Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
Outros Autores
 

CESÁRIO VERDE - A mulher na sua poesia

 

 

Deambulando pelos dois espaços que o acolheram, o poeta depara com dois tipos de mulher, que curiosamente estão articulados com os locais em que se movimentam.

 

Assim, tal como a cidade se associa à fatalidade, à morte, à destruição, à falsidade, também a mulher citadina é apresentada como frígida, frívola, calculista, madura, destrutiva, dominadora, sem sentimentos.

 

O erotismo da mulher citadina é expresso em imagens antitéticas que permitem opô-la à mulher campesina, capaz de fazer despoletar um amor puro e desconfinado.

 

 Na verdade, a sensualidade da mulher fatal leva o sujeito poético à humilhação, ao conseguir reduzir o amante à condição de presa fácil e ao dar origem a uma reacção sadomasoquista entre a mulher, que personifica o artificialismo da cidade, e a sua vítima.

 

Em contraste com esta mulher predadora, surge um tipo feminino, por exemplo em "A Débil", que é o oposto complementar das esplêndidas, frígidas, aristocráticas, presentes em poemas como "Deslumbramentos" e "Vaidosa". Essa mulher frágil, terna, ingénua, despretensiosa, mesmo que enquadrada na cidade, como é o caso da que é retratada em "A Débil", desperta no poeta o desejo de protegê-la e de estimá-la, mas não o de se prostrar a seus pés, porque esta não se compraz em devorar a sua presa; os seus actos são ingénuos e o seu despretensiosismo só poderá relacionar-se com a mulher do campo, capaz de ofertar o amor e a vida inerentes aos espaços rurais.

 

Pelo que foi dito, parece que mais duas dicotomias são perceptíveis em Cesário: a mulher fatal/a mulher angélica (associadas à cidade e ao campo, respectivamente) e, ligada a esta, a morte/a vida, dualidades que parecem percorrer toda a poética de Cesário  e  que,    segundo   Hélder   Macedo,  são  a  raiz estruturante   de   toda   a  obra,   e   que,  para  Margarida

Mendes, pode ser "vista como uma série de dualidades imbricadas umas nas outras e derivadas da fundamental oposição cidade / campo: do lado da cidade, a humilhação sexual, a noite, o confinamento, a morte, a doença, o presente; do lado do campo, a libertação amorosa, a saúde, a vida, o passado infantil. Em "Nós" essa dualidade estender-se-ia à oposição sociedades industriais / sociedades rurais e também proprietários / trabalhadores".
 

Joaquim Matias da Silva

Ver bibliografia consultada

 

Início da página

 

© Joaquim Matias 2010

 

 

 

 Páginas visitadas