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CESÁRIO VERDE - A sua poesia


 

Em 25 de Fevereiro comemora-se mais um aniversário do nascimento de José Joaquim Cesário Verde. Foi precisamente nesse dia, decorria o ano de 1855, que nasceu, em Lisboa, o poeta a quem muitos dizem dever-se a renovação impressionista da linguagem poética, tornando-se, assim, Cesário um precursor de Fernando Pessoa e do modernismo português.

 

Desde muito jovem (contava apenas 18 anos, quando o Diário de Notícias publicou os seus primeiros versos), Cesário Verde deixou-se corroer pelo bichinho das letras.

 

Escrevia bem, porque sabia ver bem, sabia seleccionar e dosear bem as suas impressões, realçar as linhas e os volumes, o agradável e o acerbo, o nobre e o corriqueiro, o imaginado e o visto, por meio de alternâncias e contrastes.

Deambulando casualmente pelas ruas e becos de Lisboa, Cesário, qual cameraman dos tempos atuais, vai registando o ambiente mutável e variegado com que se confronta. Nada escapa aos seus sentidos apurados: os calceteiros de cócoras nas ruas, a engomadeira tísica, os marçanos, os carvoeiros, os barbeiros, os operários enfarruscados, as varinas de pernas nuas e ancas cheias, as padeiras enfarinhadas, os ferreiros junto dos foles, as pessoas nos cafés, a patrulha que passa, os carrinhos de mão, as enxós, podoas, navalhas de ponta, as chuvadas, a lama, as ruas esburacadas, o toque das trindades, as avenidas e os bairros pobres, o aspecto das casas e as condições higiénicas, os transportes colectivos, o gás de iluminação (ver, a título de exemplo, “A Débil”, “Humilhações”, “Contrariedades”, “Num Bairro Moderno, “Cristalizações”, “O Sentimento dum Ocidental”). Transporta a realidade para a poesia para, recorrendo a uma “visão de artista”, metamorfosear essa realidade, despertando brumosas recordações, mundos oníricos, irisados, ou evocando nostalgicamente um mundo rural repleto de vitalidade, potente e pletórico. Relativamente a este último, é curioso constatar-se que ele não tem, na poesia de Cesário, o aspecto idílico, paradisíaco, que teve para os poetas anteriores.

 

Note-se que este espaço não aparece associado ao bucolismo ou ao devaneio poético, mas é um espaço real, aquele onde se podem observar os camponeses na sua lide diária, onde as alegrias se manifestam face aos prazeres da vida e onde as tristezas ocorrem quando os acontecimentos não seguem um curso normal. É o dia-a-dia concreto, autêntico e real, aquele com que Cesário contacta e do qual dá conta de uma forma realista, mas onde também se presencia a sua subjetividade, perceptível na preferência que manifesta por este local.

 

Face a olhar tão minudente não podemos, porém, cair na tentação fácil de enquadrar Cesário num qualquer movimento literário ou estético. É que Cesário é um inconformado no que respeita a filiações. Como grande artista que é, torna-se mais evidente, antes, a sua aproximação a várias estéticas surgidas no século em que viveu. Assim, se se tiver em conta o interesse que manifesta pela realidade que o circunda, a forma minuciosa como a capta e a objectividade e o pormenor descritivo com que transmite o real, é fácil detetar aqui os princípios gerais do realismo. E uma análise mais cuidada de alguns poemas permite percecionar até os ideais do naturalismo, dado que o meio surge como determinante dos comportamentos,   que  são  dissecados  pelos adeptos deste movimento um pouco à luz do método analítico usado pelas ciências.

 Essa captação do real não é, na verdade, feita de forma "seca", isto é, desligada de um conjunto de circunstâncias levadas em consideração pelos naturalistas, como as preocupações de ordem sociocultural, sob a influência do determinismo e do positivismo.

Associar o parnasianismo à poesia do autor também não é de todo descabido, mesmo não ignorando que nem todos os princípios enunciados por esta escola estão presentes na obra de Cesário. Todavia, a objectividade dos temas, baseados na natureza e no quotidiano, preconizados pela escola parnasiana, é visível no autor em análise, assim como as formas exactas e correctas, ou seja, o rigor formal, ou as notações dos aspectos visíveis das coisas, das cores, dos dados sensoriais, de maneira a aproximar a poesia das artes plásticas.

 

Finalmente, convém salientar que a poesia do quotidiano despoetiza o acto poético, reflectindo a impressão que o exterior deixa no interior do poeta. Daí que se estabeleçam conexões entre esta poesia e a pintura impressionista: o artista pretende captar as impressões que as coisas lhe deixam. Ora, numa atitude antiliterária, Cesário projecta no exterior o seu interior, nascendo, assim, a poesia do real, que lhe permite rever-se nas coisas, de modo a atingir o equilíbrio. É esta atitude que leva Cesário a situar-se próximo do impressionismo.

 

Burguês, mas rebelde, filho duma época positiva empenhada na acção social, criado numa família de convicções republicanas, Cesário Verde é um denunciador de injustiças sociais. Esta questão que atravessa geneticamente toda a sua obra tem sido tratada, no entanto, de modos bastante diversos: para uns, haveria em Cesário simpatia e mesmo solidariedade com o povo e as classes trabalhadoras; para outros, desprezo, distância e ausência de intenções humanitárias. Uma coisa é certa: entre as realidades concretas, sensoriais e quotidianas, que fizeram vibrar a alma de Cesário, conta-se o formigueiro de todos quantos mourejavam em misteres humildes. O poeta louva e promove o trabalhador desprezado, identificando-o com a alma popular e sentindo-se bem ao imitá-lo (“Nós”). Lastima ainda a asfixia de todos os que vivem ou vegetam encarcerados nos ambientes citadinos, pesados como chumbo (“Contrariedades” e “Cristalizações”) e a sorte dos trabalhadores agrícolas. Aliás, é este sofrimento dos trabalhadores agrícolas que constitui a única mancha negra no belo quadro da vida campesina (“Provincianas”), regra geral encarada como representando o bem, a felicidade, a libertação amorosa, a saúde, a vida, o bem-estar, o passado infantil, contrariamente à cidade que conota o mal, o pessimismo, a desilusão, a frustração, a humilhação sexual, a noite, o confinamento, a morte, a doença, a infelicidade, enfim, o presente.

 

Uma outra vertente em que se descortina o carácter inconformista de Cesário Verde prende-se com a luta titânica por ele empreendida contra a própria doença (tuberculose) que, insidiosamente, o ia minando. Cesário lutou contra ela corajosamente, até que em 19 de Julho de 1886, em Caneças (Loures), sobreveio a morte precoce – tinha este lutador nato a “tenra” idade de 31 anos (!...), facto que só valida a frase proferida algumas décadas mais tarde por um dos seus mais indefectíveis admiradores (Fernando Pessoa): Morrem jovens os que os Deuses amam…

 

O REAL NA POESIA
 

Lisboa era, no tempo de Cesário, uma cidade de contrastes. E ele retrata-a, realçando a arquitectura antiga e os bairros modernos, onde se instala a nova burguesia.

É na captação do real que surge a outra face da realidade lisboeta: a dos trabalhadores que denunciam a sua origem campesina.

 

Ao vaguear (o célebre deambular), o "eu" denuncia o lado oposto ao da grandeza, focando os lugares pobres e nauseabundos, os humildes que sustentam a cidade.

 

Para Cesário, ver é perceber o que se esconde e, por isso, percepciona a cidade minuciosamente através dos sentidos. E o "eu" resulta daquilo que vê.

 

Em Cesário Verde, raramente os interiores são retratados, porque o "eu" está em movimento, numa cidade cheia de homens autênticos, e a sua consciência acompanha essa evolução do espaço.
 

O IMPRESSIONISMO CAPTADO DO REAL
 

A poesia do quotidiano despoetiza o ato poético, refletindo a impressão que o exterior deixa no interior do poeta. Daí que se estabeleçam conexões entre esta poesia e a pintura impressionista: o artista pretende captar as impressões que as coisas lhe deixam, tal como Cesário faz.

 

Numa atitude antiliterária, o poeta projeta no exterior o seu interior, nascendo, assim, a poesia do real, que lhe permite rever-se nas coisas, de modo a atingir o equilíbrio. É esta atitude que leva Cesário a situar-se próximo do Impressionismo.
 

A POESIA INTERVÉM CRITICAMENTE
 

Perante as ideologias contraditórias que caraterizavam o tempo de Cesário, este escolhe a que representava uma transformação social mais rápida: o republicanismo.

Tal como Oliveira Martins, também Cesário conhece a "lei do mais forte", mas faz denúncias mais acutilantes, concluindo que o mais forte não é o rico, mas o pobre, o povo, com o qual se identifica, rejeitando a industrialização adotada por Portugal e pela classe burguesa a que pertence. Compara o domínio das nações do Norte, relativamente ao desenvolvimento industrial, à supremacia exercida pela cidade sobre o campo.

 

Joaquim Matias da Silva

 

O Poema "Deslumbramentos"

 

 

 

 

O Poema "Num bairro moderno"

 

 

 

 

O Poema "Nós"

 

 

 

 

 

O Poema "O sentimento dum ocidental"

 

 

 

 

 

O Poema "Contrariedades"

 

 

 

 

 

O Poema "De tarde"

 

 

 

 

 

A vida, o contexto, a obra

 

 

 

Bibliografia:

* CASTRO, Sílvio, O Percurso Sentimental de Cesário Verde (1990). Lisboa: Instituto de Cultura e Língua

   Portuguesa.

* COELHO, Jacinto do Prado, "Um clássico da modernidade: Cesário Verde", "Cesário e Baudelaire" e

   "Cesário Verde escritor" (1961), in “Problemática da História Literária”, 2.ª ed. Lisboa.

* MACEDO, Hélder, Nós – Uma leitura de Cesário Verde (1975). Lisboa: Plátano Editora.

* MOURÃO-FEREIRA, David, "Notas sobre Cesário Verde" (1981), in “Hospital das Letras”, 2.ª ed.

   Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda.

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Joaquim Matias da Silva

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