A linguagem de Cesário é uma linguagem nova, de seiva
burguesa e popular, rica de termos concretos, bastante
maleável e atrevida para sugerir a mistura de sensações
e as rápidas interferências do físico e do anímico, uma
linguagem impressionista e fantasista, e ao mesmo tempo
nervosa, coloquial. Sob certos aspectos, Cesário
desempenhou na linguagem poética o mesmo papel que Eça
desempenhara na renovação da prosa, tornando a frase
dúctil, aproximando-a da realidade e afastando-a da
retórica balofa. Identificando a visão plástica, de
aguarelista, com a visão do poeta, conferiu ao seu
estilo as características do naturalismo; alude a Balzac,
a Taine e a Spencer; o seu vocabulário está cheio de
termos concretos, alguns deles técnicos ou de linguagem
familiar, com sufixos expressivos.
Entretanto, filiar Cesário numa qualquer escola
literária é, talvez, demasiado arriscado. Parece,
todavia, evidente a sua aproximação a várias estéticas
surgidas no século em que viveu.
Assim, se se tiver em conta o interesse que manifesta
pela realidade que o circunda, a forma minuciosa como a
capta e a objectividade e o pormenor descritivo com que
transmite o real, é fácil detectar aqui os princípios
gerais do realismo. E uma análise mais cuidada de alguns
poemas permite percepcionar os ideais do naturalismo,
dado que o meio surge como determinante dos
comportamentos, que são dissecados pelos adeptos deste
movimento um pouco à luz do método analítico usado pelas
ciências. Em suma, essa captação do real não é feita de
forma "seca", isto é, desligada de um conjunto de
circunstâncias levadas em consideração pelos
naturalistas, como as preocupações de ordem
sociocultural, sob a influência do determinismo e do
positivismo.
Como já se disse, a realidade não é captada friamente e,
por vezes, é mesmo transformada pelo olhar do artista.
Pintura impressionista de Edouard
Manet.
Ora é isto que acontece, por exemplo, no poema "De
Tarde", onde um piquenique nos é descrito de forma algo
subjectiva, porque a realidade foi filtrada pelo olhar
atento do "eu" que vê nos seios da companheira "duas
rolas". Isto significa que Cesário se aproxima dos
impressionistas que captam a realidade mas que a
retraíam já filtrada pelas suas percepções, ou pelas
daqueles que a observam.
Mas não é apenas com as correntes mencionadas que
Cesário parece ter afinidades. Com efeito, há mesmo quem
o designe por parnasiano. Associar o parnasianismo à
poesia do autor parece ter algum cabimento, embora se
defenda que nem todos os princípios enunciados por esta
escola estão presentes na obra de Cesário. Todavia, a
objectividade dos temas, baseados na natureza e no
quotidiano, preconizados pela escola parnasiana é
visível no autor em análise, assim como as formas
exactas e correctas, isto é, o rigor formal, ou as
notações dos aspectos visíveis das coisas, das cores,
dos dados sensoriais, de maneira a aproximar a poesia
das artes plásticas.
Apesar da objectividade defendida por esta escola e da
proximidade que o autor tem com ela, torna-se, também,
evidente a vulnerabilidade de Cesário, facto que parece
desculpável, dado ser praticamente impossível que o
artista não comunique à obra um pouco da sua
maneira de ser, o que, também, acontece com o
autor.
Campo de
papoilas - Pintura impressionista de Claude Monet.
O
sentimentalismo característico da subjectividade aparece
frequentemente nas composições de Cesário, e aqui surgem
os primeiros desvios em relação à escola parnasiana.
Nada o contrariava mais – dizia – do que escrever em
prosa. É que lhe repugnava a continuidade discursiva; o
temperamento pedia-lhe uma forma de expressão
fragmentária, ao sabor dos estímulos do itinerário (a
poesia de Cesário é uma poesia de transeunte, de quem
erra por caminhos da cidade ou do campo) e das
consequentes associações mentais. A sua estrofe
preferida é a quadra em versos decassilábicos e
alexandrinos, à Baudelaire, usando frequentemente o “enjambement”
ou
transporte.
Além de uma
adjectivação dupla,
a mostrar as duas faces da realidade (a objectiva e a
subjectiva), emprega a
hipálage, jogando ora com o
adjectivo
ora com o
advérbio:
"Cheiro
salutar e honesto
ao pão do forno"
"Sobre os teus pés decentes,
verdadeiros"
"... os teus cabelos muito
loiros luziam, com doçura, honestamente."
"E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes
amareladamente,
os cães
parecem lobos"
"Um forjador manobra um malho, rubramente.”
As
imagens imprevistas
e a
ironia
também são muito frequentes.