase demoníaco (mulher-demónio - mais uma
convenção romântica). De qualquer dos modos, não deixa
de ser o Ignoto Deo: "Ainda assim, no Ignoto Deo não
imaginem alguma divindade meia velada com cendal
transparente, que o devoto está morrendo que lhe caia
para que todos a vejam bem clara. O meu deus
desconhecido é realmente aquele misterioso, oculto e não
definido sentimento de alma que a leva às aspirações de
uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta."
* É, pois, uma poesia de contradições e de conflitos.
* É uma poesia-máscara, uma poesia-teatro (daí o seu tom
dramático, parateatral), onde se assiste a um jogo
permanente entre um eu (Poeta - Almeida Garrett) e um tu
(Mulher - Viscondessa da Luz), sendo o leitor um
espectador atento, interessado.
* É uma poesia -símbolo, uma poesia-metáfora, na qual os
ciclos da vida vegetal e da vida humana se entrelaçam:
assim como na Natureza as árvores, no Outono, deixam
cair as suas folhas que se dispersam levadas pelo vento,
seguindo o ritmo das leis naturais, também o Homem (o
Poeta), no Outono da vida (a aproximar-se da morte,
relembra em versos, vertidos em poemas propositadamente
distribuídos de forma desorganizada, factos do passado
vivificados (sem respeito por uma determinada sequência
cronológica) pelas vivências amorosas do presente.