De uma maneira geral o homem clássico caracteriza-se
pelo valor dado à razão, pela aceitação da vida e da
sociedade, apesar das suas faltas. É uma atitude
espiritual e moral, essencialmente estática.
No séc. XVIII, como já se disse, o movimento clássico
cai em decadência, porque não passava de uma forma
tradicional.
O "estado de alma" do romântico caracteriza-se,
assim:
* pela insatisfação perante o mundo em que vive;
* pela inquietude perante a vida;
* pela tristeza sem motivo;
* pelo desequilíbrio entre as faculdades;
* pelo protesto contra o que existe e aspiração a outras
coisas, por vezes sem
saber a quê;
* pela exaltação da imaginação e da sensibilidade e, por
conseguinte,
enfraquecimento da razão;
* pela crença religiosa...
O homem romântico acreditava que a sensibilidade era um
guia mais certo que a razão. Porquê? Porque, segundo
ele, o espírito do homem modifica-se com o tempo, mas o
seu coração não muda. Há, pois, uma hipertrofia da
imaginação e da sensibilidade, que irá dar lugar ao
egocentrismo.
Outra característica da alma romântica é
a busca do belo
em todas as suas formas e, daí, o voltar-se para as
visões coloridas e deslumbrantes: praias do sul e
paisagens do Oriente.
O
Romantismo e a juventude aparecem-nos quase sempre
interligados. Os românticos são jovens (pelo menos no
coração), que vivem uma crise de juventude (crise de
adolescência), a qual poderá durar toda a vida ou então
passar com a idade. Muitos deles morreram cedo, vítimas
de morte natural, em duelo (ex: Pouchtine), por uma
nobre causa (Byron morreu pela independência da Grécia)
ou então pelo suicídio (uma espécie de "folie" - ex:
Nerval).
O romântico é um "doente". Daí a sua melancolia.
Na sua maioria têm um coração apaixonado, um
temperamento nervoso e um espírito amigo dos contrastes.
Outra característica dominante do homem romântico é a
originalidade de maneiras, de costumes (por ex., o uso
de cabelos longos), de linguagem.
A maior parte deles despreza a burguesia.
Por isso, a existência de um certo
tipo de românticos a que chamamos "boémios", pobres e
de origem modesta.
A originalidade dos românticos
torna-se, por vezes, um estado de espírito frenético,
próximo da loucura (ex: Nerval, Hoffman), isolando-os
dos seus contemporâneos e colocando-os à margem da
sociedade.
Individualista, o romântico é um ser que estima os seus
direitos superiores aos da sociedade. Ele não contempla
senão o seu "eu". Sente necessidade de contar factos
próprios, de se revelar aos outros, razão por que
recorre frequentemente à confissão e ao romance
autobiográfico (este género de confidência é o mais
difundido) . Orgulhoso, considera-se um ser superior,
que se distingue dos outros pelo seu "génio". Este
sentimento de superioridade está na base da concepção de
poeta (poeta = ser superior, que liga os homens a Deus).
O escritor romântico coloca em cena personagens novas no
teatro, no romance e, por vezes, na poesia. Essas
personagens são individualidades poderosas ou
vencedoras, triunfadoras ou revoltadas. É sobretudo no
drama que aparece a imagem de herói romântico, cuja
grandeza não depende da sua condição social (há-os de
condição humilde), nem da virtude ou do vício.
Esse
herói é sensível e terno; um isolado na sociedade por
quem nutre ódio; sente-se objecto de uma fatalidade
irresistível e de uma paixão cega; geralmente, um ser
passivo, apesar da aparência de uma vida activa, e
intensa, que hesita e que treme diante da acção (ex:
Hamlet); enfim, é um ser que suscita o interessa, mas
não é um modelo a imitar, ao contrário do herói
clássico. A maior parte dos românticos persegue um ideal
confuso e irrealizável.
Viajante junto ao Mar de Neblina,
do pintor romântico alemão
Caspar D. Friedrich
A NATUREZA para os românticos
Aos românticos agrada uma Natureza que esteja de
harmonia com os seus sentimentos. Preferem "a noite", "o
Outono" (a estação dos nevoeiros, propícia ao sonho, a
estação da queda das folhas, da natureza melancólica,
como a alma dos poetas), "a lua", "as estrelas" - mais
sombra que luz. Sentem também um certo "élan" (impulso)
de alma para um ideal mal definido, para uma nostalgia
melancólica, que se aproxima da nossa saudade.
A Natureza é a forma mais simples de evasão (mas também
o são as viagens), motivo pelo qual os românticos procurem a solidão, porque podem
"abrir-se" livremente, solidão essa que se encontra
longe das cidades, longe dos outros. Por isso, uns
procuram sítios pitorescos, selvagens, grandiosos;
outros preferem, as ruínas. O mundo dos românticos é o
mundo da solidão, dos campos, dos bosques, das
montanhas, do mar.
Esta admiração pela Natureza guarda, às vezes, algo de
religioso, porque convida a alma a elevar-se para Deus.
A contemplação e a admiração pela Natureza torna-se, não
raro, panteísmo (= identificação de Deus com a
Natureza). É claro que a Natureza equivale a uma necessidade de fuga de si
mesmo e da sociedade, o que explica o gosto pelas
viagens e pelo exotismo. Numerosos são os escritores do
século XIX que publicaram narrações de viagens.
Chateaubriand, por exemplo, publica "Voyage au Orient",
Victor Hugo "Le Rhin" e, entre nós, Almeida Garrett as
"Viagens na Minha Terra". Trata-se de descobrir
paisagens e cenários exóticos, muitas vezes no Oriente e
na América (o Mundo Novo). O exotismo entra, desta
maneira, na
literatura e engrandece-a com mitos e imagens. A viagem
alarga o espectáculo da Natureza. Geralmente, ela não é
poesia num grande espaço, mas poesia cósmica, onde a
alma se expande em tudo.
De modo geral, a Natureza é encarada como refúgio, uma
amiga, uma confidente, uma espécie de mãe. Os românticos
emprestam-lhe sentimentos que estão de acordo com os
seus. Vêem-na triste, alegre, misteriosa ou melancólica.
Outra particularidade: os românticos
encaram os seres
inanimados (nuvens, árvores, rochedos...) como seres que
sentem e pensam, seres com quem os homens entram em
comunicação: "Tout vit dans la nature".
A RELIGIÃO para os românticos
O Romantismo permite aos crentes exprimir a sua fé,
directa ou indirectamente.
A inspiração vaga leva o romântico em direcção a um
ideal, em geral Deus, porque Ele é uma resposta ao
enigma da vida.
Genericamente, os românticos são cristãos de nascença e
influenciados pelo meio familiar, mas muitos deles
atravessam crises religiosas. Convém, no entanto,
acrescentar o seguinte: os ateus e, em oposição, os
muito ferventes, são raros. Eles são o mais das vezes deístas (crêem em Deus, numa entidade suprema, mas
rejeitam toda a revelação, toda a doutrina revelada) e
também anteístas (ex: Hugo e Goethe). Segundo eles, a
Natureza inanimada simpatiza com a alma humana a ponto
de lhe ser indissociável.
Do cristianismo muitos retêm, especialmente, a crença no
espírito do mal (Satanás), tentador da fraqueza humana e
o símbolo das más paixões. Satanás vai aparecer de
diversas formas na poesia romântica, mas os românticos
descortinam sempre nele uma personagem misteriosa e grande,
encarnando o mal e os malfeitores. É uma personagem
terrível e, ao mesmo tempo, sedutora.
O AMOR para os românticos
O amor é um sentimento dominante para os românticos. No
Romantismo há uma predominância da vida afectiva sobre
as outras manifestações da personalidade. O que é novo é
que pela primeira vez os escritores vão falar sobre si
mesmos, informando os leitores das suas vidas
sentimentais, das suas aventuras do coração. Pela
primeira vez na literatura, o amor é muito íntimo, muito
pessoal. Certos românticos vêem no seu amor uma espécie
de culto, prestado ora a Deus ora à Natureza. É uma
espécie de religião do amor, muito próximo do platonismo
da Renascença. No que respeita à mulher, os românticos
falam em dois tipos:
* a mulher-anjo bom,
que é a musa inspiradora do poeta;
* a mulher-demónio,
a quem os homens estão ligados por uma fatalidade, por
uma funesta paixão. É uma mulher fatal, mágica, que faz
o homem perder a razão, seduzindo-o. Opõe-se à
mulher-anjo.
Francisco
José de Goya y Lucientes
La Maja
desnuda. Museo del Prado.
A mulher que se prostitui, seja por fraqueza, seja por
miséria, é um tema desenvolvido pelos românticos. Esta
mulher, que cai baixo na escala social, se amou ao menos
uma só vez na vida, será resgatada aos olhos dos homens
e, sobretudo, aos olhos de Deus.
A mulher ocupa, pois, um lugar importante na literatura
romântica. Desempenha um papel decisivo na formação e no
destino do homem. Por isso, na literatura romântica há a
proclamação do papel social da mulher e também uma
exigência: que os direitos lhe sejam garantidos.
O sentimento de LIBERDADE para os românticos
O homem romântico pugna pela liberdade de consciência,
política, social, moral e religiosa, relativamente aos
modelos, às regras. Liberdade em todos os sentidos.
Eugène Delacroix: A Liberdade guiando o povo.
O DEVANEIO, o SONHO, as VISÕES para os românticos
Os românticos gostam de divagar, de sonhar... Deste modo,
fogem de uma sociedade e de uma realidade que consideram
hostis.
Mas mais ainda que o devaneio e o sonho são importantes
as visões construídas pela imaginação, que ocupam um
proeminente lugar na literatura romântica. Visões do passado,
do futuro e visões fantásticas onde há um apagamento dos
limites de um real cruel.
Os sentimentos de TRISTEZA, de DECEPÇÃO, de REVOLTA, o
SOFRIMENTO para os românticos
A visão geral que temos do romântico é que a sua alma
não está alegre, confiante, optimista. Pelo contrário,
ele sofre em desacordo com o mundo das decepções da
vida, de um ideal irrealizável. Por isso, ele é um ser
triste, melancólico, incrédulo, pessimista e revoltado.
Os românticos experimentam um certo prazer na tristeza e
no sofrimento. Uns gostam de analisar os seus males.
Outros inclinam-se cada vez mais perante a ideia da
morte e vivem obcecados por e com ela.