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ANÁLISE DO SONETO

- Já sobre o coche de ébano estrelado -

 

Já sobre o coche de ébano estrelado

Deu meio giro a noite escura e feia;

Que profundo silêncio me rodeia

Neste deserto bosque, à luz vedado!


Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas costumado.


Só eu velo, só eu, pedindo à sorte

Que o fio, com que está minha alma presa

À vil matéria lânguida, me corte.


Consola-me este horror, esta tristeza,

Porque a meus olhos se afigura a morte

No silêncio total da natureza.


Poesias de Bocage, edição de Margarida Barahona, Lisboa, Seara Nova, 1978
 

GLOSSÁRIO:

V. 1 - ébano – madeira exótica de cor escura e muito rija; V. 5 - Zéfiro: vento oeste, na mitologia grega; vento brando; V. 7 - mavioso: harmonioso; o que, no canto, é agradável ao ouvido; V. 9 - velo: permaneço acordado; V. 11 - lânguida: fraca, debilitada; V. 11 - vil: desprezível; V. 11: vil matéria lânguida – corpo débil, decadente (=  o corpo humano).
 

QUESTIONÁRIO

(prova de exame nacional  de Literatura Portuguesa, código 734, 2012, 2.ª fase)

1. Indique a importância do espaço descrito no poema.
2. Descreva o modo como o sujeito poético a si mesmo se representa.
3. Comente o sentido da expressão paradoxal «Consola-me este horror» (verso 12).
4. Analise a relação existente, ao longo do soneto, entre a insónia e a temática da morte.

 

CENÁRIOS DE RESPOSTA:

1. Através das referências a um bosque «deserto» (v. 4), a um rio, a uma noite escura sob um céu estrelado, o poema sublinha o silêncio do ambiente e o adormecimento dos elementos da natureza, construindo um cenário de sossego total em que o sujeito poético pressente a morte.

 

2. O sujeito poético apresenta-se como um indivíduo isolado, que, naquele quadro de trevas e de quietude, mantém a consciência desperta. Além disso, há nele uma atitude de identificação com o «silêncio total da natureza» (v. 14) e uma vontade de libertação da «vil matéria lânguida» (v. 11).

 

3. A noite «escura e feia» (v. 2) que rodeia o sujeito poético aparece-lhe como promessa de uma morte libertadora. Assim, esse «horror» (v. 12) pode oferecer-lhe o consolo de prenunciar a concretização de um desejo.

 

4. A insónia vivida, causada pela inquietação e pelo sofrimento, contrasta com o silêncio e a quietude exteriores, tal como o «coche de ébano estrelado» (v. 1) contrasta com a ausência de luz na terra. Assim, a insónia aparece associada ao desejo de morte, pressentida pelo sujeito poético no «silêncio total da natureza» (v. 14).

 

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Outras linhas de leitura:

 

1. ATENTE:

a) Que a noite já vai alta e o silêncio é profundo. O sujeito lírico, acordado, deseja a Morte, que se confunde com esse seu tão apreciado «silêncio total da Natureza».


b) Que podemos vislimbrar duas partes lógicas do texto: na primeira, correspondente às duas quadras, o eu lírico faz-nos a descrição da Natureza circundante, em que o silêncio noturno é profundo (locus horrendus); na segunda (
só eu ... só eu ...) comunga a sua tristeza com a da Noite que prefigura a Morte;


c) Que as duas quadras e o primeiro terceto assentam em perífrases longas e arrastadas;


d) Que a linguagem revelada por essas mesmas perífrases (Noite transportada num coche de ébano; Sorte que corta o fio da vida como Átropos, uma das Parcas) e pela personificação da Noite, da Sorte, do Tejo e de Zéfiro é clássica, misturando-se essa linguagem com a linguagem romântica e feita sempre à custa de processos idênticos;


e) Que há uma mudança de ritmo l no primeiro terceto, a que a repetição do advérbio de exclusão e o encavalgamento transmitem maior movimento e poder de intensificação;
 

f) Que há uma aliteração com caráter de harmonia imitativa no quinto verso; uma anáfora intensificativa nos sétimo e oitavo versos; e o eufemismo no primeiro terceto;
 

g) Que além do tom confessional («só eu velo, só eu...») se verifica um  certo masoquismo, que caracteriza, aliás, grande parte dos sonetos de Bocage («consola-me este horror, esta tristeza»).

2. ESQUEMA RIMÁTICO: ABBA / ABBA / CDC / DCD, com rimas interpolada e emparelhada, nas quadras; cruzada, nos tercetos; consoante, ao longo de toda a composição, sempre feminina ou grave.

 

BRAGANÇA, António (1981). Textos e comentários, c/ adaptações.
Publicado por Joaquim Matias da Silva

 

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