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CESÁRIO VERDE - A questão social

 

 

Perante as ideologias contraditórias que caracterizavam o tempo de Cesário, este escolhe a que representava uma transformação social mais rápida: o republicanismo.

Tal como Oliveira Martins, também Cesário conhece a "lei do mais forte", mas faz denúncias mais acutilantes, concluindo que o mais forte não é o rico, mas o pobre, o povo, com o qual se identifica, rejeitando a industrialização adoptada por Portugal e pela classe burguesa a que pertence. Compara o domínio das nações do Norte, relativamente ao desenvolvimento industrial, à supremacia exercida pela cidade sobre o campo.

 

Por isso, Cesário Verde é um denunciador de injustiças sociais. Esta questão que atravessa geneticamente toda a sua obra tem sido tratada, no entanto, de modos bastante diversos: para uns, haveria em Cesário simpatia e mesmo solidariedade com o povo e as classes trabalhadoras; para outros, desprezo, distância e ausência de intenções humanitárias. Uma coisa é certa: entre as realidades concretas, sensoriais, quotidianas que fizeram vibrar a alma de Cesário, conta-se o formigueiro de todos quantos mourejam em misteres humildes. Louva e promove o trabalhador desprezado, identificando-o com a alma popular e sentindo-se bem ao imitá-lo:

 

"E sinto, se me ponho a recordar
tanto utensílio, tantas perspectivas,
as tradições antigas, primitivas,
e a formidável alma popular!

Oh! que brava alegria eu tenho, quando
sou tal como os mais! E, sem talento,
faço um trabalho técnico, violento,
cantando, praguejando, batalhando!"

                                                       (“Nós”)

 

Cesário lastima ainda a asfixia de todos os que vivem ou vegetam encarcerados nos ambientes citadinos pesados como chumbo (“Contrariedades” e “Cristalizações”) e a sorte dos trabalhadores agrícolas. Alias, é este sofrimento dos trabalhadores agrícolas que constitui a única mancha negra no belo quadro da vida campesina (“Provincianas”). Os assalariados são representados na sua gestualidade específica em união com os seus instrumentos de trabalho.
 

Joaquim Matias da Silva

 

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