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Acto III:
Palácio de D. João de Portugal –
parte baixa.
ESPAÇO DRAMÁTICO
– Mais amplo que o espaço cénico, engloba as referências
espaciais feitas ao longo de toda a peça: Ásia –
Palestina > África - Alcácer Quibir> Europa – Portugal >
Lisboa > Almada > Palácio de D. Manuel > Palácio de D.
João de Portugal > parte mais baixa do mesmo Palácio >
retrato de D. João de Portugal.
ESPAÇO SOCIAL
- Domina o estatuto da nobreza, bem evidente na forma de
falar, de agir e de pensar das personagens.
SIMBOLOGIAS LIGADAS AO ESPAÇO
O Palácio de D. Manuel de Sousa Coutinho estava
ricamente decorado, era luxuoso, elegante, com grandes
janelas viradas para o exterior, o que denotava uma
felicidade aparente.
O Palácio de D. João de Portugal era mais austero, mais
sombrio, pesado, melancólico, sugerindo já uma desgraça
que inexoravelmente se abaterá sobre aquela família,
ironicamente detentora de todas as condições para viver
feliz.
A parte mais baixa do mesmo Palácio era um vasto salão
sem ornatos nenhuns (reparar na contradição); era quase
que um armazém de peças de cariz religioso. Aliás, as
referências à religião são uma constante na descrição
deste cenário (Cruz, Semana Santa, confrarias,
capela...), prenunciando o desprendimento dos bens
materiais e a sobreposição dos bens espirituais. A
luminosidade era quase nula, sugerindo um ambiente
funesto, fúnebre, de morte, que, ameaçadoramente, paira
sobre a família de Manuel e de Madalena. Relevante é
também a indicação da indumentária religiosa que ali
estava - “um hábito completo de religioso domínico,
túnica, escapulário, rosário, cinto, etc.” -, como se
estivesse destinada e à espera que Manuel de Sousa
Coutinho a vestisse…
A degradação dos ambientes, associada à forte
concentração de espaços, acompanha em paralelo o clima
trágico da acção. O espaço constrói-se, assim, em função
dos acontecimentos. Ele acompanha sempre a desgraça que
se aproxima, tendo, pois, uma função opressiva, fatal,
ominosa, agoirenta. O espaço cénico, onde se desenrolam
os actos II e III, por exemplo, pertence ao primeiro
marido de Madalena (daí a sua relutância em mudar-se
para lá), que regressa sob a figura de Romeiro,
insuflando assim vida ao passado – aliás, Madalena quase
nunca vive o presente por causa desse passado.
Quanto ao afunilamento espacial (Ásia – Palestina >
África - Alcácer Quibir > Europa – Portugal > Lisboa >
Almada > Palácio de D. Manuel > Palácio de D. João de
Portugal > parte mais baixa do mesmo Palácio) até se
reduzir ao mínimo (retrato de D. João de Portugal) é
pressagiador de desgraça. A propósito, por falar
em retrato, há dois retratos que são particularmente
importantes: o de D. Manuel, que arde, aquando do
incêndio, indiciando a morte (para o mundo) desta
personagem; o de D. João de Portugal, que funciona como
meio de evocações funestas, quer no princípio do acto II,
aquando da mudança de palácio, quer na ocasião do
reconhecimento (anagnórise), no final do mesmo acto.