É este o aspecto temático mais persistente na poesia de
Cesário Verde. O contraste simbólico Cidade/Campo está
sempre presente. Mas no espaço criado pela polaridade
Cidade/Campo há quem considere Cesário essencialmente um
poeta do campo (Alberto Caeiro diz: "Ele era um camponês
/ que andava preso em liberdade pela cidade") ou então
da cidade (Álvaro de Campos). De qualquer dos modos,
essa dicotomia é bem notória ao longo da sua obra –
mesmo nos poemas citadinos aparecem fugas para imagens
campestres (ex: "o choro de uma nora", em
Cristalizações).
E se a poesia do autor reflecte o binómio cidade/ campo,
tal deve-se à dupla vivência que este "poeta-pintor"
teve. Com efeito, o "eu" passa a sua infância no campo e
esse contacto determina a visão que dele nos dá.
Pintura impressionista de
Claude Monet
O curioso é poder constatar-se que o campo apresentado
não tem o aspecto idílico, paradisíaco que teve para os
poetas anteriores. Note-se que este espaço não aparece
associado ao bucolismo ou ao devaneio poético, mas é um
espaço real, aquele onde se podem observar os camponeses
na sua lide diária, onde as alegrias se manifestam face
aos prazeres da vida, e onde as tristezas ocorrem quando
os acontecimentos não seguem um curso normal. É o
dia-a-dia concreto, autêntico e real, aquele com que
Cesário contacta e do qual dá conta de uma forma
realista, mas onde também se presencia a sua
subjectividade, perceptível na preferência que manifesta
por este local.
Cesário associa o campo à vida, à fertilidade, à
vitalidade, ao rejuvenescimento, porque nele não há a
miséria constrangedora, o sofrimento, a poluição
aterradora, os cheiros nauseabundos, os seres humanos
dúbios, os exploradores, os ricos pretensiosos que
desprezam os humildes. Estes seres, estranhos ao campo,
pode o "eu" encontrá-los na cidade.
Ao contrário da
libertação que o campo lhe faculta, o espaço citadino
empareda-o, sufoca--o, entedia-o, incomoda-o, do mesmo
modo que incomoda os pobres trabalhadores que o procuram
para aí encontrarem melhores condições de vida.
Uma rua da cidade: pintura impressionista de
Edouard Manet.
Malfadadamente,
porém, a realidade sombria com que se confrontam
esses pobres trabalhadores é dominada pela
injustiça e pela subserviência a que são
votados. Apesar
de tudo, não têm medo do trabalho, enfrentando as lutas
quotidianas com determinação e força, numa atitude
corajosa. Por isso, os pobres são ricos aos olhos de
Cesário, um dos poucos que sabia que, sem eles, os
cosmopolitas teriam poucas hipóteses de sobrevivência.
Ao ler-se o poema "De Tarde", pertencente a Em
Petiz, é visível o tom irónico em relação aos
citadinos, que calmamente esperam o "leiteiro", cujo
"pregão" os tira do sono, mas onde o tom eufórico também
sobressai ao relembrar momentos vividos, ao lado da sua
"companheira", ao percorrer os lugares campestres e ao
deparar com os aspectos só a ele inerentes.
Se o elogio ao campo pode ser identificado em poemas
como o atrás indicado, também o poema "Nós" não deixa de
o focalizar, articulando-se com a recordação da família.
Contudo, sendo este o poema mais longo do poeta, é aí
também perceptível uma crítica cerrada à cidade, à
capital maldita, devoradora de vidas, inclusive a dos
irmãos, local onde os sinos tocam a rebate, anunciando a
morte de mais um dos seus habitantes; é a cidade
desertificada, onde os transeuntes se restringem aos
padres, ao sineiro e aos médicos que socorrem as vítimas
da peste.
Entretanto, a composição poética que melhor traduz o
ambiente citadino é "O Sentimento dum Ocidental". Aqui a
cidade é descrita em várias fases do dia, com início no
final da tarde ("'Ave-Marias") e a terminar em "Horas
Mortas", e onde o forte visualismo de Cesário não deixa
de captar os seres que aqui circulam.
A arte de Cesário é única, autêntica, reveladora de uma
preocupação social sentida, que chega a comover o leitor
pela sua veracidade e pormenor descritivo,
transportando-o para o mundo que foi o dele, com as suas
imperfeições e as suas virtudes. Atente-se que a força
inspiradora de Cesário é a terra-mãe, sendo nela que
Cesário encontra os seus temas e o estímulo para
escrever. É talvez por isto que, habitualmente, se
associa o poeta ao mito de Anteu, porque também este ia
buscar a sua força à terra, sua mãe, para derrotar os
que da costa líbia se aproximassem.
Em suma, do lado da cidade, Cesário destaca tudo o que
conota o mal, o pessimismo, a desilusão, a frustração –
a humilhação sexual, a noite, o confinamento, a morte, a
doença, a infelicidade, enfim, o presente; do lado do
campo, tudo o que representa o bem, a felicidade – a
libertação amorosa, a saúde, a vida, o bem-estar, o
passado infantil.
Ambientes campesinos: “Nós”, “De Verão” e
“Provincianas”.
Ambientes citadinos: “O Sentimento dum Ocidental”,
“Contrariedades”...