Frei Luís de Sousa, representado pela primeira
vez em l843 e publicado no ano seguinte, é o maior drama
romântico português e uma das melhores peças teatrais da
nossa literatura (para alguns será mesmo a melhor…).
Pensamos que não será necessário dizer muito
mais para atestar a enorme importância desta
obra no panorama do texto dramático português,
sobretudo na época romântica. Convém, no
entanto, salientar ainda que essa importância
aparece reforçada pela circunstância de se
tratar de uma obra de difícil classificação,
porque rompe com a divisão do teatro, herdada já
dos gregos, em dois ramos ou géneros: comédia e
tragédia. É que o Frei Luís de Sousa é um
drama romântico. Na “Memória ao Conservatório
Real”, o próprio Garrett confessa: "Contento-me para a minha
obra com
o título modesto de drama;
só peço que a não julguem pelas leis que regem,
ou devem reger, essa composição de forma e
índole nova; porque a minha,
se na forma
desmerece da categoria, pela índole há-de ficar
pertencendo sempre ao antigo género trágico."
Assim, Frei Luís de Sousa apresenta
características românticas e características clássicas e
trágicas. Vejamos quais são:
2.1. Principais
características românticas:
Assunto nacional, embora se
baseie na lenda;
Retrata uma época de reacção do povo português ao
domínio dos Filipes;
Crença no sebastianismo;
Crença em agouros, dias
aziagos, superstições;
Maria é uma figura
romântica até à medula, pela sua sensibilidade doentia e
pela sua imaginação aguçada pela tuberculose (doença
romântica), deixando-se levar por visões e pelos sonhos;
A morte em cena desta mesma
personagem, não sem antes se insurgir acaloradamente
contra a lei do matrimónio, uno e indissolúvel, que
forçava os pais à separação e lhos roubava;
O heroísmo de Manuel de
Sousa Coutinho ao incendiar a sua casa;
O aparecimento da religião
como consoladora de infelizes;
O uso da prosa;
A divisão em três actos;
O desrespeito pelas
unidades de tempo e de espaço.
2.2.
Principais características clássicas e trágicas:
Personagens aristocráticas e em número reduzido;
Existência da hybris (= desafio), aquando,
por exemplo, do casamento de Madalena (que ainda não
tinha a certeza absoluta do seu estado livre e que, mais
grave, já amava Manuel de Sousa Coutinho quando vivia
com o seu primeiro marido...) e do incêndio provocado
por Manuel de Sousa – desafios às instituições e às
prepotências humanas;
O Ethos, pois o herói, revoltando-se, revela
o seu carácter (ethos), adquirindo uma estatura
superior;
A presença do Ágon, que corresponde à luta ou
ao conflito travados pelas personagens, lançados que
foram os desafios às instituições e à arbitrariedade
humana;
Existência do Pathos (= sofrimento), que
atinge as personagens e que vai progressivamente
aumentando, até atingir um clímax irresistível e
fatalista;
Uma anankê (= destino, fatalidade), em latim
fatum, o qual atinge inexoravelmente uma família
que, pressente-se logo de início, irá ser desonrada e
liquidada sem piedade;
A sensação de impotência, dado que os protagonistas
não podem lutar contra essa fatalidade, limitando-se a
aguardar, incapazes e cheios de ansiedade, o desfecho
que se afigura cada vez mais funesto;
A anagnórisis ou anagnórise ou ainda
agnorisis (= reconhecimento), com o
reconhecimento ou identificação do Romeiro. Para
Aristóteles, o reconhecimento deveria dar-se juntamente
com a peripéteia, ou seja, a peripécia,
que mais não é do que um acontecimento que altera, quase
sempre, de forma radical, o rumo da intriga, até pela
sua imprevisibilidade, invertendo, assim, a marcha dos
acontecimentos e precipitando o desenlace.
O desenlace, que corresponde ao momento em
que o curso dos acontecimentos se altera, determinando o
final feliz ou infeliz da intriga.
A Katastrophé (catástrofe), que marca
o desenlace fatal em que se consuma a destruição das
personagens – morte física de Maria; morte para o mundo
material ou secular de Madalena e de Manuel; morte
psicológica do romeiro… A catástrofe deve vir indiciada
desde o início, dado que é a conclusão lógica da luta
entre a Hybris e a Anankê, luta que é crescente –
clímax –, atingindo o seu ponto culminante – acmê
– na agnórise.
A Katársis que se prende com o efeito da
representação trágica, a qual visa, em última instância,
pelo terror e/ou pela piedade, purificar os espectadores
de paixões exacerbadas, desmedidas, semelhantes às dos
protagonistas.
A presença do coro:
- na recitação
litúrgica do ofício dos mortos;
- na figura do Frei
Jorge;
-
na figura agoirenta do Telmo, que representa o
raciocínio frio e a inteligência esclarecida na análise
dos acontecimentos.