Assistimos no século XVIII a uma democratização quase
total da arte literária, no que concerne aos autores e
aos temas abordados. Com o correr dos tempos, essa mesma
arte foi-se democratizando também, pouco a pouco, no que
ao público leitor dizia respeito.
Não foi estranho a este fenómeno o progresso das classes
mais baixas e o seu quase nivelamento social com a
nobreza e o clero, conseguido na passagem do séc. XVIII
para o XIX.
Paralelamente, o avanço da técnica industrial
tornou possível um considerável aperfeiçoamento
da arte de imprimir, o que contribuiu em larga
escala para a vulgarização do livro.
Ou fosse porque o grande público não entendia a estética
clássica, por ser demasiado académica e intelectiva, ou
fosse porque o género tinha atingido a saturação, os
escritores começaram a tentar novos temas e um novo modo
de os comunicar.
Foi na Inglaterra e na Alemanha que, em meados do séc.
XVIII, alguns poetas voltaram as costas aos modelos do
Classicismo, inspirando-se na Natureza tal qual a viam e
não tal qual Horácio e outros antigos lha mandavam ver.
O sentimentalismo subjectivo veio assim substituir a
gama imensa, mas limitada, de temas catalogados pelos
Gregos e Romanos. Nunca mais os escritores aceitaram
temas impostos de fora. Deixar-se-iam, isso sim,
arrastar pela
evocação do popular, do medievo, do
exótico, pela exaltação da liberdade, pelo "eu", medida
do Universo, pela fascinação do abissal, da morte, do
nada.
O carácter subjectivista e sentimental cria, assim, uma
reacção anticlássica. Revivem-se as baladas medievais,
em poesia rude (por oposição à poesia cultivada na
corte), espontânea, inspirada na vida cavaleiresca.
Em
Inglaterra, surgem as obras de Macpherson (Poemas de
Ossion) e Thomas Percy (Relíquias da poesia
inglesa). Nascem, em seguida, as grandes obras de
Sir Walter Scott (Ivanhoé, Maria Stuart ,
Noiva de Lamermoor).
Na
Alemanha,
desenvolve-se a poesia sentimental e
mística cujas raízes nacionais provêm do passado
medieval. Sem ter idade clássica, o nacionalismo alemão
cultivou com paixão os mitos e temas da Idade Média. Schlegel escreve o romance Lucinda, tipicamente
romântico. Libertada a poesia dos moldes da antiguidade
clássica, Schiller e Goethe denominam a nova tendência
literária de Romantismo.
Defendem a volta da poesia
popular, plena de sentimentalismo.
Goethe desperta a
Europa com a obra Werther e proclama: " Evitai
tudo quanto vos é estranho, não deveis admitir nada que
seja contrário ao vosso ser ". Schiller extravasa
sentimentalidade nas famosas obras: Guilherme Tell, Don Carlos, A Donzela de Orleans.
É, contudo, da
França
que o Romantismo há-de
expandir-se. Retornando de longa viagem por terras
germânicas, Mme. de Staël publica a obra
De L'
Allemagne
(Sobre a Alemanha), onde divulga o
progresso científico e literário do povo alemão.
Ecoando, ainda, as palavras do lema " Igualdade,
Fraternidade e Liberdade ", o espírito francês apega-se
às novas concepções literárias.
Promove-se a idolatria
do "ego". Busca-se
inspiração nos sentimentos mais
íntimos, no desvairismo, ou, por outro lado, na
natureza, no
sentimento de religiosidade cristã, panteística, de que é exemplo a obra de
Chateaubriand,
Le Génie du Christianisme.
Desta maneira foi-se gerando uma nova escola, que
depressa alastrou por toda a Europa, a qual passaria à
história com o nome de Romantismo.
Devemos, porém, distinguir duas fases bem distintas no
crescer do movimento romântico. Até à convenção de
Viena, em 1815, foi conservador. Napoleão espalhava
então pelo mundo o liberalismo, de mistura com o domínio
político; e acabou por coroar-se imperador. Toda a
Europa se deu conta do seu despotismo. Começou, então, a
reagir contra ele e, por simpatia, reagiu também contra
as ideias liberais que, durante as campanhas militares,
havia semeado.
Ao despotismo e liberalismo napoleónicos toda a Europa
opôs, com vigor, o tradicionalismo nacional e a crença
religiosa.
O pensamento de todos começou a refugiar-se na Idade
Média, período heróico da gestação das nacionalidades
modernas. Depois da revolução de 1830, as coisas
mudaram. Já ninguém se incomodava com Napoleão;
importavam-se todos mas era com um possível renascimento
do absolutismo dentro das pátrias. O Romantismo entrou,
então, na segunda fase.
Deixou de ser conservador e tornou-se revolucionário.
O pensamento dos escritores voava agora em direcção ao
futuro, que era preciso acautelar.