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ANTERO DE QUENTAL - BIOBIBLIOGRAFIA

 

- Vida e ideias -

 

Antero Tarquínio de Quental nasceu em Ponta Delgada, capital dos Açores, na ilha açoriana de S. Miguel, em 18 de abril de 1842, sendo oriundo de uma família profundamente religiosa.

O seu pai, Fernando do Quental, foi cadete na expedição liberal que desembarcou no Mindelo, e a sua mãe, Ana Guilhermina, era  filha de um desembargador. O casal teve sete filhos, sendo Antero o quarto. Para se compreender o que se passou mais tarde com a doença do poeta, há que considerar dois factores de relevo. O primeiro tem a ver com a morte prematura e a loucura. O filho mais velho, André, morreu louco em Rilhafoles, no ano de 1870, aos 52 anos; um outro filho mais velho quatro anos do que Antero morreu com três meses de idade; e a mais nova das três irmãs, todas nascidas depois de Antero, morreu com menos de dois anos.  Isto significa duas mortes precoces  no espaço de 13 anos.

 

Além disso, a sua infância foi marcada pela sensibilidade depressiva da mãe, muito religiosa e dotada de grande poder de comunicação. A mãe é para o poeta a imagem da Virgem misericordiosa, por quem nutre sentimento de piedade. O pai parece não lhe ter merecido muito interesse, pois está ausente da sua obra, ao contrário da mãe, que ocupa lugar destacado. Passou, pois, toda a sua infância sob a orientação da mãe, que lhe despertava fulgores místicos, e influenciado pelo mar, pelo vento e pelos fenómenos vulcânicos que aconteciam frequentemente e o despertavam para os mistérios da natureza. Educado nos mais rigorosos preceitos da religião católica, veio para o continente estudar no colégio do Pórtico, dirigido por Castilho, amigo dos Quentais, que lhe ensinou latim e francês.

 

Aos 12 anos, já lia Herculano e maravilhava-se com os poemas da Harpa do Crente, desabrochando o seu pendor místico. Planeava para o futuro uma carreira de sacerdote. Além da mãe, muitas pessoas da família se distinguiam pela prática religiosa, sobretudo o padre Bartolomeu do Quental, um dos mais célebres do tempo, fundador da Congregação do Oratório e autor de diversos livros místicos. Entretanto, os planos da vida sacerdotal foram abandonados quando Castilho se retirou para o Brasil por motivos políticos. Ficou entregue ao cuidado de seu tio Filipe, lente da Faculdade de Medicina de Coimbra, matriculando-se no colégio de S. Bento, desta cidade.

 

Com 16 anos, matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra. A esta cidade

 chegavam as novas ideias sociais e políticas, as descobertas científicas, as leis evolutivas de Darwin, as teorias económicas de Proudhon e Marx, o anarquismo de Proudhon, a concepção histórica de Michelet, Taine e Renan, os novos rumos literários inspirados em Balzac, Flaubert e Zola. Paris, Londres e Berlim eram as fontes caudalosas desta agitação revolucionária. Em contraste, o ensino universitário mantinha-se intacto e avesso a mudanças, o que provocou conflitos entre os estudantes e a faculdade. Antero, lúcido e ávido de saber (leu toda a literatura realista e racionalista que, entretanto, ia  chegando de  França), saído  da  pacatez de S. Miguel e da disciplina austera do  colégio  do  Pórtico,  sofre  o  impacto,  bem   notório

 

quando afirma numa carta autobiográfica: "Varrida num instante toda a minha educação católica e tradicional, caí num estado de dúvida e incerteza, tanto mais pungente quanto, espírito naturalmente religioso, tinha nascido para crer placidamente e obedecer sem esforço a uma regra reconhecida".

Em Coimbra, explode a célebre "Questão Coimbrã", estando Antero na linha da frente ao revoltar-se contra o até então considerado patriarca das letras portuguesas, António Feliciano de Castilho, a quem chega mesmo a ridicularizar. Travou também um duelo com Ramalho Ortigão que o censura pela maneira insolente, pouco respeitosa, como tratara o velho poeta romântico. Convém adiantar, porém, que, mais tarde, Antero e Ramalho tornaram-se amigos.

 

Terminado o Curso de Direito, vai até S. Miguel, mas logo volta para Coimbra, resolvendo tomar contacto com o mundo do trabalho. Assim, em 1866, encontramo-lo em Paris, onde se emprega como tipógrafo durante 6 meses.

Regressado de Paris, transforma a casa onde morava com Jaime Batalha Reis no conhecido "Cenáculo", local onde se lia e discutia as obras europeias e as ideologias mais avançadas. Revolucionário e rebelde, chegou, inclusive, a pensar na criação de um partido político, exclusivamente operário.

 

Grupo dos Cinco (Grupo do Cenáculo), Porto, Phot. União, 1884
Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro

 

Em  1873 falece o pai e no ano seguinte é a sua vez de adoecer gravemente. Em 1876, depois da morte da mãe, volta a Paris para consultar o especialista Dr. Charcot. o mal que lhe foi diagnosticado era o histerismo. Antero começa a isolar-se.

 

Em 1881, adota as filhas do jornalista Germano Meireles, instalando-se com elas e com a viúva do amigo numa casa perto da praia de Vila do Conde. A viúva Meireles morre em 1885 e Antero vê-se na necessidade de internar as duas pequenas nas Doroteias do Porto, optando ele por continuar o seu retiro místico-búdico. Mas em 1891, parte com as duas pupilas para os Açores, na esperança de que elas fossem bem acolhidas pelos seus familiares. Tal não aconteceria e, depois, de muito custo, consegue confiá-las a uma famíla amiga. Como que se sentindo aliviado desse fardo, em setembro do mesmo ano põe cobro à vida, suicidando-se com um tiro na cabeça.

 

- Perfil literário -

 

Mestre incontestado da "Geração de 70", Antero é endeusado por muitos homens  de

letras, entre os quais Eça de Queirós, que se referiu a ele como "um génio que era um santo".

Ainda em pleno gozo do cognome que lhe tinha sido atribuído - "Príncipe da Mocidade" -, promoveu as "Conferências do Casino" e assumiu-se como um defensor acérrimo dos  ideais socialistas, na esteira de Proudhon.Mais tarde, todavia, enche-se de dúvidas e angústias metafísicas, bem espelhadas nos seus sonetos, de grande rigor formal e profundo conteúdo filosófico. As angústias, aliás, foram despoletadoras do seu suicídio, na sua terra natal, em 1891.

 

As obras que nos legou foram:

- Odes Modernas

- Primaveras Românticas

- Raios de Extinta Luz (póstuma)

- Sonetos Completos.

Joaquim Matias da Silva

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