João Baptista da Silva Leitão nasce no Porto, em 4 de
Fevereiro de 1799. Era filho de
um funcionário superior da alfândega dessa
cidade. A sua mãe descendia de uma família de
comerciantes minhotos, que haviam feito fortuna no
Brasil. Corria, pois, nas veias de Garrett, puro-sangue
da burguesia de toga e da burguesia capitalista. Os dois
últimos apelidos - Almeida Garrett - foram acrescentados
mais tarde ao nome, o último dos quais pretendia
ligar-se a uma estirpe da aristocracia irlandesa.
É provavelmente o escritor português mais completo de
todo o século XIX, pois deixou-nos
obras-primas na poesia, no teatro e na prosa. Para além
disso, foi um inovador em cada um dos géneros em que
escreveu. Na verdade, foi um dos fundadores do
Romantismo português e legou-nos indelevelmente uma
concepção tipicamente
moderna do
Porto: casa onde nasceu Almeida Garrett.
intelectual, do artista e do papel cívico e
político que lhe cabe.
Como escritor, a sua formação é basicamente arcádica,
evoluindo em moldes românticos a partir da estadia em
Inglaterra. O ideal de intervenção cívica reflecte-se na
sua criação literária, função cumprida particularmente
através dos dramas históricos (O
Alfageme de Santarém,
1824, entre outros) e dos poemas da fase arcádica.
Defendendo que o contacto com as fontes nacionais
populares é essencial à vitalidade da literatura,
Almeida Garrett levou a cabo uma regeneração da língua,
conferindo-lhe uma naturalidade de que esta carecia e
aproximando-a da oralidade. Com a mesma intenção,
procedeu à recolha de temas e textos do folclore
português, de que é exemplo o seu
Romanceiro
(1843-1851).
De temperamento ardentíssimo, tal qual o Carlos das
Viagens
na Minha Terra
"tinha energia demais", um coração demasiado grande para
se entregar a uma só mulher. Efectivamente, amou muito,
com volubilidade, até ser um homem idoso. São demasiado
comentados, para que não haja nisso uma pontinha de
verdade, os seus amores por Rosa de Montufar,
uma andaluza, baronesa da Luz, célebre pelos seus dotes
físicos. Andaria ele pela casa dos cinquenta e dois anos
e ela pelos trinta e dois, quando uma paixão fogosa,
intensa, nasceu entre ambos, de tal forma que terá sido
Rosa Montufar Infante a grande inspiradora de
Folhas Caídas.
Vaidoso, presumido no vestir, procurava dissimular ao
máximo os seus traços físicos menos abonatórios e raras
vezes dizia ao certo a idade que tinha. Gabava-se também
da sua capacidade de trabalho. Segundo afirmava,
escreveu Frei Luís de Sousa
em treze dias, façanha que levou Ramalho Ortigão a
afirmar, por brincadeira, que Garrett em algumas horas
da noite redigia todo o primeiro acto de uma obra-prima
e gastava uma manhã inteira a barbear-se e a
perfumar-se. De qualquer dos modos, Garrett foi um homem
de grande delicadeza de sentimentos e possuidor de um
alto sentido de justiça.
Poeta lírico, dramaturgo, romancista, tentado pelas duas
grandes formas de expressão romanesca romântica - o
romance histórico (O
Arco de Sant'Ana,
2 vols, 1845 e 1850) e o romance contemporâneo,
intimista e digressivo (Viagens
na Minha Terra,
cujos primeiros capítulos foram publicados, sem o resumo
inicial que depois neles foi integrado, na Revista
Universal Lisbonense, em 1843) -, jornalista e redactor
principal (por vezes quase único) de uma série de
jornais (O Português, O Cronista, A
Regeneração...) e revistas, polígrafo incansável e
participativo, compilador da tradição oral portuguesa,
ensaísta, jurista, pedagogo e político, Garrett foi, sem
dúvida, no douto dizer de Helena Carvalhão Buescu uma
"instituição" irrecusável da primeira metade do século
XIX em Portugal, nome pelo qual passa tudo quanto de
significativo e consequente na época se tentou entre
nós.
Veja, ainda, algumas das datas mais relevantes relativas
à vida e obra de Garrett.