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CESÁRIO VERDE - Um clássico da modernidade

 

 

Burguês e rebelde, filho duma época positiva empenhada, na acção social, criado numa família de convicções republicanas, Cesário Verde quis o triunfo da burguesia no próprio estilo, orgulhosamente directo, familiar, abraçado à vulgaridade quotidiana. Começou por compor poesias epigramáticas e por cantar o amor ora bucolicamente puro, ora cheio de sensualismo (“Esplêndida”), ora evocativo de mulheres mundanas (“Deslumbramento”, “Frígida”). Depois calcou a pés com desassombro jovial, a hierarquia convencional dos estilos. Abriu à poesia as portas da vida, e nela entraram os ruídos, os cheiros e a linguagem das ruas. Tornou-se o poeta da cidade, um dos maiores em qualquer tempo e em qualquer língua, genuíno, original, profundamente renovador, quer ao descrever os quadros e os tipos citadinos, quer ao denunciar, em sóbrias palavras, as atitudes subjectivas provocadas pela vida exterior.

 

Escrever bem era em Cesário Verde ver bem, seleccionar e dosear as impressões, realçar as linhas e os volumes, o agradável e o acerbo, o nobre e o corriqueiro, o imaginado e o visto, por meio de alternâncias e contrastes.

 

A poesia cesariana reflecte a realidade como um espelho passando numa estrada. A organização mais característica dos seus poemas é precisamente a narrativa de passeios aparentemente casuais em que um observador vai registando o ambiente mutável e miscelâneo que se lhe depara. E, por isso, um realista, um naturalista, até um parnasiano. Nada escapa aos seus sentidos apurados: os calceteiros de cócoras nas ruas, a engomadeira tísica, as varinas de pernas nuas e ancas cheias, as padeiras enfarinhadas, os ferreiros junto dos foles, os marçanos, os carvoeiros, os barbeiros, os operários enfarruscados, as pessoas nos cafés, a patrulha que passa, os carrinhos de mão, as enxós, podoas, navalhas, as chuvadas, a lama, as ruas esburacadas, o toque das Trindades, o aspecto das casas e as condições higiénicas, as avenidas e os bairros pobres, os transportes colectivos, o gás de iluminação. (Ver, a título de exemplo, “A Débil”, “Humilhações”, “Contrariedades”, “Num Bairro Moderno”, “Cristalizações”, “O Sentimento dum Ocidental”). 

 

 

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Joaquim Matias da Silva

 

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