Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
Outros Autores
 

PSICOLOGIA DO HOMEM ROMÂNTICO

 

 

O HOMEM ROMÂNTICO - A ALMA ROMÂNTICA
 

De uma maneira geral o homem clássico caracteriza-se pelo valor dado à razão, pela aceitação da vida e da sociedade, apesar das suas faltas. É uma atitude espiritual e moral, essencialmente estática.

No séc. XVIII, como já se disse, o movimento clássico cai em decadência, porque não passava de uma forma tradicional.

 

O "estado de alma" do romântico caracteriza-se, assim:

 

* pela insatisfação perante o mundo em que vive;

* pela inquietude perante a vida;

* pela tristeza sem motivo;

* pelo desequilíbrio entre as faculdades;

* pelo protesto contra o que existe e aspiração a outras coisas, por vezes sem

  saber a quê;

* pela exaltação da imaginação e da sensibilidade e, por conseguinte,

  enfraquecimento da razão;

* pela crença religiosa...
 

O homem romântico acreditava que a sensibilidade era um guia mais certo que a razão. Porquê? Porque, segundo ele, o espírito do homem modifica-se com o tempo, mas o seu coração não muda. Há, pois, uma hipertrofia da imaginação e da sensibilidade, que irá dar lugar ao egocentrismo.

 

Outra característica da alma romântica é a busca do belo em todas as suas formas e, daí, o voltar-se para as visões coloridas e deslumbrantes: praias do sul e paisagens do Oriente.

 

O Romantismo e a juventude aparecem-nos quase sempre interligados. Os românticos são jovens (pelo menos no coração), que vivem uma crise de juventude (crise de adolescência), a qual poderá durar toda a vida ou então passar com a idade. Muitos deles morreram cedo, vítimas de morte natural, em duelo (ex: Pouchtine), por uma nobre causa (Byron morreu pela independência da Grécia) ou então pelo suicídio (uma espécie de "folie" - ex: Nerval).

O romântico é um "doente". Daí a sua melancolia. Na sua maioria têm um coração apaixonado, um temperamento nervoso e um espírito amigo dos contrastes.

 

Outra característica dominante do homem romântico é a originalidade de maneiras, de costumes (por ex., o uso de cabelos longos), de linguagem.

A maior parte deles despreza a burguesia. Por isso, a existência de um certo tipo de românticos a que chamamos "boémios", pobres e de origem modesta.

A originalidade dos românticos torna-se, por vezes, um estado de espírito frenético, próximo da loucura (ex: Nerval, Hoffman), isolando-os dos seus contemporâneos e colocando-os à margem da sociedade.

Individualista, o romântico é um ser que estima os seus direitos superiores aos da sociedade. Ele não contempla senão o seu "eu". Sente necessidade de contar factos próprios, de se revelar aos outros, razão por que recorre frequentemente à confissão e ao romance autobiográfico (este género de confidência é o mais difundido) . Orgulhoso, considera-se um ser superior, que se distingue dos outros pelo seu "génio". Este sentimento de superioridade está na base da concepção de poeta (poeta = ser superior, que liga os homens a Deus).

 

O escritor romântico coloca em cena personagens novas no teatro, no romance e, por vezes, na poesia. Essas personagens são individualidades poderosas ou vencedoras, triunfadoras ou revoltadas. É sobretudo no drama que aparece a imagem de herói romântico, cuja grandeza não depende da sua condição social (há-os de condição humilde), nem da virtude ou do vício.

 

Esse herói é sensível e terno; um isolado na sociedade por quem nutre ódio; sente-se objecto de uma fatalidade irresistível e de uma paixão cega; geralmente, um ser passivo, apesar da aparência de uma vida activa, e intensa, que hesita e que treme diante da acção (ex: Hamlet); enfim, é um ser que suscita o interessa, mas não é um modelo a imitar, ao contrário do herói clássico. A maior parte dos românticos persegue um ideal confuso e irrealizável.

 

 

Viajante junto ao Mar de Neblina,

do pintor romântico alemão

Caspar D. Friedrich

 

 


 

A NATUREZA para os românticos
 

Aos românticos agrada uma Natureza que esteja de harmonia com os seus sentimentos. Preferem "a noite", "o Outono" (a estação dos nevoeiros, propícia ao sonho, a estação da queda das folhas, da natureza melancólica, como a alma dos poetas), "a lua", "as estrelas" - mais sombra que luz. Sentem também um certo "élan" (impulso) de alma para um ideal mal definido, para uma nostalgia melancólica, que se aproxima da nossa saudade.

 

 

A Natureza é a forma mais simples de evasão (mas também o são as viagens), motivo pelo qual os românticos procurem a solidão, porque podem "abrir-se" livremente, solidão essa que se encontra longe das cidades, longe dos outros. Por isso, uns procuram sítios pitorescos, selvagens, grandiosos; outros preferem, as ruínas. O mundo dos românticos é o mundo da solidão, dos campos, dos bosques, das montanhas, do mar.

 

Esta admiração pela Natureza guarda, às vezes, algo de religioso, porque convida a alma a elevar-se para Deus. A contemplação e a admiração pela Natureza torna-se, não raro, panteísmo (= identificação de Deus com a Natureza). É claro que a Natureza equivale a uma necessidade de fuga de si mesmo e da sociedade, o que explica o gosto pelas viagens e pelo exotismo. Numerosos são os escritores do século XIX que publicaram narrações de viagens. Chateaubriand, por exemplo, publica "Voyage au Orient", Victor Hugo "Le Rhin" e, entre nós, Almeida Garrett as "Viagens na Minha Terra". Trata-se de descobrir paisagens e cenários exóticos, muitas vezes no Oriente e na América (o Mundo Novo). O exotismo entra, desta maneira, na literatura e engrandece-a com mitos e imagens. A viagem alarga o espectáculo da Natureza. Geralmente, ela não é poesia num grande espaço, mas poesia cósmica, onde a alma se expande em tudo.

De modo geral, a Natureza é encarada como refúgio, uma amiga, uma confidente, uma espécie de mãe. Os românticos emprestam-lhe sentimentos que estão de acordo com os seus. Vêem-na triste, alegre, misteriosa ou melancólica.

 

Outra particularidade: os românticos encaram os seres inanimados (nuvens, árvores, rochedos...) como seres que sentem e pensam, seres com quem os homens entram em comunicação: "Tout vit dans la nature".

 



 

A RELIGIÃO para os românticos

 

O Romantismo permite aos crentes exprimir a sua fé, directa ou indirectamente.

A inspiração vaga leva o romântico em direcção a um ideal, em geral Deus, porque Ele é uma resposta ao enigma da vida.

Genericamente, os românticos são cristãos de nascença e influenciados pelo meio familiar, mas muitos deles atravessam crises religiosas. Convém, no entanto, acrescentar o seguinte: os ateus e, em oposição, os muito ferventes, são raros. Eles são o mais das vezes deístas (crêem em Deus, numa entidade suprema, mas rejeitam toda a revelação, toda a doutrina revelada) e também anteístas (ex: Hugo e Goethe). Segundo eles, a Natureza inanimada simpatiza com a alma humana a ponto de lhe ser indissociável.

Do cristianismo muitos retêm, especialmente, a crença no espírito do mal (Satanás), tentador da fraqueza humana e o símbolo das más paixões. Satanás vai aparecer de diversas formas na poesia romântica, mas os românticos descortinam sempre nele uma personagem misteriosa e grande, encarnando o mal e os malfeitores. É uma personagem terrível e, ao mesmo tempo, sedutora.

 

O AMOR para os românticos

 

O amor é um sentimento dominante para os românticos. No Romantismo há uma predominância da vida afectiva sobre as outras manifestações da personalidade. O que é novo é que pela primeira vez os escritores vão falar sobre si mesmos, informando os leitores das suas vidas sentimentais, das suas aventuras do coração. Pela primeira vez na literatura, o amor é muito íntimo, muito pessoal. Certos românticos vêem no seu amor uma espécie de culto, prestado ora a Deus ora à Natureza. É uma espécie de religião do amor, muito próximo do platonismo da Renascença. No que respeita à mulher, os românticos falam em dois tipos:


* a mulher-anjo bom, que é a musa inspiradora do poeta;


* a mulher-demónio, a quem os homens estão ligados por uma fatalidade, por uma funesta paixão. É uma mulher fatal, mágica, que faz o homem perder a razão, seduzindo-o. Opõe-se à mulher-anjo.

 

Francisco José de Goya y Lucientes

La Maja desnuda. Museo del Prado.

 

A mulher que se prostitui, seja por fraqueza, seja por miséria, é um tema desenvolvido pelos românticos. Esta mulher, que cai baixo na escala social, se amou ao menos uma só vez na vida, será resgatada aos olhos dos homens e, sobretudo, aos olhos de Deus.

A mulher ocupa, pois, um lugar importante na literatura romântica. Desempenha um papel decisivo na formação e no destino do homem. Por isso, na literatura romântica há a proclamação do papel social da mulher e também uma exigência: que os direitos lhe sejam garantidos.

 

O sentimento de LIBERDADE para os românticos

 

O homem romântico pugna pela liberdade de consciência, política, social, moral e religiosa, relativamente aos modelos, às regras. Liberdade em todos os sentidos.

 

 

 

Eugène Delacroix: A Liberdade guiando o povo.

 

O DEVANEIO, o SONHO, as VISÕES para os românticos
 

Os românticos gostam de divagar, de sonhar... Deste modo, fogem de uma sociedade e de uma realidade que consideram hostis.

Mas mais ainda que o devaneio e o sonho são importantes as visões construídas pela imaginação, que ocupam um proeminente lugar na literatura romântica. Visões do passado, do futuro e visões fantásticas onde há um apagamento dos limites de um real cruel.

 

Os sentimentos de TRISTEZA, de DECEPÇÃO, de REVOLTA, o SOFRIMENTO para os românticos

 

A visão geral que temos do romântico é que a sua alma não está alegre, confiante, optimista. Pelo contrário, ele sofre em desacordo com o mundo das decepções da vida, de um ideal irrealizável. Por isso, ele é um ser triste, melancólico, incrédulo, pessimista e revoltado.

Os românticos experimentam um certo prazer na tristeza e no sofrimento. Uns gostam de analisar os seus males. Outros inclinam-se cada vez mais perante a ideia da morte e vivem obcecados por e com  ela.

 

 

Correr     Parar     Reiniciar

Joaquim Matias da Silva

 

Voltar

Início da página

 

© Joaquim Matias 2009

 

 

 

 Páginas visitadas