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ANTÓNIO NOBRE - BIOBIBLIOGRAFIA

 

(Página ainda em construção)

 

ANTÓNIO NOBRE, o poeta da SOlidão
 


 

 

Nascido no Porto em 16 de Agosto de 1867, estava reservado a António Pereira Nobre um percurso existencial deveras curto e repleto de agruras. E nada o fazia prever...

 

Filho de um “brasileiro”, pertencia à burguesia rural. Da sua infância guarda uma egolátrica nostalgia. Sentia-se um príncipe encantado, alvo das atenções e mimos de todos:

 

 

Casa, no Porto, onde morreu António Nobre, agora meio em ruínas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


                                   Lá vem a Carlota que embala uma aurora
                                   Nos braços, e diz:
                                   “Meu lindo Menino, que Nossa Senhora
                                   O faça feliz!”

                                   E António crescendo, sãozinho e perfeito,
                                   Feliz que vivia!

 

Com uma ternura pueril e numa atitude romântica e saudosista, vemo-lo mais tarde a evocar a realidade passada, poetizando as delícias veraneias gozadas na praia de Leça de Palmeira ou os deleites bucólicos de duas quintas paternas - uma poveira, outra transmontana.

 

Os primeiros estudos são feitos no Porto:

                          
E entrei para a escola, meu Deus! Quem me dera
                           Nessa hora da Vida!
                           Usava uma blusa, que linda que era!
                           E trança comprida...

 

Ainda na cidade invicta, são feitos os estudos liceais, na convivência de um grupo de jovens literatos e boémios.

Mas a rosa da felicidade murcha depressa e depressa Nobre vê-se confrontado com as alfinetadas da vida. Excêntrico no vestir e propenso a idílios inconsequentes, em 1888 abrem-se-lhe as portas da Universidade de Coimbra, onde passará uma “época sinistra”, com duas reprovações consecutivas no 1º ano do Curso de Direito, ele, a “criatura nova”, o poeta predestinado - e n(N)obre, diremos nós; ele, que na Academia coimbrã se tinha tornado proeminente figura do grupo da Boémia Nova (1889)!...

Desgostoso, talvez, “foge” do país, rumo a Paris, onde entre 1890 e 1895, na Escola Livre de Ciências Políticas, se licenciou em Ciências Jurídicas. Pelo meio, morre-lhe o pai, o que vem acentuar mais a sua angústia... Na cidade-luz, foi fecundo o seu contacto com a poesia francesa coeva – Verlaine, Mallarmé, Rimbaud, Jean Moréas, Laforgue... Mas o cinzento desterro na capital francesa e a solidão cada vez mais profunda que se atravessava ameaçadora e ominosa no seu caminho, agravados pela tuberculose que, entretanto, começava a minar-lhe a alma e corpo, provocavam nele um repúdio mórbido do presente e do futuro.

 

Como um lago de águas, ora turvas ora cristalinas, a sua obra reflecte algumas atitudes simbolistas e decadentistas, evidenciando uma vertente romântico-pessimista, um tedium vitae, uma “tísica de alma”, uma amarga ironia, que acompanhava, achava ele (revelando uma certa faceta mística e, até, um certo visionarismo), a agonia de Portugal e a sua própria. No entanto, Nobre consegue manter uma lúcida consciência estética e um vivo sentido do ridículo. Egotista, com um temperamento recurvado sobre os fantasmas do seu mundo íntimo, o poeta da solidão e do sofrimento afirma a sua autonomia estética, recusa a elaboração convencional, oratória e elevada da linguagem, buscando um tom de coloquialidade (aprendido com Garrett, Júlio Dinis e também Jules Laforgue), cheio de espontaneidade e naturalidade, despretensioso, mais sensível que reflexivo, afectivo, repleto de ritmos livres e musicais e impregnado de uma imagística rica e original, tornando-se, assim, precursor de muitos aspectos da modernidade. No dizer de Jacinto do Prado Coelho, “toda a sua poesia é rigorosamente feita para se ouvir, cheia de paralelismos, de repetições melódicas, de onomatopeias, em extremo maleável.

 

Terminados os estudos em Paris, regressa a Portugal e concorre a lugar de cônsul em Pretória, na África do Sul, mas a doença que avançava a passos largos impede-o de ocupar o cargo. Vendo-se “liquidado” pela tísica, jornardeia então, desesperadamente, de terra em terra em busca de um lenitivo para os seus males. Sorve sofregamente os ares das quintas do Seixo e dos Casais, em Penafiel, refugia-se em Pampilhosa, procura as estâncias de cura de Berna e Lausana (na Suíça) e Baltimore (nos E.U.A.) , deposita ainda ténues esperanças nas brisas temperadas, puras e purgativas da Madeira, do Estoril e de Belas. Tudo em vão!... Daí que se compare aos grandes sofredores da humanidade, apresentando-se como o mais infeliz de todos:

                          
Ó dor! Ó dor! Ó dor! Cala, ó Jó, os teus ais,
                           Que os tem maiores este filho de seus pais!
                           Ó Cristo, cala os ais na tua ígnea garganta,
                           Ó Cristo, que outra dor mais alta se levanta!

 

E queixa-se ao irmão: “Quase não posso andar, tão fraco estou. Nunca se viu nada assim, e a morte já não me importa muito, tal é o meu imenso desejo de paz, de tranquilidade”. A 18 de Março de 1900, impiedosa e inexoravelmente, a morte faz-lhe a vontade. Tinha ele 32 anos!...

A única obra que deu ao prelo em vida do poeta foi (Paris, 1892). Com poucas excepções, os versos de Só são a transformação poética de momentos vividos pelo autor, uma espécie de diário íntimo, um açude a represar todo um passado. Ali, o António ou Anto, nos seus carpidos maviosos, mas nunca retóricos, fala plangentemente nos pais, nos avós, no seu nascimento, na velha Carlota e nas histórias que lhe contava, na sua infância e adolescência, na ida para Coimbra, para Paris...

 

Postumamente, dois outros livros vieram a lume: Despedidas (1.ª ed., 1902), com um fragmento de “O Desejado”, poema lírico-sebastianista de ambição épica; e Primeiros Versos (1.ª ed., 1921).

 

Quanto à sua correspondência, está reunida em vários volumes: Cartas Inéditas de António Nobre, com introdução e notas por A. Casais Monteiro, Coimbra, 1934; Cartas e Bilhetes-Postais a Justino de Montalvão, com prefácio e notas por Alberto de Serpa, Porto, 1856; Correspondência, com introdução e notas por Guilherme de Castilho, Lisboa, 1967 (colecção de 244 cartas, 56 das quais totalmente inéditas).
 

Joaquim Matias da Silva
 

Bibl.: BARREIROS, António José, História da Literatura Portuguesa, vol. II, Editora Pax;

 COELHO, Jacinto do Prado, Dicionário de Literatura, 3º vol., Figueirinhas, Porto;

 Dicionário Enciclopédico, vol. II, Diário de Notícias;

 NOBRE, António Pereira, , Círculo de Leitores;

 O Grande Livro dos Portugueses, Lisboa: Círculo de Leitores.

 

 

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