Deambulando pelos dois espaços que o acolheram, o poeta
depara com dois tipos de mulher, que curiosamente estão
articulados com os locais em que se movimentam.
Assim, tal como a cidade se associa à fatalidade, à
morte, à destruição, à falsidade, também a mulher
citadina é apresentada como frígida, frívola,
calculista, madura, destrutiva, dominadora, sem
sentimentos.
O erotismo da mulher citadina é expresso em imagens
antitéticas que permitem opô-la à mulher campesina,
capaz de fazer despoletar um amor puro e desconfinado.
Na verdade, a sensualidade da mulher fatal leva o
sujeito poético à humilhação, ao conseguir
reduzir o amante à condição de presa fácil e ao dar origem a uma reacção sadomasoquista entre a mulher, que
personifica o artificialismo da cidade, e a sua vítima.
Em contraste com esta mulher predadora, surge um tipo
feminino, por exemplo em "A Débil", que é o oposto
complementar das esplêndidas, frígidas, aristocráticas,
presentes em poemas como "Deslumbramentos" e "Vaidosa".
Essa mulher frágil, terna, ingénua, despretensiosa,
mesmo que enquadrada na cidade, como é o caso da que é
retratada em "A Débil", desperta no poeta o desejo de
protegê-la e de estimá-la, mas não o de se prostrar a
seus pés, porque esta não se compraz em devorar a sua
presa; os seus actos são ingénuos e o seu
despretensiosismo só poderá relacionar-se com a mulher
do campo, capaz de ofertar o amor e a vida inerentes aos
espaços rurais.
Pelo que foi dito, parece que mais duas dicotomias são
perceptíveis em Cesário: a
mulher fatal/a
mulher angélica
(associadas à cidade e ao campo, respectivamente) e,
ligada a esta,
a morte/a vida,
dualidades que parecem percorrer toda a poética
de Cesário e que,
segundo Hélder Macedo,
são a raiz estruturante
de toda a obra,
e que, para Margarida
Mendes, pode ser "vista como uma série de dualidades
imbricadas umas nas outras e derivadas da fundamental
oposição cidade / campo: do lado da cidade, a humilhação
sexual, a noite, o confinamento, a morte, a doença, o
presente; do lado do campo, a libertação amorosa, a
saúde, a vida, o passado infantil. Em "Nós" essa
dualidade estender-se-ia à oposição sociedades
industriais / sociedades rurais e também proprietários /
trabalhadores".